“Excelência.”
A palavra chega antes de mim. Rouba a cena. Impõe o silêncio na sala. E eu, que deveria ser o centro, entro depois… diminuído por ela.
É teatro. Tem suas características. Portas que se abrem sem que eu as toque, reverências mecânicas, vozes tão medidas que cada sílaba parece ensaiada. Um ritual solene que, em vez de me elevar, me esvazia. O título brilha, mas seu reflexo me deixa nu.
Julgar. Que ofício é este? Ciência? Não, nunca. A vida não cabe em artigos, não se deixa somar ou dividir. Julgar é tragédia: medir lágrimas com régua, carimbar feridas e acreditar que o sangue respeitará a formalidade.
Não respeita. Julgar é um gesto desesperado de impor ordem ao caos. E a pergunta que nunca se cala: serei eu quem julga o processo… ou é o processo que me julga?
Lá embaixo, no rés-do-chão, a Justiça ainda respira. O Colega sente o hálito do réu, vê as mãos das testemunhas tremerem, percebe o suor no colarinho do advogado. Ali, a dor não pede licença.
Aqui em cima, não. A vida chega pela tela. Fria. Distante. Petições, certidões, PDFs… tantos PDFs. São lápides digitais. O juridiquês serve de mortalha: a tragédia entra aos gritos e sai em silêncio. A tela brilha, mas não sua. E pergunto-me: pode a Justiça viver apenas desse brilho, sem o suor? Pode o Julgador respirar ar condicionado e crer que enxerga o mundo? Todo artista, disse Cartola, reprisado por Milton Nascimento em outra canção, deve ir aonde o povo está. E nós? Não deveríamos também? Ou a toga nos condena a um palco vazio, onde a verdade morre sem aplausos?
O gabinete é um aquário. Sem cheiro, sem lágrimas. E num aquário, até um peixe pequeno se imagina Deus. É fácil esquecer que a vida de alguém pode depender da minha pressa de sexta-feira ou do mal-estar digestivo de um almoço qualquer.
E não é só comigo. A liturgia envolve a todos: servidores, colegas e quem vive o foro no dia a dia. Muitos já carregam no corpo a máxima de que “o hábito faz o monge”, mesmo sem a certeza de que o tal hábito garante a Santidade. Antes de qualquer frase, o “Excelência” brota automático, quase como respiração.
Mas, de vez em quando, acontece o improvável. Uma brecha. O protocolo cede, e alguém se arrisca a falar comigo como se fala com gente comum, e não com um deus. Sem verniz. Sem escudo. Apenas prosa. E nesse instante, sinto algo raro: não sou só função, sou pessoa. Ali nasce a verdadeira vitória, a amizade, que floresce no meio da liturgia, apesar de todas as etiquetas.
E a ironia permanece: a distância que ameaça petrificar-me é a mesma que me obriga a enxergar o mapa inteiro. E o mapa não mente. Ninguém luta apenas por dinheiro. O dinheiro é só a lápide de um sentido perdido. O que chega até mim não são fatos, é o vazio que deixam para trás.
“Excelência”. Palavra grande para um homem pequeno. O que eu queria, no fundo, não era essa glória fria. Queria ser outra coisa. Guardador de corações partidos. Catador de cacos. Oferecer colo, inventar um fiapo de esperança, diminuir por um instante a dor do mundo.
Mas a toga não sabe lidar com ternura. A toga exige distância. Eu obedeço.
E, à noite, antes de apagar a luz, rabisco sempre o mesmo lembrete, escondido na margem do voto:
“Lembre-se, Excelência: entre sua cadeira e a vida de um homem há um abismo. E nesse abismo não habita Deus algum. Apenas a sua frágil, assustadora humanidade.”
Cumpra-se.