Recém-filiado ao PSD e pré-candidato à sucessão de Romeu Zema (Novo), o vice-governador de Minas Gerais, Mateus Simões, diz ter acelerado os trâmites para oficializar o ingresso no novo partido ao perceber que o senador Rodrigo Pacheco, nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para concorrer ao Executivo estadual, passou a priorizar uma indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF). O plano inicial, conta, era esperar o desembarque de Pacheco da agremiação.
“A partir do momento em que ele quer ser ministro do Supremo, está tudo resolvido. Mas e se ele mudar de ideia? Ser governador de Minas não é prêmio de consolação de quem não conseguir ser ministro do Supremo. Para ser governador de Minas, a pessoa tem de querer ser governador de Minas. A partir do momento em que Pacheco demonstrou e declarou que quer ser ministro do Supremo, vamos trabalhar para ele ser ministro do Supremo. Para Minas vai ser ótimo”, afirma, em entrevista a O Fator.
Por ora, Simões e Pacheco são correligionários. O senador tem dito que a escolha do substituto de Luís Roberto Barroso no STF é prerrogativa exclusiva de Lula e prometeu para os próximos dias uma decisão sobre concorrer ou não ao Palácio Tiradentes. Para o caso de entrar no páreo, tem convites de PSB, MDB e União Brasil.
A saída do Novo rumo ao PSD é, segundo o vice de Zema, uma construção de três anos. Simões minimiza as dissonâncias internas da nova casa, que tem lideranças pró-Lula no Norte e no Nordeste, ao passo que no Sul e no Sudeste faz oposição ao governo federal.
Embora se considere “muito mais de direita” que o senador Cleitinho Azevedo, Simões acredita na hipotese de conseguir formar coligação com o Republicanos. Ele tem na mira, ainda, o MDB do presidente da Assembleia Legislativa, Tadeu Leite.
“É a noiva que todo mundo corteja”, pontua, ao tratar de Tadeuzinho, ressaltando que o desejo é por ter os emedebistas como aliados, sem necessariamente entregar à legenda a tarefa de escolher o candidato a vice.
Desde o ano passado, há especulações quanto a uma mudança de partido. Quando as conversas com o PSD começaram?
É um percurso. Na segunda-feira seguinte à eleição de 2022, tive uma reunião com o deputado Cássio Soares (presidente do PSD mineiro), sobre como a gente faria para garantir que a posição que o PSD tinha ocupado na eleição de 2022 não se repetisse ao longo do mandato do governador Romeu Zema. Essa conversa resultou em Cássio, depois, assumindo a liderança de nosso maior bloco de governo (na Assembleia) e, também, em uma aproximação muito grande minha com os deputados do PSD, o maior partido da base, com 12 parlamentares.
Percebemos, no pós-eleição, com a derrota de (Alexandre) Kalil — os deputados já tinham feito campanha para o governador Zema e os prefeitos que apoiavam esses deputados eram nossos — que a gente não tinha porque andar separado. Isso também era verdade quando olhávamos para a bancada federal, porque Diego Andrade foi, ao longo do governo Zema 1, uma figura muito importante na interlocução com Brasília.
Assim começa minha aproximação com o PSD: com a bancada. No ano passado, tive algumas reuniões com o presidente (Gilberto) Kassab. Discutimos cenários. De lá para cá, devo ter tido mais de uma dúzia de reuniões com Kassab. Neste ano, o assunto veio ganhando um pouco de força quando a gente percebeu que era preciso formar uma pré-coligação mais ampla.
No caso do PSD, como o candidato do Lula estava no partido, vínhamos atrasando esse movimento para dar a Rodrigo Pacheco a condição de sair do partido se quisesse ser candidato.
Mas o que mudou a ponto de fazê-lo entrar no PSD com Pacheco ainda no partido?
Pacheco mudou. O projeto dele é ser ministro do Supremo. Então, a partir do momento em que ele quer ser ministro do Supremo, está tudo resolvido. Mas e se ele mudar de ideia? Ser governador de Minas não é prêmio de consolação de quem não conseguir ser ministro do Supremo. Para ser governador de Minas, a pessoa tem de querer ser governador de Minas. A partir do momento em que Pacheco demonstrou e declarou que quer ser ministro do Supremo, vamos trabalhar para ele ser ministro do Supremo. Para Minas vai ser ótimo, deixa o PSD fazer o papel dele. Mas, aí, já não podia retardar minha vinda. Foi um bom momento (para se filiar). É uma construção de três anos, desde o final da última eleição.
Você chegou a conversar com outros partidos?
O único partido com quem conversei sobre migração foi o PSD. Tive convites ao longo do tempo. Vários partidos falaram sobre isso comigo, mas nenhum fez um convite formal. Tive uma provocação do União Brasil para que fosse para lá, mas, a partir do momento em que eles pediram a vaga de Marcelo Aro (como um dos candidatos ao Senado pela chapa), esse assunto desapareceu, porque não podiam querer duas vagas dentro da composição. Também tive provocações do Republicanos e conversas com deputados do PL. Mas, efetivamente, nunca me dispus a conversar sobre isso com nenhum outro partido. (Foram) sondagens. Minha conversa aconteceu só com o PSD, porque acho que o partido combina efetivamente com o que pretendo. É um partido colocado mais ao centro, que em Minas já estava conosco e que, nacionalmente, tem nomes que parecem com o que queremos para o Brasil — é o caso de Ratinho Júnior (governador do Paraná).
Você tem citado muito Ratinho Júnior como um exemplo do PSD que combina com as ideias que defende, mas sua filiação ao partido teve a presença do governador Fábio Mitidieri, de Sergipe, que costuma elogiar Lula publicamente.
Gosto muito do Mitidieri. Para mim, o PSD tem um meridiano que corta o Brasil ao meio — e deve cortar na altura do Rio de Janeiro, porque (Eduardo) Paes (prefeito), tem apoio do PL e do PT — separando o PSD do Norte do PSD do Sul. O PSD do Norte tem o próprio prefeito do Rio de Janeiro e a governadora Raquel Lyra (de Pernambuco), de quem gosto profunda e sinceramente. Para o Sul, (há) o PSD de Ratinho, ao qual estou me filiando, e de Eduardo Leite. Não me incomodo com o fato de existir o PSD com esses dois cenários, porque acho que é um pouco o que o PSD representa no Brasil.
Como o PSD se propõe a ser um partido de centro, ao Norte, onde há mais força da esquerda, ele tende, em alguns momentos, à centro-esquerda. Ao Sul, onde a direita é mais forte, ele tende a um movimento de centro-direita. Minas Gerais é um estado de centro-direita. Respeito Mitidieri e a construção que ele fez. Ele ganhou contra o PT, contra o candidato do Lula (Rogério Carvalho), como foi a (vitória) de Raquel. Eles têm boa relação com Lula porque o Nordeste tem relação de adoração com o presidente Lula. Respeito. Achei que foi bom ser ele (o governador do PSD) presente, porque mostra que estamos construindo uma unificação
Na semana passada, a O Globo, você chegou a alfinetar Cleitinho, dizendo que ele não tem as credenciais suficientes para ser o candidato da direita em Minas em 2026.
Sou muito mais de direita que Cleitinho. Podem até dizer que os apoiadores do Bolsonaro, eventualmente sinalizaram em algum momento que poderiam ser favoráveis ao nome de Cleitinho, mas acho que nem é a situação hoje. Fiz uma provocação e citei a (escala) 6×1 e o chute na foto de Bolsonaro.
Por que se considera mais à direita que Cleitinho?
Porque Cleitinho adota posições populares. Isso significa que, quando a população é a favor de mais intervenção (estatal), ele é a favor de mais intervenção. Quando a população é a favor de controle de manifestação, ele é a favor de controle de manifestação. Quando a população é a favor de jogos de azar, ele é a favor de jogos de azar. Eu, não. Sou um político conservador moderado e defensor de um Estado que intervenha menos e garanta liberdades individuais. Então, estou claramente mais à direita do espectro político.
‘Mas ele tem o apoio dos bolsonaristas’. Ok, fantástico. Isso não significa que ele é o candidato da direita, mas que ele tem o apoio eventual dos bolsonaristas — e, volto a dizer, nem acho que tenha, está aí essa confusão em torno dele. Cleitinho não é populista. Populista é quem promete o que não pretende cumprir. Cleitinho é popular. Ele promete coisas em que ele acredita, independentemente do enraizamento ideológico daquilo que ele está prometendo.
É um tipo diferente de política. Tem mais a ver com essa política de consumo instantâneo de rede social. Não tem referência histórica sobre isso. Historicamente, o político vai construindo uma lógica de tratar os problemas. Não é assim que Cleitinho trabalha. Ele trabalha em cima do problema concreto, do buraco na rua que ele filmou. Ele dá solução para aquele buraco. Se aquilo vai se aplicar ao próximo buraco, a gente não sabe.
Mas o que você pretende fazer para ter o apoio de Cleitinho e do Republicanos?
O Republicanos sempre esteve em nossa base. Para mim, é até curioso o movimento do Republicanos em Minas não ser mais próximo ao nosso, porque representamos, em Minas, exatamente o que o Republicanos defende nacionalmente. Tarcísio (de Freitas) parece muito mais conosco do que qualquer outra coisa. É, talvez, o maior nome do Republicanos no país hoje. Isso me traz uma certa dúvida sobre o que está acontecendo.
Talvez seja porque em Minas, como o Cleitinho é muito forte, o Republicanos viva uma crise dissociativa. Ele, aqui, é uma coisa diferente do que é no resto do país porque está sob influência e comando de Euclydes Pettersen e, portanto, do grupo de Cleitinho. Mas acho que há uma tendência natural de que o Republicanos se aproxime, por conta do que defende nacionalmente. E se Cleitinho resolver que vai ser candidato de qualquer jeito? Aí, não. É o partido do Cleitinho e ficaria com o Cleitinho, obviamente.
Você tem boa relação com o deputado Nikolas Ferreira (PL), que é próximo de Cleitinho. Nikolas pode ser uma ponte para uni-lo ao senador?
Pode. Acho Nikolas e Cleitinho dois políticos muito diferentes. É engraçado que o mundo trata Nikolas e Cleitinho como se fossem uma coisa só, mas os acho muito distintos. Cleitinho faz ao menos 10 posts diferentes ao dia; ele filma, por exemplo, o que está tomando no café da manhã. Nunca vi Nikolas fazendo uma coisa desse tipo. Nikolas tem o maior cuidado para fazer uma postagem sobre um tema.
Nikolas é um político de opinião, enquanto Cleitinho é um político de resposta a fenômenos momentâneos. Mas eles têm essa lógica de proximidade e acho que pode ser, sim, um ponto de unificação lá na frente. Tenho uma expectativa muito grande sobre o futuro político de Nikolas. Então, se ele, de alguma forma quiser ajudar nessa aproximação, vou ficar muito satisfeito.
Na semana passada, quando anunciou que se filiaria ao PSD, você citou ter alianças com partidos como Podemos, PP, União Brasil, DC e Solidariedade. Apesar disso, não mencionou o MDB, do líder de Zema na Assembleia, João Magalhães, e do presidente Tadeu Leite. O senhor quer o apoio do MDB? Se sim, o que pretende fazer?
O MDB tem, hoje, uma dificuldade na construção nacional. Muita gente fica insistindo e falando que, se o vice de Lula não for (Geraldo) Alckmin, será do MDB. Aí, o próprio MDB se coloca em uma posição de ‘calma, não podemos conversar sobre isso ainda’. Em Minas, temos ótima relação com a bancada federal e, na bancada estadual, Tadeu é o melhor presidente com quem tive contato na Assembleia e João Magalhães o nosso líder de governo. Se você me perguntar se quero o MDB, eu quero. Aliás, gostaria muito de ter o presidente Tadeu comigo. É a noiva que todo mundo corteja.
Quando diz que quer ter Tadeu Leite ao seu lado, é como candidato a vice?
Comigo. Isso (sobre a candidatura a vice) é uma construção muito complexa, mas gostaria muito de tê-lo comigo (como aliado). Gosto muito do Tadeu. Mas entendo que o MDB tem um tempo diferente por conta da construção nacional. Os partidos que estou citando já apertaram a mão e disseram ‘estamos juntos, vamos caminhar e construir’. Tem vários outros com quem estamos conversando, mas não vamos expô-los a saia justa.

A ida para o PSD o ajuda a ter melhor relação com o governo Lula? Afinal, você assumirá o governo no final de março.
O PSD ajuda em três frentes: na construção da minha eleição, no palanque do governador Zema em Minas Gerais, porque Kassab disse com todas as letras que o palanque do partido no estado é de Zema, e na relação com o governo federal. Não acho que ajuda na relação com Lula, não. Eles têm três ministros em pastas importantes, têm penetração no governo e presença muito mais pulverizada no Congresso. Tenho a impressão de que a gente tem uma vida mais fácil em Brasília tendo o PSD discutindo os temas conosco.
Minas Gerais só teve uma mulher no posto de vice-governadora — Júnia Marise, entre 1987 e 1991. Há chances de você ter uma mulher como companheira de chapa no ano que vem?
Gostaria muito de ter uma vice mulher. Sou grande defensor da presença das mulheres na política, tanto que, quando saí da Câmara Municipal (em 2020, para ser secretário-geral do governo Zema), decidi que ia me dedicar à eleição da vereadora Fernanda Altoé. Fiquei feliz quando elegemos duas mulheres: Fernanda e Marcela Trópia. As duas seguem vereadoras.. Apoiei Luísa (Barreto) para a Prefeitura de BH. Temos um secretariado com nove mulheres no primeiro escalão. É quase metade do governo. Isso não é comum. Não é cota, mas olho para encontrar as mulheres certas, porque elas têm condição de ocupar esse espaço, pois colaboram com uma visão um pouco diferente da visão masculina sobre cada um dos temas. Então, ter mulher por perto, no comando e nos ajudando, lado a lado, é sempre uma forma de caminhar com mais consistência. Gostaria muito de ter uma mulher (como vice). Minas Gerais é fraca na participação de mulheres no Executivo. O Brasil, aliás, é muito fraco em participação política feminina. As cotas não ajudaram a resolver esse problema.
Que perfil de candidato a vice você almeja?
Gostaria muito de ter um vice com quem eu pudesse dividir o trabalho como o governador Zema dividiu comigo.
Mas e no que diz respeito ao perfil social e econômico do vice?
Gostaria que fosse alguém que contribuísse. Se você escolhe demais, acaba sendo escolhido. Gostaria de alguém que desse conta de trabalhar. Não gostaria de um vice político no sentido de ser uma indicação política sem condição técnica de ação, aqueles casamentos de antigamente, combinados. Queria alguém com quem tivesse confiança e tranquilidade de dividir trabalho. O governo Zema 2 foi muito diferente do governo Zema 1 pela condição do governador de dividir trabalho comigo. Nada contra Paulo (Brant), que foi um bom vice, mas não estava no dia a dia do governo. Queria um vice que esteja no dia a dia.
