O clima de distanciamento relatado por interlocutores entre o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) pode colocá-los em lados opostos na disputa pelo governo de Minas Gerais em 2026. Em entrevista dada por Cleitinho ao Jornal Agora, de Divinópolis (Centro-Oeste), nesta terça-feira (14), o parlamentar comentou sobre esse cenário.
“Já fiz vários gestos dizendo que, se ele viesse candidato, eu abriria mão. Mas o tempo está passando e não há gesto dele para mim. Vai chegar uma hora em que, se ele vier e eu também, não tem como abrir mão. Aí o povo escolhe quem achar melhor para administrar o estado. Isso é democracia”, disse o senador.
A O Fator, Cleitinho reafirmou que o único cenário em que os dois poderiam ficar em lados opostos seria se a indefinição do PL sobre quem lançará ao comando do estado se prolongar até o próximo ano e ele ter viabilidade política para concorrer.
Nesse caso, se o partido pedir que desista em favor do deputado federal, haveria impasse. “Se eu chegar lá na frente, em março de 2026, tiver apoio do povo, tiver feito o compromisso e desistir, não faz sentido. Não é justo eu desistir. E se ele for disputar, não é ruim, é mais uma opção para o povo mineiro decidir. É a democracia”, afirmou.
Distanciamento
Nos bastidores, parte do distanciamento entre Nikolas e Cleitinho é atribuído à divergência dos dois na análise da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que ampliava a proteção parlamentar contra prisões e medidas cautelares. O texto, apelidado de PEC da blindagem, foi aprovado pela Câmara, mas acabou arquivado no Senado.
“Vamos nos blindar, vossas excelências? Que medo é esse? A população brasileira não aceita isso. Até quando a gente vai envergonhar o povo brasileiro? Quem não deve, não teme nada”, afirmou, no mês passado, durante a tramitação da proposta no Congresso Nacional.
Já Nikolas, que votou favoravelmente à PEC, teria se queixado de que a postura crítica de Cleitinho ampliava o desgaste sobre ele em Minas. Interlocutores ouvidos por O Fator relataram que, antes da declaração desta terça, os dois iriam tentar se encontrar para falar sobre o comando do estado, mas a agenda não aconteceu.
Embora parte da bancada de deputados do PL veja com bons olhos a candidatura do Cleitinho, há queixas por parte do Republicanos sobre as indefinições no partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, o que estaria causando distanciamento institucional entre as legendas.
O senador negou que tenha havido qualquer desentendimento em razão de seu posicionamento sobre a PEC da Blindagem ou outro assunto com o deputado. “Não tem nada disso, nem da minha parte com ele, nem da parte dele comigo. Não há nada disso. O povo que fala demais. Pode até ter havido insatisfação de alguns deputados comigo, como vi pela imprensa, mas eu com ele é mentira”, garantiu a O Fator.
Mudança de discurso
No início de setembro, Nikolas Ferreira manifestou a correligionários sua resistência em disputar a sucessão de Romeu Zema (Novo). O posicionamento aconteceu durante encontro da bancada mineira do PL com o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto.
O maior receio de Nikolas era de que, em caso de vitória, recaísse sobre ele grande expectativa por mudanças e entregas em curto prazo — o que, na avaliação do deputado, seria inviável diante da dívida pública estadual, superior a R$ 190 bilhões.
Por outro lado, interlocutores do Republicanos em Minas ouvidos por O Fator afirmam que Nikolas estaria usando sua relação com Cleitinho para tentar retirar o senador da disputa, abrindo caminho para uma união da direita em torno do vice-governador Mateus Simões, hoje no Novo, mas de mudança para o PSD.
Há também a avaliação interna no PL de que Nikolas é o principal puxador de votos da sigla. Portanto, se a legenda decidir que o parlamentar dispute o comando do estado, estará fazendo também uma escolha de ter uma bancada menor no Congresso. Hoje, o PL conta com 88 cadeiras na Casa, sendo 10 de Minas Gerais.
