Só se não for atrapalhar

Foto: Pixabay

No fim de semana participei de uma conversa entre mulheres e descobri uma coisa curiosa: todas sabíamos oferecer ajuda e quase nenhuma sabia pedir.

Tudo começou com Rafaela contando que buscou o filho da prima na escola. Ela descreveu a cena com risadas e leveza e sublinhou que “não era trabalho nenhum”. E eu fiquei pensando na frase da prima que hesitou em pedir a ajuda: “Eu não queria incomodar.”

Incomodar é uma das grandes preocupações femininas. É permitido ficar cansada, sobrecarregada, atrasada, doente e ligeiramente à beira de um colapso. O que não se pode é dar trabalho. E quando decidimos pedir ajuda, isso parece exigir um complexo protocolo.

Primeiro, é preciso diminuir o pedido: “É só uma coisinha”, a gente costuma dizer.

Depois, é necessário oferecer à pessoa a possibilidade de recusar: “Mas pode falar que não, viu?!”.

Em seguida, reforçamos que não há problema algum caso ela não possa: “De verdade, se não puder, pode falar!”.

É uma negociação em que fazemos o possível para que a outra pessoa não precise nos ajudar. Caso ela aceite, agradecemos de um modo um pouco constrangedor, como se a pessoa tivesse doado um rim.

Quando alguém oferece espontaneamente, também não facilitamos.

  • “Quer que eu leve isso para você?”.
  • “Não precisa.”
  • “Quer que eu fique com as crianças?”.
  • “Imagina.”
  • “Quer conversar?”. “Não! Está tudo bem.

Talvez porque muitas de nós tenham aprendido cedo a cuidar sem nunca ocupar o lugar de quem precisa ser cuidada. Percebemos que o arroz está acabando, que a criança ficou quieta demais, que a mãe falou ao telefone com uma voz diferente… Reconhecemos com facilidade a necessidade dos outros. A nossa, quase sempre, tentamos disfarçar.

Naquela conversa, tentamos descobrir de onde vinha nossa dificuldade em pedir ajuda. Surgiram mães, avós, trabalhos, casamentos, educação, orgulho e a convicção de que “mulheres fortes resolvem”.

Talvez ninguém tenha nos ensinado isso com palavras. Aprendemos vendo mulheres exaustas serem elogiadas porque “davam conta de tudo”.

Fiquei pensando se, no meu caso, também não há um pouco de ego nisso: é difícil abandonar o posto de quem resolve tudo, prevê tudo e, por vezes, acredita que ninguém faria tão bem. Talvez o exercício seja mais simples e mais incômodo: pedir ajuda antes de chegar ao limite. E aceitar que o mundo continue funcionando mesmo quando outra pessoa resolve de um jeito diferente do nosso.

É historiadora, mestre em História Social da Cultura e especialista em comunicação política. Foi pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e atua como consultora de mandatos parlamentares, desenvolvendo estratégias de narrativa, posicionamento público e análise de dados. É coordenadora do Núcleo de Integridade da Informação da Agência NOVA.

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