A presença do prefeito de Belo Horizonte, Álvaro Damião (União Brasil), ao lado do governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), e do ex-secretário de Estado de Governo, Marcelo Aro (PP), em evento religioso nesse domingo (3), no Mineirão, foi vista por interlocutores como um gesto com pano de fundo eleitoral. A situação acabou interpretada como parte dos esforços para viabilizar uma composição entre o PSD e a federação União Brasil-PP no estado.
O gesto acendeu alerta no bolsonarismo de Belo Horizonte, já que o PL também negocia apoio ao governador e, na capital, é adversário direto de Damião.
A cidade é a base eleitoral mais relevante do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), cujo grupo de vereadores aliados é contrário a Damião. Ou seja: mesmo sendo um dos principais defensores da aproximação com Simões dentro do PL, Nikolas enfrenta resistência interna ao nome do prefeito no próprio núcleo político.
A articulação para atrair Damião — e, consequentemente, a federação União-PP — é atribuída ao entorno de Simões. A leitura entre aliados do pessedista é de que Marcelo Aro atua para reduzir a resistência ao chefe do Executivo belo-horizontino e viabilizar sua entrada no campo do governador, com eventual presença em um palanque do PL, algo a que o prefeito já resistiu anteriormente.
Nova rota?
Damião, que preside a federação União Brasil-PP em Minas, havia negado a interlocutores que se sentaria com bolsonaristas. A aparição ao lado de Simões reforçou a percepção de mudança de postura.
Procurados, vereadores da bancada bolsonarista e da oposição na Câmara Municipal negam desconforto com o episódio e afirmam que qualquer definição sobre alianças cabe à direção nacional do PL. Na prática, porém, fazem uma ressalva: não há disposição para caminhar ao lado de Damião.
Nos bastidores, a resistência ao prefeito permanece consolidada. Parte dos vereadores ouvidos pela reportagem avalia negativamente seu nome.
O episódio também evidencia a dificuldade de Simões em consolidar apoio dentro do próprio bolsonarismo. Há divisão no PL. Uma ala resiste ao governador e defende que o nome do campo seja o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Outra, ligada a Nikolas, atua para viabilizar a aproximação ao sucessor de Romeu Zema (Novo).
Há ainda o setor que defende uma candidatura própria. Para encabeçar a empreitada, são citados o ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, e o ex-prefeito de Betim (Região Metropolitana de BH), Vittorio Medioli.
Simões trabalha para fechar uma aliança com o PL nacional, em articulação que passa pelo senador Flávio Bolsonaro (PL). É essa construção que dá peso ao movimento envolvendo Damião, que também já dividiu palanque com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em agendas de governo.
Cenário indefinido
Mateus Simões costuma dizer publicamente que um de seus dois candidatos ao Senado será Marcelo Aro. Segundo ele, o acordo com União e PP foi firmado no ano passado com os então presidentes estaduais dos dois partidos, os deputados federais Delegado Marcelo Freitas e Pinheirinho, respectivamente. Coordenador estadual da federação, Damião tem adotado postura diferente e, recorrentemente, afirma que a coalizão ainda não fechou questão sobre o palanque estadual em que estará neste ano.
Em março, o senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do PP, chegou a afirmar a O Fator que as duas legendas iriam caminhar com Simões e Aro. Já o novo líder do União em Minas, o deputado federal Rodrigo de Castro, reafirmou na semana passada a posição de Damião de ausência de definição.
