Houve um tempo em que a ciência, embriagada de certeza e de jalecos impecáveis, decidiu montar um paraíso. Um Éden pequeno, controlado, sem espinhos. Chamaram de Universo 25. Tudo ali era garantido: alimento, água, abrigo, segurança. Nada faltava. E, ainda assim, algo essencial começou a faltar por dentro.
Quando a vida não exige, a alma desaprende. O instinto vira um móvel sem uso. O gesto que antes salvava passa a enfeitar. O corpo continua, mas o sentido vai se retirando, como quem vai embora sem bater a porta. Não foi a fome que matou aquele mundo. Foi uma saciedade que, de tão total, ficou parecida com anestesia.
Seria cômodo rir disso como quem observa um experimento distante, uma fábula grotesca de roedores. Mas basta olhar ao redor com honestidade. Observe a vista da janela. O prédio não é apenas um prédio. É uma clausura. O porteiro eletrônico vigia, o elevador obedece, os corredores parecem hospitais polidos. As pessoas passam, educadas, inteiras por fora, ausentes por dentro. Há contato. Não há encontro.
No alto do edifício, um menino cresce num quarto recheado. Brinquedos, telas, comida pronta, conexões rápidas. Nada falta. E é justamente por isso que falta. Porque o desejo, quando é atendido antes de virar palavra, perde a chance de nascer. Não seria o amor filho da falta? Se tudo chega antes, o coração não aprende a caminhar até as coisas. E, sem caminhada, a vida vira uma espécie de quarto com luz acesa, mas sem janela.
No sexto andar, mora o devoto da própria imagem. Corpo talhado, rosto calibrado, rotina de cuidado com a carcaça como quem cuida de um altar. Só que o altar é frio. Ele evita vínculos, evita dívidas de afeto, evita o risco de precisar de alguém. Protege tanto a pele que abandona o que vive debaixo dela. E chama isso de liberdade, como se a solidão fosse uma medalha e não um sintoma.
No terceiro andar, um casal sussurra discussões para não ferir a fachada. Falam de escola, de contas, de prazos. Quase nunca falam do que dói. A casa segue limpa, mas a convivência acumula poeira invisível. O amor ali vai virando contrato, e todo contrato cobra juros quando substitui a ternura.
A diferença cruel entre nós e aquele universo de laboratório é que nós sabemos. Nós lemos sobre o colapso, compartilhamos a indignação, e depois voltamos ao nosso cotidiano como quem volta a um sofá confortável demais. Seguimos construindo gaiolas de luxo, convencidos de que segurança é sinônimo de vida. E, ainda assim, alguma coisa dentro de nós continua perguntando, em voz baixa, por que tanta abundância parece tão parecida com vazio.
E então, de repente, a vida nos oferece um contraste que parece simples, mas carrega um terremoto. Um adolescente peruano, sem credenciais e sem camarote, decide narrar uma final de futebol do alto de uma montanha, depois de uma viagem longa, cansativa, improvável. Não tinha cabine climatizada. Tinha vento no rosto. Não tinha conforto. Tinha pulso. A montanha não lhe deu facilidade, deu presença.
Que tipo de força nasce quando o mundo não entrega tudo pronto? O que cresce em alguém quando o caminho exige perna, garganta e coragem? Talvez a resposta esteja nesse detalhe quase esquecido: ele não subiu para provar nada a ninguém. Subiu porque a paixão, quando é verdadeira, encontra um jeito. E, no topo, a voz vira abrigo. A voz vira casa. A voz vira ponte.
Logo depois, outro contraste se impõe, vindo do lugar onde o mundo costuma não aplaudir. Um cantor que virou pedreiro e passou décadas carregando peso, levantando paredes, sem saber que, em outro país, sua música era mito. Enquanto muitos vivem a angústia de manter uma aparência impecável para um público distraído, ele viveu o trabalho bruto sem plateia, sem glamour, sem recompensa visível. E, ainda assim, permaneceu inteiro.
Há uma dignidade silenciosa nisso, quase desconcertante. Como se a vida dissesse: nem sempre o sentido está no que aparece, mas no que sustenta. Nem sempre a alma se revela no palco. Às vezes, ela se revela na constância. No cimento. No dia repetido. Na mão calejada que, sem saber, preserva uma chama.
E aqui a pergunta volta, mais afiada e mais terna: o que exatamente estamos chamando de felicidade? O que estamos buscando quando buscamos conforto? Será que o excesso nos protege, ou nos adormece? E quando foi que a segurança virou desculpa para não tocar a vida com as duas mãos?
Talvez o juízo final não chegue com fogo. Talvez ele chegue com silêncio. No elevador onde ninguém se olha. No jantar apressado diante de uma tela. No velho que conversa com a própria sombra todas as noites. Talvez o fim do mundo seja só a ausência de encontro, repetida todos os dias, até parecer normal.
Se é assim, a salvação também pode ser simples. Não grandiosa. Não heróica. Um gesto pequeno, quase ridículo de tão humano: bater à porta do vizinho. Sentar. Ouvir. Dar tempo. Permitir que o outro exista diante de nós, sem pressa de responder, sem vontade de vencer. Porque nenhum universo, por mais abastecido, se sustenta sem calor.
E fica, por fim, a pergunta que não quer calar, mas também não quer mandar: seremos ratos em palácios, ou humanos capazes de subir a própria montanha? E, se a montanha estiver mais perto do que parece, qual é o primeiro passo que, ainda hoje, nós podemos dar?