Pai e filha, Eduardo e Dani Cunha destinam R$ 1,2 milhão de campanhas a gráfica administrada por aliados em MG

Prestações de contas parciais dos candidatos, disponíveis no portal do TSE, apontam a gráfica como principal despesa das campanhas
O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e a filha, a deputada federal Dani Cunha
Eduardo Cunha, candidato por Minas, e a filha, Dani Cunha, que disputa a reeleição pelo Rio, almejam vagas na Câmara em 2027. Foto: Facebook/Divulgação

Candidato a deputado federal por Minas Gerais, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos) já destinou R$ 570,7 mil, quase 40% do total de despesas declaradas à Justiça Eleitoral, a uma gráfica sediada em Leopoldina, na Zona da Mata mineira. A empresa está registrada em nome de dois administradores ligados ao grupo do político.

Os valores constam da prestação de contas parcial disponível nesta quarta-feira (16). O montante foi dividido em 40 pagamentos, com rubricas de santinhos, banners e folders. Ao todo, a campanha do ex-parlamentar declarou R$ 1,4 milhão em despesas até o momento.

A conta fica maior quando se considera a campanha da filha. A deputada federal Dani Cunha (PL), candidata à reeleição no Rio de Janeiro, direcionou R$ 680,1 mil dos R$ 1,3 milhão à mesma gráfica, o equivalente a 52% de suas despesas. Somados, pai e filha repassaram R$ 1,25 milhão à empresa.

Segundo a Receita Federal, a Sudeste Gráfica é administrada por Raoni César Ras e Jurandy da Silva Monteiro Junior. Aberta em junho do ano passado, a empresa tem capital social de R$ 5 milhões e conta com a Sudeste Rádio entre os sócios. Os dois também administram a rádio, que tem um fundo de investimentos no quadro societário e é ligada à rede 89 Maravilha.

Conforme apurou a reportagem, Raoni ocupou cargos na Prefeitura do Rio de Janeiro – ele foi presidente da RioLuz, companhia municipal responsável pela iluminação pública, para onde chegou por indicação atribuída ao grupo de Cunha, e vice-presidente da IplanRio, empresa de tecnologia do município -, além de atuar em campanha anterior de Dani Cunha.

Já Jurandy mantém negócios com familiares do ex-presidente da Câmara, conforme dados da Receita Federal, e também figura como administrador de empresas de radiodifusão ligadas à rede 89 Maravilha, conjunto de emissoras que Cunha ampliou pelo interior de Minas.

Embora o nome do ex-deputado não conste no quadro societário das rádios, a rede é publicamente associada a ele, que comanda programas ao vivo e concede entrevistas às próprias emissoras a cada inauguração. O plano faz parte da estratégia dele de retornar ao Legislativo.

Procurado, Eduardo Cunha afirmou que os candidatos podem contratar serviços de quem quiserem e que não são obrigados a dar qualquer satisfação, desde que cumpridos dentro das normas eleitorais.

“Qualquer candidato contrata qualquer serviço de quem ele quiser, não havendo nenhuma regra legal que me obrigue a escolher quem quer que seja, e nenhum candidato é obrigado a dar qualquer satisfação que já seja a regularidade dos serviços dentro das normas legais”, afirmou.

A reportagem não encontrou os sócios da gráfica. O espaço permanece aberto.

Tentativa por Minas

Cunha escolheu Minas para tentar voltar ao Legislativo federal, depois de fracassar nas urnas de São Paulo em 2022, quando disputou uma vaga pelo PTB e recebeu pouco mais de 5 mil votos. Com carreira construída no Rio de Janeiro, ele evita concorrência direta com a filha.

Uma das apostas é a comunicação. Ligada a Cunha, a Rede 89 Maravilha, de perfil gospel, avançou pelo interior e chegou a dezenas de cidades, com sede na capital mineira. O ex-deputado também costurou acordo com a Jovem Pan para novas emissoras no estado e tem se aproximado de clubes de futebol e de lideranças religiosas do interior.

Candidatura barrada

A candidatura de Eduardo Cunha foi indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) no início do mês. E, nesta semana, a Corte rejeitou o recurso com que o ex-presidente da Câmara dos Deputados apresentou. A decisão foi tomada por unanimidade nesta terça-feira (15).

Com a rejeição dos embargos de declaração, fica mantido o entendimento firmado no início do mês, que considerou o ex-deputado inelegível até 1º de fevereiro de 2027, prazo que alcança as eleições deste ano. A inelegibilidade vem da cassação do mandato de Cunha pela Câmara, em setembro de 2016, por quebra de decoro.

A defesa de Cunha agora pretende recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a instância máxima da Justiça Eleitoral. Enquanto o processo tramita, ele pode manter atos de campanha, inclusive no horário eleitoral gratuito.

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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