– Você sabe quem projetou esta cidade?
– Sei. Foi Aarão Reis.
– Você sabe quem foi Aarão Reis?
– Não sei. Só sei que foi ele quem projetou.
– Você sabia que foi ele quem projetou Belo Horizonte?
– Nossa, que chique!
– Chique por quê?
– Porque Belo Horizonte é uma cidade muito bonita!
O diálogo acima foi travado por este repórter e um morador de Soure, no Pará, durante uma visita de O Fator ao município, localizado na Ilha do Marajó, em meio à Floresta Amazônica. As oito frases simbolizam o encontro de dois mundos que, embora muito distantes, têm algo em comum. As duas cidades nasceram da genialidade de uma mesma pessoa: o engenheiro Aarão Reis.
Quase a totalidade dos belo-horizontinos têm a cidade onde vivem como a única obra urbanística feita pelo engenheiro paraense. Desconhecem que, antes de projetar a capital mineira, ele idealizou uma localidade no meio da floresta, hoje com 24 mil habitantes.
Uma das 16 cidades da Ilha de Marajó, Soure tem um traçado formado por quarteirões simétricos entrecortados por uma avenida, característica também presente em BH. A cidade paraense, no entanto, não tem uma via para circundar sua área planejada — tarefa cumprida pela Avenida do Contorno na capital mineira.
A Belo Horizonte paraense é estruturada em ruas e travessas. As ruas são equivalentes às avenidas de BH, largas e com duas pistas separadas por um canteiro central. As travessas, mais estreitas e sem canteiro central, têm papel correspondente ao das ruas no planejamento urbano do antigo Curral del Rei.
Diferentemente da capital mineira, as travessas e ruas não têm nomes, sendo diferenciadas por algarismos. As travessas utilizam a numeração cardinal (a última delas é a 40), enquanto as ruas têm números ordinais — a via Décima Quarta fecha o itinerário.
Aarão Reis adotou no projeto de Soure a mesma metodologia usada para a denominação das vias de Nova York, nos Estados Unidos da América (EUA). Lá, as avenidas são designadas pela numeração ordinal, como a famosa Quinta Avenida; as ruas, pelos números cardinais, como a 42, que corta a Times Square.
A Soure projetada por Aarão Reis no meio da Amazônia tinha aproximadamente um quarto do tamanho atual. A cidade, iniciada na zona portuária, terminava no encontro do Rio Paracauari com o oceano.

Ao contrário do que aconteceu a reboque da expansão de BH, os bairros mais novos de Soure seguem as regras do planejamento de Aarão Reis. Assim, não há ruas homenageando figuras relevantes da cidade. As diferenças não param por aí. Entre 1900 e 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população da cidade paraense subiu 3,4 vezes, passando de 7.424 no início do século 20 para 25.204 no ano passado. Já o número de habitantes da capital mineira aumentou 171 vezes no mesmo período, dando forma a uma metrópole com 2,3 milhões de moradores.
As distinções são visíveis também quando se caminha por Soure. Lá, apenas parte das ruas e travessas tem asfalto. Quanto mais um logradouro é distante do porto, localizado na área central, mais escassa é a pavimentação. Nas áreas longínquas, nem mesmo trilhas de terra existem. A ausência de caminhos formais faz com que búfalos e outros animais pastem tranquilamente, dividindo o cenário com pedestres.

Herança indígena
Originalmente, o local onde está Soure era habitado pelos índios maruanases. A partir do século 17, missionários religiosos passaram a atuar na região para catequizar os nativos e pacificar a relação entre eles e os colonizadores portugueses.
Os missionários também foram responsáveis pela introdução da pecuária e pela organização da pesca, atividades que se tornaram fundamentais para o abastecimento da capital estadual, Belém, e deram fôlego à economia municipal. Entre as aldeias criadas pelos missionários, estava a do Menino Jesus. Em 1757, o povoado foi transformado na Vila de Soure e ganhou autonomia administrativa.
Porém, devido a uma sucessão de epidemias que assolou a região e ao escasseamento da mão de obra indígena, o povoado entrou em decadência. Com isso, 1833, a vila foi extinta e seu território acabou anexado ao da vizinha Monsarás. Quatorze anos depois, em 1847, a Vila de Soure foi restaurada. E, em 1859, elevada ao status de município.
Em 1885, Soure possuía 915 moradores, 170 casas, uma igreja e uma capela. As construções se concentravam em torno da Praça da Matriz. O comércio contava com duas padarias, um açougue, duas hospedarias, sete tabernas, uma quitanda e uma barbearia.
Nessa época, Soure ganhou um atrativo que poucas cidades da região norte possuíam: ser uma área utilizada para tratamento médico por causa do clima agradável e pelos banhos salgados, tidos como dotados de propriedades terapêuticas.

Acredita-se que foi muito em função dessa peculiaridade que o governador paraense Justo Pereira Leite Chermont teria encomendado a Aarão Reis, em 1890, o plano urbanístico de Soure. O projeto de Belo Horizonte foi solicitado ao engenheiro quatro anos depois.
“Você ter uma cidade planejada é um luxo, não é? Igual a Belo Horizonte! Esse é um privilégio que a gente vive até hoje”, afirma Carlos Augusto de Lima Gouveia, ex-prefeito de Soure e secretário executivo da Associação dos Municípios do Arquipélago do Marajó (Amam).
Quem também aponta as vantagens do modelo de urbanização seguido por Soure é o prefeito Paulo Victor Silva de Lima. “A gente vê a lindeza que é a nossa cidade, planejada e ventilada”, diz.
Ainda conforme o prefeito, além das ruas largas e ventiladas, a cidade se notabiliza pelos extensos quintais. A característica faz com que o saneamento básico municipal aconteça por meio de fossas em vez de redes coletoras, que serão construídas até 2033, conforme prevê o contrato do governo paraense com a empresa Águas do Pará, que assumiu os serviços hídricos.
Paulo Victor pretende investir também na pavimentação das ruas e travessas da cidade. Para isso, terá de enfrentar dois desafios. Um deles, o de conseguir o asfalto junto à administração estadual — missão que, de acordo com o gestor municipal, está atrelado a um empecilho logístico.
“As ruas são muito largas. Então, a gente tem essa dificuldade (de conseguir os insumos), porque é muito asfalto”, reconhece.
O segundo desafio é o de convencer alguns moradores, especialmente os mais idosos, de que o asfalto é melhor que a grama, presente até hoje em inúmeras ruas. Há vias totalmente cobertas pela vegetação; em outras, o verde está vivo apenas nas faixas laterais.
Soure possui grande extensão territorial. Sua área é de 2.857 quilômetros quadrados, equivalente a nove vezes a de Belo Horizonte. Mas a densidade demográfica, de 8,47 habitantes por quilômetro quadrado, é 825 vezes menor que a da capital mineira.

A economia está centrada na pesca, no turismo, no comércio e na criação de búfalos, que dão forma a um rebanho municipal com cerca de 100 mil cabeças. “Para cada pessoa que mora aqui, há quatro cabeças de búfalo”, brinca Paulo Victor.
O principal empregador do município é a prefeitura. Soure tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) médio, de 0,615, o maior entre os municípios da Ilha do Marajó.
O caminho até Soure
Quem deseja conhecer a Belo Horizonte amazônica precisa cumprir um itinerário dividido em dois trechos. O primeiro, obrigatório, é a ida a Belém. Na segunda perna, composta por uma viagem de barco, há a possibilidade de navegar diretamente da capital paraense a Soure. Alternativamente, turistas têm a opção de seguir em uma embarcação até a Vila de Camará e, de lá, pegar uma van rumo à margem do Rio Paracuari. Após a travessia, feita de barco, chega-se a Soure.
Os sourenses não têm apreço por carros e preferem a locomoção por de motos e bicicletas. A cidade conta com 3.410 motocicletas e motonetas, ante 863 automóveis. Não há informações sobre o número de bicicletas, mas elas disputam o espaço nas ruas em pé de igualdade com os outros tipos de veículos de duas rodas.

Mas engana-se quem pensa que Soure não está alinhada à modernidade. O municípios sedia um campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), com cursos nas áreas de Ciências Biológicas e Letras, além de seis laboratórios de pesquisa, todos ligados a questões relacionadas à preservação da Amazônia. A cidade tem também uma escola técnica.
Para quem busca um curso em outra área, basta atravessar o rio e procurar, na vizinha Salvaterra, a Universidade Estadual do Pará (Uepa), que oferece graduações em Física, Pedagogia, Ciências Biológicas, Química, História e Tecnologia de Alimentos.
Em Soure, 98,53% das crianças em idade escolar (entre seis e 14 anos de idade) estão matriculadas na rede de ensino. Mas o índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), de 4,4, é considerado mediano.
O padrão predominante de arquitetura é o das casas de um andar, com pé direito baixo, telhado em duas águas e uma varanda na frente. Mas há também alguns poucos exemplares de edificações em estilo eclético do início do século passado. Raras são as residências com grade.
A internet está presente em todo lugar. A lista das modernidades tem até uma escada rolante, instalada no principal supermercado da cidade.
Fora da área urbana, uma outra “modernidade” se faz presente. Em uma pequena vila de pescadores, a elevação do nível do mar obrigou alguns nativos a mudar suas casas de lugar, instalando-as em um local distante dali algumas centenas de metros. Outros locais, por precaução contra o avanço do mar, colocaram barreiras em frente onde moram.
Em Soure, o rio e o oceano se empurram há séculos. Quando a maré baixa, o rio invade o mar. Quando sobe, o oceano empurra o Paracauari para dentro do continente. É aí que o rio vira mar — e um mar cujo nível está sempre subindo.

“É o aquecimento global”, resume José Paula Pantoja, o Chico, de 82 anos, que ganha a vida levando turistas para conhecer os igarapés da Amazônia em Soure e fez questão de ressaltar a O Fator o apelido que carrega.
Chico é a personificação da diversidade amazônica. Ele tem seis filhos, dos quais quatro concluíram a universidade. O quinto fez curso técnico, enquanto a sexta possui uma confecção.
O navegante é persistente e insiste a levar a vida entre os igarapés. Ele conta que, por vezes, os filhos tentam convencê-lo a passar períodos no Rio de Janeiro (RJ), mas costuma rechaçar as propostas por não gostar das metrópoles.
“Lá a gente vive engaiolado”, sentencia.
Impulso ao turismo é calcanhar de aquiles
Quem também não troca Soure por nenhuma outra cidade é o motorista de taxi Anésio Silva da Cruz. O que mais aprecia na cidade onde nasceu e vive até hoje é a tranquilidade para andar na rua a qualquer hora do dia ou da noite sem correr o risco de assaltos.
Anésio vê grande potencial turístico na cidade, mas aponta lacunas. Segundo ele, Soure deveria ampliar a infraestrutura para a recepção de visitantes.
“Nem todos os pontos de turismo estão adequados para o visitante chegar e se sentir à vontade”, constata.
O taxista, que começou a fazer as corridas aos 18 anos, conciliava o volante com a pesca. Há 12 anos, porém, largou o trabalho nas águas e passou a se dedicar apenas às viagens terrestres.
“Aqui as ruas são todas certinhas. Acho bacana isso”, salienta, ao comentar as singularidades de Soure. De Aarão Reis, o taxista sabe muito pouco. Tem na mente apenas que o engenheiro projetou a cidade natal e também BH.
A visão de Anésio sobre a capital mineira é singela: uma cidade bonita, mas muito distante de sua realidade. Apesar disso, não descarta conhecer a capital mineira.
“Um dia, quando estiver com a vida toda arrumada por aqui, eu vou”, garante.