Candidaturas ligadas às forças de segurança caem quase 40% em Minas

Para professor, o militarismo permanece como estratégia de campanha, mas encontra menos eco nos eleitores após prisão de Bolsonaro
Militares perfilados com bandeira de Minas Gerais ao fundo
O uso de patentes no nome de urna ainda é estratégia de muitos candidatos, mostra levantamento. Foto: reprodução/TCE.

O número de integrantes de instituições da segurança pública que se candidataram nas eleições deste ano em Minas Gerais caiu quase 40% em relação a 2022. É o que mostra levantamento de O Fator a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A reportagem utilizou como parâmetro a ocupação declarada pelos candidatos à Corte Eleitoral.

Em 2022, 81 candidatos tinham como ocupação “policial militar”, “policial civil”, “membro das Forças Armadas”, “militar reformado” ou “bombeiro militar”. Neste ano, o mesmo filtro retorna 50 resultados — uma retração de 38%.

O Fator também conferiu os números relacionados ao nome de urna dos postulantes. O levantamento aponta que, neste ano, há 39% menos concorrentes a cargos públicos no estado que levam, para as campanhas, palavras relacionadas às forças de segurança.

Há quatro anos, o estado registrou 96 candidaturas com termos ligados às forças de segurança no nome de urna, como “soldado”, “major”, “cabo”, “PM”, “policial” e “bombeiro”. Neste ano, usando esse mesmo filtro, a reportagem encontrou 58 correspondências na base de dados do TSE.

“A minha hipótese para essa queda é que, até 2022, tínhamos uma direita muito centrada na figura do (ex-presidente) Jair Bolsonaro (PL), que tem um discurso punitivista e militarista muito forte em vários setores da sociedade. Ele se tornou um cabo eleitoral muito consolidado e criou uma onda de estímulo a esses profissionais em busca de um cargo eletivo”, afirma o cientista político Camilo Aggio, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para o especialista, porém, o contexto das eleições deste ano se alterou: o bolsonarismo não ocupa mais o Palácio do Planalto e tem seu principal líder em prisão domiciliar. Isso forçou que a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência adotasse outro tom.

“Embora Flávio Bolsonaro carregue o sobrenome do pai, a campanha dele tem focado no calcanhar de Aquiles da campanha de 2022: o eleitorado feminino, que não compra muito esse discurso de militarização, independentemente da posição ideológica”, diz Aggio.

Papel das mídias sociais

Em 2022, Minas elegeu cinco candidatos com palavras ligadas às forças de segurança pública no nome de urna: Delegado Marcelo Freitas (União) representa o estado na Câmara dos Deputados; enquanto Delegado Christiano Xavier (PSD), Coronel Henrique (PL), Sargento Rodrigues (PL) e Coronel Sandro (PL) ganharam vagas na Assembleia Legislativa. O último deixou a ALMG para se tornar prefeito de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce.

Para o cientista político da UFMG, a atuação desses servidores da segurança pública nas mídias sociais cumpre papel fundamental na equação para ter ou não vitória nas urnas.

“As Forças Armadas vedaram a utilização das mídias sociais por parte dos seus militares, mas em outras instituições isso não acontece. Muitos policiais militares e civis conseguiram criar fama (nas redes) para cacifar eleitoralmente. Essas pessoas têm criado canais em plataformas, como o YouTube, arregimentam uma quantidade expressiva de seguidores e acabam acreditando que, talvez, uma incursão eleitoral seja uma possibilidade real”, analisa Camilo Aggio.

Sargento nas cabeças

Entre as palavras ligadas às forças de segurança mais comuns nos nomes de urna dos candidatos a cargos públicos em Minas Gerais neste ano, “sargento” se destaca: são 15 usos diferentes, segundo os dados do TSE.

Na sequência, aparece o topo da carreira da Polícia Civil: são 11 “delegados” nas urnas mineiras. “Coronel” e “cabo” fecham o pódio com 10 candidatos cada.

Também aparecem na lista “bombeiro” (quatro vezes) e “tenente” (duas candidaturas). Ainda estão à disposição do eleitor um candidato de cada um dos termos a seguir: “perito”, “capitão”, “investigador”, “policial”, “oficial” e “capitão”.

Repórter de bastidores e orientado por dados de O Fator em Belo Horizonte, onde cobre política e mercado. Também é professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, onde leciona disciplina ligada ao jornalismo de dados. Trabalhou por sete anos no jornal Estado de Minas, onde foi repórter e coordenador de jornalismo de dados. Também trabalhou no caderno de política do jornal O TEMPO por dois anos. É master em Jornalismo de Dados, Automação e Data Storytelling pelo Insper.

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