A Justiça Federal de Belo Horizonte recebeu denúncia contra cinco pessoas acusadas de desviar R$ 1,84 milhão de créditos rurais do Banco do Brasil na agência de Pains, no Centro-Oeste de Minas Gerais. Entre os denunciados está o ex-prefeito Marco Aurélio Rabelo Gomes (PV), que atuava como gerente de relacionamento da agência entre 2015 e 2016. Ele foi eleito prefeito em 2016 e se reelegeu em 2020.
Além de Marco Aurélio, respondem pelos crimes o gerente-geral da agência, Adenilson Aparecido David, e três clientes que receberam os financiamentos: Stênio Caetano Leal, Karyna Kenea Rabelo Saldanha Gomes e Ayala Flávia Rabelo Saldanha Leal. O processo tramita sob segredo de justiça desde o final de 2025.
Marco Aurélio aprovou nove contratos de financiamento rural entre julho de 2015 e dezembro de 2016 para familiares. Karyna Kenea era sua ex-esposa e companheira à época dos fatos. Ayala Flávia é sua cunhada e Stênio Caetano é seu cunhado.
O Ministério Público Federal afirma que os cinco denunciados planejaram desde o início desviar os recursos que deveriam ser usados na compra de gado. A conclusão está baseada em ação disciplinar que o próprio Banco do Brasil moveu contra os funcionários.
O gerente-geral Adenilson conhecia o esquema e foi beneficiado diretamente. Em uma das operações, R$ 108,1 mil foram depositados na conta de sua esposa, Raquel Aparecida Flamini, e R$ 9,9 mil em sua própria conta.
Contratos previam compra de 1.553 cabeças de gado
Os nove contratos somaram R$ 1,84 milhão. Stênio recebeu R$ 1 milhão em quatro operações, Karyna obteve R$ 607,4 mil em quatro contratos e Ayala conseguiu R$ 237 mil em um financiamento. Todas as propostas indicavam a compra de bovinos para criação em propriedades rurais de Pains.
O Comitê de Crédito da agência era formado por Adenilson, Marco Aurélio e pela funcionária Flávia Ferreira Lopes Almeida. Os três aprovaram as operações com base em documentos que aparentavam regularidade, incluindo notas fiscais de supostos vendedores de gado.
Dinheiro foi desviado logo após liberação
Após a liberação dos valores, os recursos tomaram destinos sem relação com a atividade rural. Em dezembro de 2015, Ayala sacou R$ 100 mil e minutos depois depositou R$ 50 mil na conta da Transportadora MVE Ltda, empresa de transporte de cargas que ela administra com o marido Stênio. Os outros R$ 50 mil foram transferidos para Karyna.
Karyna usou parte do dinheiro para pagar contas de empresas sem ligação com agropecuária, como a Elétrica Formiga Ltda, e transferiu R$ 50 mil para a Mineração Saldanha Ltda, empresa de extração de minerais da qual ela e Ayala são sócias.
Ayala destinou R$ 55 mil para quitar uma dívida da Transportadora MVE no BB Giro Recebíveis, linha de crédito para capital de giro.
Sindicato rural foi usado para mascarar desvios
Em seis das nove operações, os valores foram transferidos por cartão de crédito para a conta do Sindicato Rural de Pains. O sindicato recebia o dinheiro, retinha uma pequena taxa e devolvia quase tudo aos mutuários ou a empresas ligadas a eles.
Em janeiro de 2016, Stênio transferiu R$ 180 mil ao sindicato. A entidade recebeu R$ 178,6 mil após desconto de tarifa e, no dia seguinte, devolveu R$ 177,7 mil a Stênio por meio de cheque. O Ministério Público Federal concluiu que não houve venda de produtos agropecuários e que as operações serviam apenas para disfarçar o destino do dinheiro.
A investigação não encontrou provas de que os dirigentes do sindicato tinham conhecimento do esquema ou participaram da fraude.
Vistoria não encontrou o gado
Em julho de 2017, o Banco do Brasil enviou técnicos para vistoriar as fazendas Cachoeira, Sítio Timburé e Fazenda Veados, propriedades indicadas nas propostas de crédito. A equipe encontrou apenas 47 animais. Segundo os contratos, deveriam existir 1.553 cabeças de gado nos imóveis.
O relatório de vistoria concluiu que “em função do tamanho da área disponível para cada cliente, era de fato impossível ter espaço e capacidade de suporte para tais animais”. As garantias oferecidas pelos mutuários e consideradas regulares no momento da aprovação não foram localizadas.
Laudo da Polícia Federal confirmou que os valores não foram direcionados a fornecedores de bovinos. Os recursos foram usados para proveito pessoal, incluindo aplicações financeiras e pagamento de débitos sem relação com os financiamentos.
As acusações
Marco Aurélio e Adenilson respondem por três crimes previstos na Lei dos Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional: gestão fraudulenta de instituição financeira, concessão de operações de crédito vedadas e desvio de finalidade de financiamento oficial.
Stênio, Karyna e Ayala foram denunciados por obtenção fraudulenta de financiamento e desvio de finalidade na aplicação de recursos.
A denúncia afirma que Marco Aurélio e Adenilson “interferiram frequentemente em etapas de processos de empréstimo, além de desrespeitarem frontalmente regras do Banco, instituídas para minimizar os riscos da instituição”.
O Banco do Brasil descreveu o esquema em relatório: “O modus operandi consistia na contratação de operações destinadas a custeio e investimento em bovinocultura em valores majorados e incompatíveis com a área explorada, seguida da liberação dos recursos nas contas dos mutuários, ou em benefício de terceiros não fornecedores dos bens financiados”.