O futebol é a mentira mais verdadeira

Bola de futebol no Mineirão.
Assim como a poesia, o futebol nunca foi sobre encontrar a verdade. Foto: Staff Images/CBF

O futebol é uma das ilusões que mais me agradam. Porque nem sempre estamos com disposição para encarar a verdade nua, crua e — pior — entediante. Eis o dilema filosófico: acreditar na mentira (ou chamá-la de “ilusão”, para ficar mais elegante) é um paradoxo delicioso. Obriga o mentiroso a ser, ironicamente, transparente sobre a própria farsa. Se é verdade, perde a graça.

A beleza mora justamente na contradição: há mentiras que revelam mais do que muitos fatos, sobretudo quando narradas por aquele sujeito espirituoso do boteco ou pelo pescador de fim de semana, espécies em extinção num mundo cada vez mais higienizado pela inteligência artificial.

É isso mesmo? Decretamos que a vida se constitui, apenas, de verdades factuais e relações científicas com a realidade? A fantasia não é um erro de cálculo — é parte constitutiva da experiência humana. O problema começa quando tudo precisa ser medido, metrificado, explicado. É o tipo de caminho que já foi criticado por pensadores como Horkheimer e Walter Benjamin: a obsessão pela razão que, de tão iluminada, acaba cegando. Porque luz demais também produz sombras — e talvez seja justamente nelas que a gente ainda se reconheça como humano.

O futebol vem sofrendo por excesso de lucidez. Virou objeto de análise tática que mais parece tese de doutorado apresentada em Harvard, acompanhado de balanços financeiros dignos de capa do Valor Econômico. No meio disso tudo, surgem linhas milimétricas, câmeras obsessivas e o tribunal do VAR, o oráculo moderno que transforma o grito de gol em um pedido de revisão burocrática.

Assim como a poesia, o futebol nunca foi sobre encontrar a verdade. Ou, pelo menos, não deveria se submeter a essa lógica asséptica de resultados, que tenta reduzir o caos da vida a um conjunto organizado de evidências.

Em outras palavras: um gol de mão numa final tem muito mais vida do que cinco minutos de espera diante de uma tela. O grito preso na garganta, congelado pela análise de especialistas que parecem sentir prazer apenas no cumprimento impecável da regra, é o retrato de um espetáculo que desaprendeu a pulsar.

De realidade, já bastam os boletos, as doenças que invadem o corpo sem pedir licença e a política, essa arte refinada de fabricar inimigos estratégicos. O futebol, não. O futebol sempre foi outra coisa: uma mentira sincera, um pacto coletivo de suspensão da descrença. O estádio como templo, a camisa como armadura digna de Dom Quixote, tudo isso vai sendo substituído pelo sócio-torcedor, pela gentrificação das arquibancadas e pela obsessão por uma performance que nem os próprios humanos conseguem sustentar.

E talvez seja aí que resida o maior perigo: quando até nossas ilusões precisam ser eficientes, corretas e verificáveis, o que sobra daquilo que nos fazia vibrar sem explicação? Se o futebol deixar de ser essa mentira apaixonada — imperfeita, injusta, imprevisível — não estaremos apenas perdendo um jogo, estamos renunciando a um dos últimos espaços onde ainda era permitido, sem culpa, simplesmente sentir.

Doutor em Educação. Colunista do Estado de Minas. Filósofo (de boteco) e atleticano.

Doutor em Educação. Colunista do Estado de Minas. Filósofo (de boteco) e atleticano.

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