Tem uma hora da noite em que o corpo se entrega antes da mente. O abajur já não ilumina nada que importe, o livro escorrega da mão, e a cabeça afunda no travesseiro. A respiração desacelera, os músculos soltam, e a mente, que passou o dia correndo atrás de mil coisas, finalmente para. É nesse intervalo, entre o último pensamento e o primeiro fio de sono, que a casa toda respira diferente. O silêncio fica mais espesso. O barulho da rua chega abafado. A gente dorme sem saber o que vai encontrar do outro lado, como quem entrega as chaves.
Só que dormir não é descansar, pelo menos nem sempre. Quem já acordou com o coração disparado sem saber por quê, sabe do que estou falando. Quem já sonhou com alguém que não deveria, ou fez no sonho coisas que jamais faria acordado, conhece esse incômodo. A ideia é antiga: Freud mostrou que o sonho é uma das poucas passagens para o que a consciência cala, e Platão, antes dele, já sabia que a razão vigilante adormece e deixa a fera solta. Não é preciso ser psicanalista para reconhecer o que se passa quando a porta se fecha.
Passamos o dia inteiro representando. Cumprimentamos quem não queremos cumprimentar, sorrimos para quem nos irrita, dizemos sim quando o corpo inteiro grita não. Engolimos sapos, engolimos vontades, engolimos até o que nem sabíamos que queríamos. Hipocrisia não é privilégio de ninguém: é condição de quem vive entre outros. No sonho não tem plateia. Ninguém pede licença. O que a gente censura durante o dia, à noite acontece com uma clareza que chega a ser cruel. O desejo aparece. A culpa não vem junto. O instinto age e ninguém segura. E nós assistimos a esse teatro que mostra quem somos quando ninguém está olhando. Depois a gente acorda e finge que não viu.
Quem somos nós de verdade? Do que é feito esse abismo que se abre quando a consciência se cala? São perguntas das quais a gente foge quando o sol nasce. Ou tenta fugir, porque nem sempre consegue.
Já sonhei que estava de volta a uma casa que não existe mais. Já sonhei que falava com alguém que já morreu. Já acordei com a certeza de que tinha resolvido algo, e a certeza se desfez antes do café. O sonho não avisa: chega sem bater, senta-se na sala, mexe nos móveis, e vai embora deixando a porta aberta. A gente fica sem saber se entrou ou se saiu. Às vezes passa o dia com a sensação de que faltou um pedaço.
A manhã chega, a claridade entra pelas frestas sem pedir licença. O despertador toca, ou o sol bate no rosto, ou o corpo decide que já é hora. Acordar, para muitos de nós, dói. Não é dor física, é outra coisa: o choque entre o que sonhamos e o que a vida real oferece. Penso em “Sonhos”, de Peninha, que dialoga com essa fronteira. A tentação de ficar na cama, de fechar os olhos, de voltar ao mundo onde tudo era possível, é enorme. Preferimos a mentira confortável do sonho à verdade crua do dia.
Não sei se o sonho serve de anestesia. Às vezes serve, sim. A gente se entrega, morre um pouco, suspira por um mundo que nunca teve coragem de construir. Calderón de la Barca já avisava que a vida desperta é feita do mesmo material efêmero das ilusões noturnas. Se tudo é tão escorregadio, o que sobra? Talvez o caráter, essa âncora que não depende do acaso. Que não se compra. Que não se herda. Não sei. Talvez sobre menos do que a gente gostaria.
Tem sonho que a gente usa para se esconder. Outros viram teste, sem aviso. Fernando Pessoa disse que tinha em si todos os sonhos do mundo, e a frase pode ser lida como convite à inércia. Mas há outra leitura possível: a de que ele cobrava responsabilidade. A moral verdadeira não nasce no sonho, nasce na hora de abrir os olhos, no que decidimos fazer com os destroços da fantasia quando os pés tocam o chão. No gesto pequeno, no dia que começa, na escolha que ninguém vê. Ou talvez não nasça nem aí. Talvez a gente invente a moral enquanto anda.
Por isso o sonho não pode ficar trancado no quarto: precisa descer para a rua. John Lennon desafiou o mundo a imaginar a paz sem fronteiras e sem ganância. Maria Bethânia e Dona Ivone Lara cantaram a liberdade que mora longe, que o samba pede e a vida nega. E o samba-enredo “Sonho de um Sonho”, que a Vila Isabel levou para a Sapucaí em 1980, nascido de um poema de Carlos Drummond de Andrade, com Martinho da Vila entre os compositores, transformou o desejo em resistência, em arma de quem não aceita calar. O sonho entregue ao povo vira outra coisa. Vira luta, talvez. E a luta, quando é de todos, tem voz e corpo.
Fico pensando que o sonho não é o contrário da realidade. Acho que é o rascunho dela. Sabe aqueles cadernos de escola que a gente abandona na gaveta, cheios de borrões? Pois é. Rascunho só vale alguma coisa quando alguém, com o coração na mão, decide passar a limpo. A escola é longa, a gente volta muitas vezes para aprender. Mas esta lição é de hoje. O caderno está aberto. A caneta está na mesa. Só falta ver se alguém vai escrever.
Lá fora, o dia começa sem pedir licença. A cidade acorda. E a gente também. Mais ou menos.
Tem uma hora da noite em que o corpo se entrega antes da mente. O abajur já não ilumina nada que importe, o livro escorrega da mão, e a cabeça afunda no travesseiro. A respiração desacelera, os músculos soltam, e a mente, que passou o dia correndo atrás de mil coisas, finalmente para. É nesse intervalo, entre o último pensamento e o primeiro fio de sono, que a casa toda respira diferente. O silêncio fica mais espesso. O barulho da rua chega abafado. A gente dorme sem saber o que vai encontrar do outro lado, como quem entrega as chaves.
Só que dormir não é descansar, pelo menos nem sempre. Quem já acordou com o coração disparado sem saber por quê, sabe do que estou falando. Quem já sonhou com alguém que não deveria, ou fez no sonho coisas que jamais faria acordado, conhece esse incômodo. A ideia é antiga: Freud mostrou que o sonho é uma das poucas passagens para o que a consciência cala, e Platão, antes dele, já sabia que a razão vigilante adormece e deixa a fera solta. Não é preciso ser psicanalista para reconhecer o que se passa quando a porta se fecha.
Passamos o dia inteiro representando. Cumprimentamos quem não queremos cumprimentar, sorrimos para quem nos irrita, dizemos sim quando o corpo inteiro grita não. Engolimos sapos, engolimos vontades, engolimos até o que nem sabíamos que queríamos. Hipocrisia não é privilégio de ninguém: é condição de quem vive entre outros. No sonho não tem plateia. Ninguém pede licença. O que a gente censura durante o dia, à noite acontece com uma clareza que chega a ser cruel. O desejo aparece. A culpa não vem junto. O instinto age e ninguém segura. E nós assistimos a esse teatro que mostra quem somos quando ninguém está olhando. Depois a gente acorda e finge que não viu.
Quem somos nós de verdade? Do que é feito esse abismo que se abre quando a consciência se cala? São perguntas das quais a gente foge quando o sol nasce. Ou tenta fugir, porque nem sempre consegue.
Já sonhei que estava de volta a uma casa que não existe mais. Já sonhei que falava com alguém que já morreu. Já acordei com a certeza de que tinha resolvido algo, e a certeza se desfez antes do café. O sonho não avisa: chega sem bater, senta-se na sala, mexe nos móveis, e vai embora deixando a porta aberta. A gente fica sem saber se entrou ou se saiu. Às vezes passa o dia com a sensação de que faltou um pedaço.
A manhã chega, a claridade entra pelas frestas sem pedir licença. O despertador toca, ou o sol bate no rosto, ou o corpo decide que já é hora. Acordar, para muitos de nós, dói. Não é dor física, é outra coisa: o choque entre o que sonhamos e o que a vida real oferece. Penso em “Sonhos”, de Peninha, que dialoga com essa fronteira. A tentação de ficar na cama, de fechar os olhos, de voltar ao mundo onde tudo era possível, é enorme. Preferimos a mentira confortável do sonho à verdade crua do dia.
Não sei se o sonho serve de anestesia. Às vezes serve, sim. A gente se entrega, morre um pouco, suspira por um mundo que nunca teve coragem de construir. Calderón de la Barca já avisava que a vida desperta é feita do mesmo material efêmero das ilusões noturnas. Se tudo é tão escorregadio, o que sobra? Talvez o caráter, essa âncora que não depende do acaso. Que não se compra. Que não se herda. Não sei. Talvez sobre menos do que a gente gostaria.
Tem sonho que a gente usa para se esconder. Outros viram teste, sem aviso. Fernando Pessoa disse que tinha em si todos os sonhos do mundo, e a frase pode ser lida como convite à inércia. Mas há outra leitura possível: a de que ele cobrava responsabilidade. A moral verdadeira não nasce no sonho, nasce na hora de abrir os olhos, no que decidimos fazer com os destroços da fantasia quando os pés tocam o chão. No gesto pequeno, no dia que começa, na escolha que ninguém vê. Ou talvez não nasça nem aí. Talvez a gente invente a moral enquanto anda.
Por isso o sonho não pode ficar trancado no quarto: precisa descer para a rua. John Lennon desafiou o mundo a imaginar a paz sem fronteiras e sem ganância. Maria Bethânia e Dona Ivone Lara cantaram a liberdade que mora longe, que o samba pede e a vida nega. E o samba-enredo “Sonho de um Sonho”, que a Vila Isabel levou para a Sapucaí em 1980, nascido de um poema de Carlos Drummond de Andrade, com Martinho da Vila entre os compositores, transformou o desejo em resistência, em arma de quem não aceita calar. O sonho entregue ao povo vira outra coisa. Vira luta, talvez. E a luta, quando é de todos, tem voz e corpo.
Fico pensando que o sonho não é o contrário da realidade. Acho que é o rascunho dela. Sabe aqueles cadernos de escola que a gente abandona na gaveta, cheios de borrões? Pois é. Rascunho só vale alguma coisa quando alguém, com o coração na mão, decide passar a limpo. A escola é longa, a gente volta muitas vezes para aprender. Mas esta lição é de hoje. O caderno está aberto. A caneta está na mesa. Só falta ver se alguém vai escrever.
Lá fora, o dia começa sem pedir licença. A cidade acorda. E a gente também. Mais ou menos.
Tem uma hora da noite em que o corpo se entrega antes da mente. O abajur já não ilumina nada que importe, o livro escorrega da mão, e a cabeça afunda no travesseiro. A respiração desacelera, os músculos soltam, e a mente, que passou o dia correndo atrás de mil coisas, finalmente para. É nesse intervalo, entre o último pensamento e o primeiro fio de sono, que a casa toda respira diferente. O silêncio fica mais espesso. O barulho da rua chega abafado. A gente dorme sem saber o que vai encontrar do outro lado, como quem entrega as chaves.
Só que dormir não é descansar, pelo menos nem sempre. Quem já acordou com o coração disparado sem saber por quê, sabe do que estou falando. Quem já sonhou com alguém que não deveria, ou fez no sonho coisas que jamais faria acordado, conhece esse incômodo. A ideia é antiga: Freud mostrou que o sonho é uma das poucas passagens para o que a consciência cala, e Platão, antes dele, já sabia que a razão vigilante adormece e deixa a fera solta. Não é preciso ser psicanalista para reconhecer o que se passa quando a porta se fecha.
Passamos o dia inteiro representando. Cumprimentamos quem não queremos cumprimentar, sorrimos para quem nos irrita, dizemos sim quando o corpo inteiro grita não. Engolimos sapos, engolimos vontades, engolimos até o que nem sabíamos que queríamos. Hipocrisia não é privilégio de ninguém: é condição de quem vive entre outros. No sonho não tem plateia. Ninguém pede licença. O que a gente censura durante o dia, à noite acontece com uma clareza que chega a ser cruel. O desejo aparece. A culpa não vem junto. O instinto age e ninguém segura. E nós assistimos a esse teatro que mostra quem somos quando ninguém está olhando. Depois a gente acorda e finge que não viu.
Quem somos nós de verdade? Do que é feito esse abismo que se abre quando a consciência se cala? São perguntas das quais a gente foge quando o sol nasce. Ou tenta fugir, porque nem sempre consegue.
Já sonhei que estava de volta a uma casa que não existe mais. Já sonhei que falava com alguém que já morreu. Já acordei com a certeza de que tinha resolvido algo, e a certeza se desfez antes do café. O sonho não avisa: chega sem bater, senta-se na sala, mexe nos móveis, e vai embora deixando a porta aberta. A gente fica sem saber se entrou ou se saiu. Às vezes passa o dia com a sensação de que faltou um pedaço.
A manhã chega, a claridade entra pelas frestas sem pedir licença. O despertador toca, ou o sol bate no rosto, ou o corpo decide que já é hora. Acordar, para muitos de nós, dói. Não é dor física, é outra coisa: o choque entre o que sonhamos e o que a vida real oferece. Penso em “Sonhos”, de Peninha, que dialoga com essa fronteira. A tentação de ficar na cama, de fechar os olhos, de voltar ao mundo onde tudo era possível, é enorme. Preferimos a mentira confortável do sonho à verdade crua do dia.
Não sei se o sonho serve de anestesia. Às vezes serve, sim. A gente se entrega, morre um pouco, suspira por um mundo que nunca teve coragem de construir. Calderón de la Barca já avisava que a vida desperta é feita do mesmo material efêmero das ilusões noturnas. Se tudo é tão escorregadio, o que sobra? Talvez o caráter, essa âncora que não depende do acaso. Que não se compra. Que não se herda. Não sei. Talvez sobre menos do que a gente gostaria.
Tem sonho que a gente usa para se esconder. Outros viram teste, sem aviso. Fernando Pessoa disse que tinha em si todos os sonhos do mundo, e a frase pode ser lida como convite à inércia. Mas há outra leitura possível: a de que ele cobrava responsabilidade. A moral verdadeira não nasce no sonho, nasce na hora de abrir os olhos, no que decidimos fazer com os destroços da fantasia quando os pés tocam o chão. No gesto pequeno, no dia que começa, na escolha que ninguém vê. Ou talvez não nasça nem aí. Talvez a gente invente a moral enquanto anda.
Por isso o sonho não pode ficar trancado no quarto: precisa descer para a rua. John Lennon desafiou o mundo a imaginar a paz sem fronteiras e sem ganância. Maria Bethânia e Dona Ivone Lara cantaram a liberdade que mora longe, que o samba pede e a vida nega. E o samba-enredo “Sonho de um Sonho”, que a Vila Isabel levou para a Sapucaí em 1980, nascido de um poema de Carlos Drummond de Andrade, com Martinho da Vila entre os compositores, transformou o desejo em resistência, em arma de quem não aceita calar. O sonho entregue ao povo vira outra coisa. Vira luta, talvez. E a luta, quando é de todos, tem voz e corpo.
Fico pensando que o sonho não é o contrário da realidade. Acho que é o rascunho dela. Sabe aqueles cadernos de escola que a gente abandona na gaveta, cheios de borrões? Pois é. Rascunho só vale alguma coisa quando alguém, com o coração na mão, decide passar a limpo. A escola é longa, a gente volta muitas vezes para aprender. Mas esta lição é de hoje. O caderno está aberto. A caneta está na mesa. Só falta ver se alguém vai escrever.
Lá fora, o dia começa sem pedir licença. A cidade acorda. E a gente também. Mais ou menos.