Os responsáveis de plantão

O médico e terapeuta Viktor Frankl
Para Viktor Frankl, o homem está em busca de sentido. Foto: Instituto Viktor Frankl/Reprodução

O médico e terapeuta Viktor Frankl, mundialmente conhecido e criador da logoterapia, compreendia que encontramos um propósito quando nos entregamos a alguém ou a um projeto. Para ele, o homem está em busca de sentido, e não propriamente de prazer ou de poder. É interessante observar que o sentido da vida não seria encontrado fora da concretude da existência, mas no modo como respondemos às pessoas, aos projetos e às situações que vêm ao nosso encontro.

A moda em torno da palavra “propósito” parece já ter sido ultrapassada. Os gurus de plantão migraram para outros temas, como a liberdade financeira, muito embora o propósito ainda apareça nos grandes eventos corporativos como uma espécie de anestésico para a carnificina presente nas empresas.

Pois bem, quando falamos de propósito, surge também o tema da responsabilidade, mais especificamente da responsabilidade por alguém ou por um projeto. A palavra “responsabilidade” também está na moda. Em certa tradição psicanalítica, defende-se que cabe ao sujeito autorizar-se em seu desejo — inconsciente — e responsabilizar-se por ele.

Na psicanálise, a responsabilidade está ligada a uma espécie de sustentação do sujeito diante dos atravessamentos e das vicissitudes que a vida, e também o outro, lhe impõem. Trata-se da capacidade de sustentar os laços sem que o camarada se aniquile ou se aliene. A responsabilidade estaria ligada, portanto, a um modo de lidar com a diferença, com aquilo que vem ao nosso encontro.

O encontro, aliás, só acontece na medida em que o camarada se responsabiliza, isto é, quando consegue responder à diferença sem imediatamente corrigi-la, assimilá-la ou anulá-la. Responsabilidade, alteridade e diferença são palavras que carregam entre si uma ligação especial.

Em Antes da técnica, presença, ao tratar da presença do psicanalista, recorri a Heidegger para pensar uma espécie de “des-ocupação cuidadosa”: uma presença que não ocupa o lugar existencial do outro, não lhe antecipa sentidos nem determina aquilo que ele deve ser, mas sustenta uma abertura para que ele se aproprie de suas próprias possibilidades.

Entendo que essa mesma ideia possa ser aplicada aqui. Responsabilizar-se pelo outro não deveria significar ocupar seu lugar, mas permanecer presente sem lhe confiscar a existência.

O problema é que responsabilizar-se por algo ou por alguém, quando mal compreendido, pode tornar-se uma espécie de subterfúgio para alienar o outro e controlá-lo. Isso é fácil de compreender quando observamos os detentores do poder atuando em nome daquilo que chamam de responsabilidade.

Um pai que, em vez de se responsabilizar pelos filhos, os tiraniza; um político que tiraniza seu povo; os heads — porque agora, nas empresas, todos são heads de alguma coisa — que batem na mesa e gritam: “Eu sou o responsável; logo, faço somente o que quero”.

Esse mesmo camarada, salvaguardado por essa fantasia — não posso chamar de outra coisa —, acredita que pode e deve determinar o destino daqueles que escolheu, vejam vocês, para serem seus súditos. É bom lembrar que esses tiranos só aceitam se responsabilizar por aqueles que não questionam seu controle.

Na minha vida de advogado, e também como um bom observador de mim mesmo, constatei que o camarada que se coloca como responsável pela correção do mundo normalmente busca ocupar uma posição de poder, mesmo que sob uma forma muito sutil e solidária. Ele se glorifica por ocupar esse lugar, mas também se vitimiza por tê-lo ocupado. Em seguida, projeta sobre o mundo um ressentimento terrível.

Esses camaradas podem ter se colocado nessa posição tanto pelo prazer de controlar quanto como uma forma de reprimir os próprios desejos. É aquilo que a sociedade consagrou chamar de “camarada recalcado”: aquele que, na medida em que não se autoriza a viver livremente, não suporta a diversidade, o diálogo ou o questionamento e acaba se transformando em fiscal de todos aqueles que se apresentam de maneira a contrariá-lo.

Eu mesmo, em minha pequena tirania, já fantasiei corrigir e salvar muitas pessoas próximas: pais, filhos, irmãos e amigos. Até que, um dia, percebi que havia algo de errado. Havia em mim uma espécie de incapacidade de lidar com a irredutibilidade do outro. Percebi, então, o tirano que habitava meu ser.

Não foi fácil me libertar dele. Há sempre uma espécie de recaída.

Quem diria que deveríamos desconfiar dos homens “responsáveis”?

Políticos, empresários, líderes religiosos e outras figuras de poder, cada qual com seu plano de salvação, acreditam-se responsáveis por salvar o mundo, um povo, uma religião, os pobres, as famílias, a pátria ou qualquer outra abstração capaz de reunir seguidores.

Mas que fique claro: tomo essas figuras apenas como exemplos. Todas elas já revelaram que a natureza de sua responsabilidade é autoritária e totalizante, justamente porque só estão preparadas para se responsabilizar por aqueles que as veneram. Os demais não aparecem como sujeitos de sua responsabilidade, mas como obstáculos a serem corrigidos, combatidos ou eliminados.

A pequena tirania doméstica e a grande tirania política talvez não sejam tão diferentes quanto gostaríamos de imaginar. Ambas podem nascer da convicção de que sabemos o que é melhor para o outro e de que, por sermos responsáveis por ele, estamos autorizados a decidir seu destino.

A recaída acontece sobretudo quando queremos intervir na vida do outro utilizando o discurso da responsabilidade. Não conseguimos suportar que aqueles que amamos sofram. Vê-los sofrer pode ser — e geralmente é — profundamente doloroso. Entretanto, utilizar nosso poder para interferir em seu destino pode ser uma maneira de reduzi-los e aniquilá-los, retirando-lhes a possibilidade de existir.

Salvamos o outro de sua própria existência e o impedimos de encontrar o sentido da vida.

Essa falsa responsabilidade é, em muitos casos, uma tentativa de reduzir o outro ao mesmo, sustentada pelo delírio de que a igualdade e a semelhança seriam garantias de paz e harmonia. Talvez boa parte da agressividade nasça justamente da incapacidade de suportar que o outro não seja uma continuação de nós mesmos.

Lembrei-me de uma passagem de “Virgem”, de Marina Lima e Antônio Cícero, um verso que talvez pudesse desarmar a certeza delirante de salvação desses homens: “As coisas não precisam de você”.

Aliás, desconfio que seja justamente isso que o homenzinho responsável não consiga suportar: descobrir que as coisas, e até mesmo aqueles que ama, não precisam dele.

É psicanalista pelo Centro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo (CEP) e advogado. Atua como conselheiro de empresas e desenvolve pesquisas independentes nas interfaces entre filosofia, psicanálise, literatura e arte. É autor de poemas e ensaios dedicados à investigação da linguagem, da subjetividade e dos modos de constituição da existência contemporânea.

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