O Coro do levantar: uma pequena fuga que devolve o fôlego

Ninguém aguenta ser extraordinário o tempo inteiro, isso é um fato sem poesia e sem romantização
Foto: Google Images

Você já reparou como, às vezes, a vontade não é vencer, nem brilhar, nem provar nada a ninguém? É só de poder respirar, e se possível sem plateia, sem explicação, sem parecer forte. E quando isso acontece, o que é que a gente está tentando salvar dentro de si?

Li numa manhã de dezembro uma reportagem no portal Metrópoles sobre um grupo de quase dois milhões de pessoas que, num canto discreto das redes, fingem ser formigas. Gente adulta, com boletos, com chefe, com o dia costurado por obrigação, comentando em coro sob a foto de uma pizza caída no chão uma única palavra: “levantar”. E a pergunta vem sem pedir licença: por que algo tão simples alivia tanto?

Não é a pizza que consola, nem o exotismo do jogo, nem o riso fácil. O alívio nasce quando ninguém exige brilho, nem originalidade, nem desempenho, como se o mundo finalmente parasse de cobrar uma prova oral da nossa existência. Quem foi que decretou que a gente precisa ser especial todos os dias, como se o comum fosse um pecado?

Somos formigas em formigueiros?

Ali dentro, ninguém pergunta sua ideologia, seu currículo, sua versão definitiva do mundo, nem o motivo íntimo do seu cansaço. Ninguém pede argumento, ninguém mede seu valor, ninguém transforma sua dor em vitrine. Você entra e pode ser pequeno, sem culpa. Que mal há em diminuir por alguns minutos, se é justamente isso que impede o desabamento?

Existe uma humildade estranha nessa brincadeira, uma rendição que não rebaixa, apenas suspende o peso. Basta repetir um verbo, carregar um farelo imaginário, obedecer a uma rotina inútil e, por isso mesmo, misericordiosa. Não parece sério, mas revela uma fome de simplicidade que a vida organizada já não sabe saciar. Será que a gente não está pedindo isso em segredo, sem coragem de pedir em voz alta?

Talvez o sucesso do formigueiro não tenha a ver com ser formiga, e sim com não precisar ser gente o tempo inteiro, com todas as exigências que esse título impõe. Chamam isso de fuga, e pode ser, mas toda fuga é também confissão, ninguém foge do que é leve. Então o que é que está nos sufocando: o trabalho, o tempo, ou a obrigação de transformar tudo em performance, como se estivéssemos sempre sob um olhar que julga?

Super-heróis de areia

Cá fora, a vida parece um concurso permanente, e a gente acorda com a sensação de estar atrasado na própria existência. Há sempre algo a melhorar, a justificar, a exibir, como se o silêncio fosse suspeito e o descanso precisasse de defesa. Mas vale o quê, exatamente, essa corrida diária, e quem é que está com a prancheta na mão anotando nossas falhas?

O mundo gosta de heróis, mas você gosta mesmo de ser um? Herói não descansa, não vacila, não pede ajuda, aguenta até o corpo pedir demissão, aguenta até o afeto secar, aguenta até a cabeça apagar de vez. E quando o herói cai, quem recolhe os cacos sem fazer discurso?

Talvez por isso o coro de “levantar” pareça tão humano, como se fosse uma oração sem religião e sem vergonha. Não é só a pizza que está caída ali, é a vontade caída, é o ânimo no chão, é a dignidade amassada do dia. Quantas vezes a nossa própria vontade não fica assim, jogada num canto, esperando um empurrão pequeno para lembrar que ainda mora em nós?

Sem medo de ser feliz

Há também um alívio incômodo naquele lugar, a responsabilidade se dissolve, ninguém é indispensável, se você não carrega, outro carrega, se você não comenta, outro comenta. Isso assusta ou alivia? Você quer mesmo ser indispensável o tempo inteiro, ou só queria ser amado sem precisar merecer a cada minuto?

A vida cotidiana é feita de migalhas, ônibus lotado, pia cheia, toalha para dobrar, planta pedindo água, tarefas pequenas que ninguém aplaude, mas que sustentam o mundo para ele não desabar de vez. E mesmo assim a gente faz tudo com pressa nervosa, como se o simples fosse vergonha. Por que lavar uma xícara não basta? Por que regar uma planta não basta? Por que o gesto mínimo precisa pedir desculpas por ser mínimo?

Ninguém aguenta ser extraordinário o tempo inteiro, isso é um fato sem poesia e sem romantização. Há dias em que a única vitória é não quebrar, há dias em que o grande projeto de ser alguém precisa dar licença ao gesto pequeno de existir sem espetáculo. Vale a pena ignorar essa necessidade até que o corpo imponha a pausa do jeito dele?

No fim, aquele grupo estranho devolve perguntas que valem mais do que qualquer lição de moral. Em que parte da vida você poderia ser menos extraordinário sem se sentir um fracasso? Onde poderia aceitar ajuda para carregar migalhas? E quem foi que te convenceu de que descansar é fraqueza? Talvez hoje você não precise de grandes planos, só de uma palavra repetida com alguém, baixinho, até a vontade lembrar que ainda sabe o caminho: levantar.

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