Brasília acordou esta semana com uma revelação: Lula vai passar a usar um celular. Não é piada. Segundo nota publicada por Lauro Jardim, assessores presidenciais andam sussurrando nos corredores do Planalto que a solução para os índices catastróficos de popularidade do governo está num aparelhinho que o presidente “não sabe manejar, não entende como funciona e tem forte resistência em se aproximar”.
Se a notícia fosse sobre qualquer outro septuagenário brasileiro, seria apenas mais um episódio da eterna luta entre gerações e tecnologia. Mas estamos falando do presidente da República no ano de 2025, não de uma tia do zapzap. A informação é tão surreal quanto reveladora: o homem que governa um país de mais de duzentos milhões de habitantes, onde até cachorro tem Instagram, vive numa bolha pré-digital. Enquanto isso, o mais recente monarca absoluto de uma teocracia a ascender ao cargo dava sinais de ser cronicamente online na época que ainda atendia por Cardeal Robert.
O diagnóstico oficial, claro, continua o mesmo: temos um “problema de comunicação”. Como escrevi semana passada neste O Fator, é sempre a primeira e última explicação para tudo que dá errado em Brasília. Governo impopular? Problema de comunicação. Economia patinando? Fake news do dólar, desmentida de forma embaraçosa. Chuva no fim de semana? Devem estar comunicando errado a previsão do tempo.
Mas desta vez, admito, pode haver algo diferente. Não porque o celular seja uma ferramenta alquimista capaz de transformar chumbo em ouro político, mas porque talvez as ondas do 5G vacinem o presidente contra a doença do isolamento. E aí chegamos ao ponto nevrálgico da questão: o problema pode não ser tanto não saber usar TikTok, mas viver numa versão candanga da fábula de Hans Christian Andersen.
Lembram da história? Um rei vaidoso é ludibriado por alfaiates vigaristas que prometem confeccionar roupas invisíveis aos olhos de quem fosse incompetente ou indigno. Todos na corte, com medo de parecer incapazes, elogiam as vestes inexistentes. O monarca desfila convencido de estar elegantemente trajado, até que uma criança grita a verdade: “o Rei está nu!”
No Palácio da Alvorada, todos concordam: o Brasil nunca esteve tão bem vestido. Nesse processo, uma figura geralmente é apontada como protagonista: Janja da Silva, a primeira-dama, é creditada como alguém que desembarcou no poder com o deslumbramento natural de quem salta de uma vida comum para os palácios da República, e tornou-se a alfaiate-chefe desta operação de ilusionismo político. Não a conheço e não posso confirmar a informação, mas não a julgo. Quem viveu décadas longe do poder e de repente se vê cercada por assessores, seguranças, aeronaves presidenciais e cerimoniais de Estado pode naturalmente desenvolver uma percepção alterada da realidade. Não é errado, mas tem tratamento. O problema surge quando essa percepção contamina o termômetro político do mandatário, que, velho de guerra, deveria saber mais.
Um presidente que depende exclusivamente do celular da primeira-dama é um presidente isolado. Ele nunca trocou uma figurinha com o Haddad no WhatsApp? Isso explica muita coisa. Se as notícias ruins são suavizadas ou simplesmente não chegam, as críticas são tomadas como conspirações e o zeitgeist vira fake news. E assim, dia após dia, tijolo por tijolo, constrói-se um muro entre o Planalto e o país real.
Não é fenômeno exclusivo do atual mandato, convenhamos. Todos os políticos, de prefeito a presidente, enfrentam o risco do isolamento palaciano. Mas poucos viveram num grau tão extremo de desconexão com as ferramentas básicas de comunicação do século XXI. Não ter celular em 2025 é como governar de olhos vendados.
Aqui reside a importância da notícia. Não pela ingênua esperança de que Lula vire influencer, muito menos porque desejemos que ele poste fotos das próprias vísceras ensanguentadas, mas porque revela um sintoma de algo muito mais grave: um presidente que não apenas evita as redes sociais, mas vive isolado até mesmo dentro do próprio governo.
O celular é apenas a ponta do iceberg. Se Lula precisa ser convencido a usar um aparelho para se comunicar com o país, imagine quantas outras conversas diretas ele não tem! Quando foi a última vez que sentou informalmente com um ministro para um papo franco, sem assessores dourando a pílula? Quando conversou cara a cara com um governador sem que a conversa fosse previamente roteirizada?
Um presidente que depende exclusivamente de relatórios escritos e reuniões formais é um presidente surdo. Não capta o tom da conversa, não percebe hesitações, não lê entrelinhas. Perde aquele momento crucial em que um ministro sussurra “chefe, a coisa tá feia lá na base” ou “ninguém está acreditando nessa história”. O celular pode ser o equivalente digital da criança na praça, aquela voz que grita verdades inconvenientes. A questão é se haverá coragem para enxergar o que aparece na tela. Porque uma coisa é colocar o aparelhinho na mão do presidente. Outra bem diferente é convencê-lo de que o problema não seja a comunicação, mas o que há para comunicar