Em meio à algazarra, ao berreiro e à gritaria generalizada, experiência e lucidez ainda contam

Foto: Pablo Valadares/ Câmara dos Deputados

Em tempos de excessos, histerias e radicalizações permanentes, uma das virtudes mais importantes da política brasileira parece ter perdido espaço: a lucidez. O debate público foi substituído, muitas vezes, pela gritaria. A firmeza de convicções deu lugar ao espetáculo da intolerância. E, nesse ambiente ruidoso, a experiência passou a ser ainda mais necessária.

Foi justamente observando a trajetória do meu pai, Lincoln Portela, que aprendi que a boa política não se constrói no rancor, mas na firmeza serena de quem sabe exatamente aquilo em que acredita.

São sete mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados. Uma trajetória marcada não pelo barulho, mas pela consistência. Pela capacidade de construir pontes sem abrir mão de princípios. Pela rara combinação entre coragem moral e equilíbrio institucional.

Meu pai sempre defendeu valores conservadores com clareza e convicção. A defesa da fé cristã, da família, da liberdade e do respeito às tradições nunca foi, para ele, instrumento de discurso vazio, mas expressão legítima de suas crenças e daquilo que entende ser fundamental para a sociedade brasileira. Convém recordar que, em tempos não tão distantes, ele era uma das raras vozes do cristianismo protestante no Congresso Nacional, defendendo com coragem e serenidade princípios que hoje mobilizam milhões de brasileiros, quando ainda era muito mais difícil sustentá-los no debate público.

Foi autor do projeto que regulamenta a educação domiciliar no Brasil, o homeschooling, reconhecendo o direito das famílias de participarem ativamente da formação de seus filhos. Aprovou também a lei valoriza e obriga a execução do Hino Nacional nas escolas, compreendendo que patriotismo, identidade nacional e formação cívica não são conceitos ultrapassados, mas pilares de uma nação sólida.

Ao longo de décadas de vida pública, destinou inúmeros recursos para municípios mineiros, apoiando hospitais, entidades sociais, obras do terceiro setor e iniciativas que transformaram concretamente a vida de milhares de pessoas. Porque política séria não vive apenas de discursos. Ela precisa produzir resultados reais.

Na segurança pública, sua atuação alcançou reconhecimento nacional. Presidente das Frentes Parlamentares das Guardas Municipais e da Polícia Penal, tornou-se referência na defesa das forças de segurança e é reconhecido por muitos como patrono da Polícia Penal brasileira, especialmente por sua atuação decisiva na inclusão da categoria no artigo 144 da Constituição Federal. Também foi autor da legislação que modernizou o combate ao narcotráfico, agilizando a incineração de drogas apreendidas no país. Foi ele também que alterou o Código Penal, para aumentar a pena do feminicídio se o crime for praticado em descumprimento de medida protetiva.

Foram tantas conquistas e realizações que é difícil catalogar!

Sua experiência institucional também fala por si. Já foi líder do Partido Liberal-PL na Câmara dos Deputados, vice-presidente da Casa, assumiu sua presidência em diversas ocasiões, presidiu a Comissão de Legislação Participativa e, durante anos, figurou entre os parlamentares mais influentes do Brasil. Atualmente é o presidente do PL 60 + e organiza o debate partidário acerca dos temas envolvendo a pessoa idosa.

Mas talvez uma das maiores demonstrações da sua capacidade política esteja naquilo que construiu ao longo do tempo. Um grupo político sólido, vitorioso e duradouro. Um grupo que preserva suas características, que se espelha no seu caráter, na sua visão de mundo e no seu modo peculiar de fazer política, com lealdade, respeito, diálogo e firmeza de princípios. Em uma época marcada por projetos pessoais efêmeros, meu pai ajudou a formar lideranças, consolidar alianças e construir relações baseadas em confiança e coerência. A dimensão desse trabalho coletivo pode ser medida pelas inúmeras lideranças municipais que ajudamos a eleger e fortalecer ao longo dos anos.

Cresci vendo um homem absolutamente devotado ao trabalho. Um parlamentar com presença integral, alguém que sempre tratou a vida pública como missão, nunca como conveniência. Acontecesse o que acontecesse, ele estava lá. Presente. Disponível. Firme no dever. São raríssimos os homens públicos que conseguem atravessar tantas décadas mantendo o mesmo senso de responsabilidade, a mesma disciplina e a mesma constância.

Guardo lembranças muito vivas do meu pai percorrendo longas distâncias de carro pelas estradas de Minas Gerais para pregar em pequenas igrejas do interior do estado ou visitar suas bases eleições. Muitas vezes voltava de madrugada e, ainda assim, seguia para Brasília no dia seguinte, sem reclamar, sem dramatizar o cansaço, sem jamais perder a disposição de servir. Talvez tenha sido ali, entre estradas, púlpitos simples e conversas silenciosas com o povo, que ele desenvolveu essa rara capacidade de compreender a profundamente as pessoas.

Meu pai sempre teve o dom de ouvir. Ouvir de verdade, com paciência, com humanidade. Quem chega ao seu gabinete encontra alguém disposto a atender pessoalmente, a retornar ligações, a dedicar tempo às dores e angústias de cada pessoa. Em uma política cada vez mais artificial e distante, ele nunca perdeu a capacidade de tratar individualmente com cada pessoa. Não deixou de ser pastor na politica, por isso não trata com as pessoas no atacado, mas no varejo, no olho no olho.

E talvez seja exatamente essa estabilidade de caráter que explique a longevidade e os resultados do grupo político que construiu ao longo dos anos. Um grupo que venceu eleições, formou lideranças e permaneceu unido porque nasceu da dedicação incansável de alguém que sempre liderou pelo exemplo.

Há outro aspecto que considero fundamental destacar. Em toda a sua trajetória pública, meu pai jamais esteve envolvido em escândalos. Nunca participou da roubalheira que mancha a política brasileira e jamais precisou explicar desvios de conduta. Em um país cansado de decepções, isso não é detalhe, é patrimônio moral. Ele sempre tratou a honestidade não apenas como obrigação institucional, mas como valor pessoal. E talvez esse tenha sido, ao longo da vida, seu principal ativo eleitoral: a confiança das pessoas.

E tudo isso sem recorrer à política do estardalhaço permanente. Sem lacração, sem teatralidade e sem transformar adversários em inimigos.

Aprendi com meu pai que ideias brigam; pessoas não precisam se destruir. Aprendi também que a política não pode ser movida pelo ressentimento, porque, como ele sempre lembra a passagem biblica, “a nossa luta não é contra a carne e o sangue”. Talvez por isso tenha conseguido dialogar com diferentes setores sem jamais abandonar suas convicções.

Há uma frase que ele costuma repetir e que resume muito da sua visão pública: na política, é preciso respeitar o tripé união, mobilização e organização. União para construir. Mobilização para transformar. Organização para fazer com que as mudanças aconteçam de forma concreta e duradoura.

Na vida pública, muitas pessoas se movem pela ambição de alcançar cargos maiores. Eu não. Meu maior objetivo na política nunca foi galgar posições mais altas. É poder olhar para trás, ao final da minha trajetória, e sentir que me tornei parecida com o meu pai. Parecida na integridade, na forma de tratar as pessoas, na fidelidade aos princípios e na disposição de servir. Porque há homens que ocupam cargos e há homens que deixam legado.

O Brasil atravessa um período difícil. Os problemas reais da população, segurança, economia, saúde, educação e estabilidade institucional, exigem maturidade, equilíbrio e experiência. O país não precisa de mais ruído. Precisa de lucidez.

Porque, entre o alvoroço e o escarcéu, a experiência segue sendo o caminho mais seguro para proteger os valores certos, enfrentar os desafios reais e construir um futuro mais estável para o Brasil.

Alê Portela é advogada, professora, mestre em Direito, deputada estadual e Secretária de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais.

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