A palavra veio do verbo em inglês to bet (apostar) e passou a ser usada no Brasil para denominar tanto o ato de apostar quanto as próprias empresas do setor.
As bets chegaram como brincadeira, viraram hábito, ganharam o futebol, entraram no bolso e, quando percebemos, já tinham chegado ao consultório e se tornado um problema sistêmico e de interesse público. Agora, o governo mandou desligar o cassino. Mas será que basta tirar o aplicativo para tirar a aposta da mente?
Primeiro são 10 reais. Depois, 20. Depois, “só para recuperar”. Quando a sociedade percebeu, o cassino já não ficava em Las Vegas: cabia no celular, patrocinava o futebol, frequentava a sala de jantar e mandava notificação às três da manhã. Afetou a saúde mental, a saúde pública e a vida de todos. E como não percebemos o problema?
A metáfora do sapo ajuda a entender. Coloque o sapo numa panela de água fervente e ele pula fora. Coloque-o numa panela de água fria e aumente a temperatura lentamente. O sapo, distraído, permanece ali até descobrir que o spa virou caldeirão.
Que fique registrado que a ciência desmente a história, mas há metáforas que sobrevivem justamente porque são melhores do que os fatos. E esta é perfeita para explicar o Brasil das bets. Só há uma diferença: a evolução silenciosa das bets impactou a sociedade e o Estado.
As bets chegaram ao Brasil sorrindo. Vieram vestidas com a camisa do time de futebol do coração de cada um. Vieram patrocinando times, transmissões, programas esportivos e influenciadores. Vieram acompanhadas de uma expressão típica do capitalismo contemporâneo: “Aposte com responsabilidade.”
É uma frase extraordinária. Quase tão reconfortante quanto “beba com moderação” impressa numa embalagem de bebida alcoólica. A civilização moderna tem um talento impressionante para vender a tentação associada aos mecanismos de recompensa e, ao mesmo tempo, oferecer a ilusão de autocontrole do instinto.
Tudo começa inocentemente. Dez reais. “Só para brincar.” Quando se percebe, já está em 100. O pensamento vem: “Agora eu recupero.” O cidadão não perdeu R$ 100; ele está “a uma entrada de recuperar”, está “fazendo gestão de banca”. Quando os valores aumentam, vem o pensamento: não perdeu o salário, está “reorganizando a estratégia”.
Pegou dinheiro emprestado? Alavancagem. Brigou com a família toda? Estresse. Não dormiu? Ansiedade. Perdeu novamente? “Hoje não era meu dia.” A inteligência humana é sagaz. Ela consegue transformar uma tragédia financeira em vocabulário de planejamento financeiro.
Freud teria trabalho aqui. Não porque o vienense tivesse confabulado com Nostradamus e deixado alguma fórmula para lidar com a bet brasileira, mas porque passou a vida desconfiando de uma coisa que nós adoramos considerar inexistente: a compulsão de repetir no afã de vencer.
O sujeito perde e aposta para recuperar. Perde de novo e aposta para recuperar o que perdeu tentando recuperar. É uma espécie de areia movediça viciante. A conta não fecha, mas a insistência persiste. E então o jogador já não está apostando para ganhar. Está apostando para apagar a derrota anterior. O dinheiro, nesse ponto, deixa de ser dinheiro. Vira uma espécie de dívida emocional, atravessada pelos mecanismos de recompensa e expectativa. Os psicólogos e psicanalistas podem explorar melhor isso.
O cassino mudou de endereço. Antigamente, para jogar, era preciso ir até o cassino. Havia distância. Havia horário. Havia algum constrangimento. Agora, o cassino mora no bolso. Não exige terno. Não exige viagem. Não exige sequer sair de casa. Basta o celular.
O apostador moderno pode apostar no ônibus, no almoço, na cama, na reunião de trabalho ou enquanto finge ouvir a esposa. E existe uma diferença brutal entre o velho cassino e o novo. O velho cassino esperava você chegar. O novo te chama o tempo todo, com a mensagem: “Tem jogo começando.” É quase um chamado de amigo: “Tem jogo, vamos?”
As plataformas funcionam 24 horas, oferecem apostas em tempo real, notificações, bônus e recompensas. O próprio Ministério da Saúde chama atenção para esses mecanismos, que podem estimular a permanência e a repetição entre usuários vulneráveis. Serviços e Informações do Brasil
O cassino, finalmente, conseguiu realizar o sonho do varejo: não esperar o cliente procurar o produto. O produto procura o cliente.
Pierre Bourdieu nos ajudou a pensar como práticas sociais podem parecer naturais depois de incorporadas e reproduzidas no cotidiano. Há comportamentos que, de tanto se repetir, deixam de ser escolhas. Foi assim que a aposta entrou e ganhou espaço na vida da sociedade brasileira.
Primeiro, alguém perguntou:
— Você aposta?
Depois veio uma pergunta mais ousada:
— Você ainda não aposta?
Pronto. A fronteira havia sido atravessada. A aposta deixou de ser exceção e virou hábito, costume, cultura. Entrou no futebol, paixão nacional. Está na camisa do time do coração. No podcast. No grupo de WhatsApp. No Instagram. Na conversa do bar. Na linguagem.
O sujeito já não diz: “Vou jogar.” Diz: “Vou fazer uma entrada.” Não está jogando. Está “posicionado”. Não perdeu. Tomou um “red”. Não está compulsivo. Está “exposto ao risco”. A realidade pode ser dura. Mas a terminologia vem sempre bem vestida.
Zygmunt Bauman descreveu uma sociedade marcada pela velocidade, pela fluidez, pela substituição permanente e pela necessidade de satisfação rápida. Hoje, ele encontraria uma sociedade líquida em que bilhões se desmancham nas bets.
As bets parecem ter explorado ao máximo o manual de marketing viral. Tudo precisa acontecer agora. A curtida. A notificação. A compra. A resposta. A recompensa. A aposta. O resultado. O futebol sequer precisa terminar para o dinheiro começar a mudar de bolso; a solução pode estar no primeiro lance.
A aposta ao vivo é perfeita para a sociedade impaciente. Não basta apostar no vencedor. Pode-se apostar no próximo escanteio. No próximo cartão. No próximo gol. No próximo lance. Se o jogo ficar parado, o sistema inventa uma oportunidade.
Há sempre alguma coisa acontecendo. Ou, mais precisamente: há sempre alguma coisa que pode ser monetizada. Criou-se a ideia de que a espera é desagradável. As bets descobriram como cobrar por ela.
A neurociência tem outra notícia pouco conveniente para quem acredita que tudo se resolve com força de vontade. A literatura científica sobre comportamento e transtornos relacionados ao jogo mostra que recompensa, expectativa, surpresa e incerteza participam dos mecanismos que podem sustentar o comportamento de apostar.
Você quase ganhou. Quase. O atacante quase marcou. Quase. Faltou um escanteio. Quase. A odd quase bateu. Quase. Essa pequena palavra é uma obra-prima comercial. O “quase” transforma o fracasso em promessa.
Em vez de: “Você perdeu.” A experiência psicológica pode ser: “Você esteve muito perto.” E aí aparece o botão: APOSTAR NOVAMENTE.
É quase uma conversa:
— Não deu.
— Não.
— Mas você viu como quase deu?
— Vi.
— Então tenta outra.
É assim que o prejuízo ganha cara de oportunidade.
O problema é quando a aposta sai do celular. Durante algum tempo, foi possível acreditar que as bets eram apenas um fenômeno econômico. Depois, percebeu-se que havia um problema psicológico. Depois, um problema familiar. Depois, um problema financeiro. Agora, temos um problema de saúde pública, de endividamento coletivo e de redução do consumo de bens e serviços.
O Ministério da Saúde passou a tratar o Transtorno do Jogo como transtorno de comportamento aditivo e criou ações específicas de prevenção, acolhimento e cuidado. Em julho de 2026, lançou a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online. A pasta informa que, entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140%.
Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa citada pelo Ministério da Saúde. Desses, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo de risco ou problemático. Portanto, não estamos falando de uma pequena tribo de apostadores ocasionais. Estamos falando de uma parcela expressiva da população exposta ao fenômeno.
A conta econômica também chama atenção, mas precisa ser lida com cuidado. Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), estima que as apostas tenham reduzido entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões a atividade econômica brasileira em 2025, principalmente pela redução do consumo. O impacto corresponderia a aproximadamente 0,9% a 1,1% do PIB e a algo entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia naquele ano.
Na área da saúde, o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estimou em pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano o custo social total dos danos associados ao jogo problemático. Desse montante, R$ 30,6 bilhões estão relacionados à dimensão da saúde, incluindo custos associados a suicídios, depressão, perda de qualidade de vida e tratamentos médicos. O próprio estudo ressalta que parte desses valores corresponde a custos sociais indiretos, e não simplesmente a despesas orçamentárias do governo.
A conta não aparece no anúncio. No anúncio, há o prêmio; na vida real, há a dívida. No anúncio, há o bônus; na vida real, há a insônia. No anúncio, há o influenciador sorrindo; na vida real, há a família perguntando onde foi parar o dinheiro. No anúncio, há o “cash out”; na vida real, há alguém tentando recuperar o que perdeu às duas da manhã.
O problema é que a propaganda é uma fotografia. A dependência é um filme. E não se entende um filme olhando apenas para o cartaz.
O curioso é que o apostador não precisa ser burro. Esta talvez seja a parte mais importante. Dependência não é atestado de burrice. Não é falta de caráter. Não é certificado de ignorância financeira. É um fenômeno complexo, que envolve comportamento, contexto, vulnerabilidades individuais, mecanismos de recompensa e fatores sociais.
Dizer “era só parar” chega a ser agressivo. Tem aproximadamente a mesma eficácia de dizer a alguém com insônia: “Era só dormir.” Ou a alguém deprimido: “Era só se animar.” É uma frase que tranquiliza quem a pronuncia, não necessariamente quem a escuta. A abordagem de saúde pública adotada pelo Ministério da Saúde procura justamente ampliar o acolhimento, a prevenção e o cuidado às pessoas que desenvolvem problemas relacionados às apostas.
E então Brasília acordou, ou pelo menos o Executivo. Depois de anos de expansão, o governo decidiu desligar o cassino.
Em 25 de setembro de 2026, foi publicada a Medida Provisória nº 1.394, que proibiu, em território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das loterias de apostas de quota fixa, tanto em meios físicos quanto virtuais. A medida alcança apostas esportivas e jogos on-line e também determina a extinção das concessões, permissões e autorizações estaduais e distritais para essa atividade.
O cronograma é quase um projeto de ciência exata. No dia da publicação, 25 de setembro, começou a proibição de novos aportes nas plataformas. Até 5 de outubro, às 23h59, os apostadores podem retirar voluntariamente seus saldos. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas devem sair do ar. Entre 7 e 8 de outubro, as empresas devem informar às instituições financeiras os saldos remanescentes, discriminados por CPF. De 9 a 14 de outubro, os bancos devem devolver os valores aos apostadores. Se houver algum obstáculo à devolução, a partir de 14 de outubro a Caixa Econômica Federal poderá receber os recursos e providenciar o pagamento.
Mas a reviravolta é mais complexa, algo típico das ciências sociais. Durante anos, o cidadão ouviu: “Aposte agora.” Agora ouvirá: “Retire seu dinheiro.” A história brasileira tem dessas coisas. Primeiro, deixamos crescer o problema; depois, regulamentamos e criamos campanhas de prevenção. E todo mundo paga a conta.
O custo social estimado pelo IEPS é de pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano, dos quais R$ 30,6 bilhões estão relacionados à saúde. São números impactantes, que incluem custos diretos e indiretos.
Só espero que não ocorra um programa tipo “Pro Bets” para evitar o colapso das bets e dos times de futebol. Este filme de lucros privados e prejuízos socializados está ficando muito repetitivo e penoso para os brasileiros.
Aplicativo não cria hábito sozinho. Aqui está um detalhe que a medida provisória não resolve. Você pode tirar o aplicativo. Não necessariamente tira o hábito. Pode bloquear o site; não bloqueia automaticamente a fantasia de recuperar dinheiro. Pode proibir a publicidade; não apaga da memória anos de normalização. Pode desligar a plataforma; não desliga imediatamente a compulsão.
A MP pode fechar a porta do cassino. Mas algumas pessoas já levaram o cassino para dentro da mente. E essa talvez seja a parte mais difícil da história. Porque não basta impedir a próxima aposta. É preciso reverter hábitos. Quem busca mudar hábitos alimentares ou de sedentarismo sabe a dificuldade que é.
O adolescente que aprendeu cedo demais que futebol também pode ser carteira de investimento ou banca de aposta vai resistir a mudar. A pessoa que passou a madrugada perseguindo a reversão de uma perda e que está endividada não vai aceitar que o jogo terminou. E o time do coração? Ele precisa do patrocínio da bet? Ainda tem o sujeito que perdeu o salário tentando recuperar o salário. O pai ou a mãe que não sabe onde foi parar o dinheiro da família.
E há um dado que deveria nos fazer prestar atenção também aos mais jovens. Segundo o Ministério da Saúde, pesquisa realizada em escolas públicas e privadas mostrou que 20,4% dos estudantes acima de 11 anos já haviam apostado on-line. Entre os meninos do terceiro ano do ensino médio, a proporção chega a 49,7%.
A água pode parar de esquentar. A queimadura, a dor e a inflamação permanecem.
Voltemos ao sapo. Ele está na panela. A água esquentou. Alguém pergunta:
— Você não percebeu?
Ele responde:
— Percebi.
— Então, por que ficou?
O sapo olha para a água. Olha para o celular. Olha para a panela. E diz:
— Porque até ontem estava dando lucro ou, pelo menos, havia a esperança de dar.
Talvez esse seja o nosso problema.
Não somos incapazes de perceber a temperatura. Somos excelentes em negociar com ela. “Só mais uma.” “Só mais dez reais.” “Só até recuperar.” “Só até o próximo jogo.” O problema é que o “só” é uma palavra perigosíssima.
Vícios costumam começar pequenos. Uma aposta. Uma dívida. Uma madrugada. Uma mentira. Uma segunda aposta. Um empréstimo. Outra mentira. E, quando percebemos, a brincadeira já tem nome de doença, como que uma overdose.
O país apostou errado. Talvez essa seja a dura realidade das bets. Não é a história de pessoas burras. É a história de uma sociedade que demorou a perceber a velocidade com que uma tecnologia, um mercado, uma cultura esportiva e mecanismos psicológicos de recompensa poderiam se juntar em meio a uma ganância adormecida no fermento.
Apostamos que o indivíduo saberia se controlar. Apostamos que a publicidade não faria diferença. Apostamos que dez reais continuariam sendo apenas dez reais. Apostamos que o problema seria sempre do outro. Apostamos, sobretudo, que estava tudo bem. Até que a água ficou quente e ferveu.
Agora o governo desligou o fogo. A MP nº 1.394 é uma mudança importante de política pública, mas há duas coisas que nenhuma medida provisória consegue revogar: 1) o que já aconteceu — o dinheiro perdido, o sono perdido, a confiança perdida e o tempo perdido —; e 2) as sequelas, aquilo que marcou as pessoas, a sociedade e a estrutura pública.
E talvez seja justamente aí que a metáfora do sapo encontre seu ponto final.
O problema não é apenas tirar o sapo da panela. É perguntar por que esperamos a água ferver. Por que precisamos ver a queimadura para reconhecer o calor e agir. É refletir e perguntar: e agora?
Há uma reflexão mais ampla a fazer sobre nossa relação recente com a prevenção. Em diferentes momentos, preferimos discutir o problema depois que ele se tornou grande, visível e caro. Sem prevenção, resta remediar e tratar a doença, o que costuma ser mais dolorido e mais caro. A MP pode ser vista mais como um remédio emergencial do que como o tratamento completo, ainda que ambos sejam importantes.
Durante anos, nos disseram para apostar com responsabilidade. Talvez a frase devesse ser outra: não transforme a esperança em produto. Porque esperança é uma coisa boa até alguém descobrir como cobrar por ela. E, quando isso acontece, a panela deixa de ser uma panela, vira mercado, vira aplicativo, vira entretenimento, vira hábito que produz dívida e sofrimento coletivo.
Finalmente, a dependência vira assunto de Estado. O sapo, coitado, só queria ficar na água. Nós é que, talvez por ganância, erramos na aposta.
Como parece que aprendemos pouco com a COVID-19, que as bets nos proporcionem mais e melhores aprendizados, ainda mais em tempos de IA, antes que o universo perca a paciência conosco.
Confesso que ando preocupado.
A propósito, sugiro a leitura da crônica “Querido pastor”, de Gregorio Duvivier, publicada em junho de 2015. O texto circulou originalmente na Folha de S.Paulo e posteriormente foi incluído em coletâneas do autor.