Por que não fugimos da gaiola?

Pessoa usa celular
A tela ilumina o teto. A inveja, antes inconfessável, agora é combustível da economia digital. Ela faz desejar o que não precisa, ser quem não é, para impressionar quem nunca o verá. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O despertador toca às seis. O homem que dorme naquele quarto abre os olhos antes de lembrar o próprio nome. O corpo acorda primeiro. A mão, antes mesmo do pensamento, avança para a mesa de cabeceira e procura o celular. É um gesto automático, repetido todas as manhãs. Ele não pensa; a mão sabe. O vidro frio toca os dedos. A tela acende e ilumina o rosto. O quarto continua escuro, mas a claridade azulada mostra a roupa jogada na cadeira, o copo d’água pela metade, o livro que ele não abre há semanas. Há poeira sobre a capa.

Ele não desbloqueia o telefone. O telefone é que o desperta. Sem notificação, sem mensagem, sem o número vermelho no canto da tela, ele hesita. Terá morrido durante a noite? A ideia parece absurda, mas não é. A angústia de não ser notado é maior que o gosto amargo da boca. Ele precisa saber que alguém, em algum lugar, lembrou que ele existe. Qualquer vibração serve. Qualquer som. Ele fica alguns minutos olhando a tela vazia. O sol ainda não nasceu. O quarto cheira a roupa suja e a café velho.

Ele se levanta e vai ao banheiro. O chão frio nos pés. No espelho, vê um rosto cansado, a barba por fazer, os olhos vermelhos. Não vê uma pessoa; vê um projeto que precisa ser corrigido. Pensa em José Saramago e em Ensaio sobre a cegueira, o romance em que a cegueira se torna também uma metáfora daquilo que os homens deixam de ver. “Se podes olhar, vê, se podes ver, repara”, escreveu Saramago. Ele olha para si e não repara. O espelho devolve a superfície, não o que está embaixo. Ele escova os dentes sem vontade. A pasta espuma e cai no lavatório. Ele enxágua a boca e olha de novo para o espelho. O rosto continua o mesmo. Sobe na balança. O ponteiro não mede apenas quilos; mede moralidade. Se engordou, é um fracasso. Se emagreceu, é um eleito. Abre o armário e toma um comprimido para a pressão, outro para a ansiedade, mais um para começar o dia. A vida deixou de ser mistério e virou falha biológica a ser corrigida com química e disciplina. Ele se medica para suportar a obrigação de ser produtivo, mesmo quando o corpo só pede cama e choro.

O silêncio de Deus, se existe, deve achar graça na pressa humana de consertar tudo.

No café da manhã, a torrada está no prato, o café fumega. A cozinha é pequena, com uma janela que dá para o poço de ventilação. O vizinho de cima liga o chuveiro. A água corre pelos canos. Antes da primeira mordida, ele pega o celular e fotografa. Clique. Publica: “Bom dia, mundo!”. Como se o mundo estivesse esperando. Como se houvesse alguém do outro lado interessado naquela torrada. Ele morde sem sentir o gosto. O café esfria enquanto o dedo desliza pela tela. Ninguém aprecia. Ninguém comenta. Ele atualiza a página. Nada. O café já está frio. Ele bebe mesmo assim. A intimidade virou vitrine. A felicidade não compartilhada parece não existir. A árvore que cai na floresta sem ninguém para ouvir não conta. A solidão de estar conectado é barulhenta: é feita do eco das próprias máscaras.

Ele sai. O elevador demora. Ele aperta o botão duas vezes, como se isso acelerasse algo. No corredor, encontra o vizinho que não cumprimenta. O carro apita porque o cinto não foi posto. O relógio vibra porque ele parou por tempo demais. O GPS reclama ao menor desvio. O carro, o relógio e o GPS sabem o que ele deve fazer. Ele, nem sempre. O corpo obedece antes de pensar. Mesmo assim, ele se chama de usuário. Usuário de quê? De quem? Ele obedece. Sempre obedece. Mas quem usa quem? O adestrado é ele. Obedece a apitos, luzes e alertas com uma docilidade que um cão de circo pareceria um rebelde anarquista. Um poder invisível o conhece melhor que sua mãe e lhe vende exatamente o que o mantém dócil. A liberdade virou artigo de luxo, e ele não pode pagar.

A noite chega. Era o momento do silêncio, mas o silêncio é insuportável. Ele não quer ouvir os próprios pensamentos. Então busca a luz hipnótica do celular. É a única que suporta. Ele segura o celular como uma criança segura a chupeta. O silêncio da casa é o inimigo. A noite avança sem que ele perceba. O relógio marca duas da manhã. Ele ainda está acordado.

Deitado no escuro, desliza o dedo pelo feed. Na tela, tudo é perfeito: vidas, corpos, opiniões. Ele se compara, se diminui, se pune. A comparação é inevitável. A dor também. Ele continua rolando. Não consegue parar. O polegar se move sozinho, para cima, para baixo. A tela ilumina o teto. A inveja, antes inconfessável, agora é combustível da economia digital. Ela faz desejar o que não precisa, ser quem não é, para impressionar quem nunca o verá. Ele rola a tela como quem procura algo perdido. A próxima imagem, o próximo vídeo, o próximo post. Sempre o próximo. O vazio é preenchido por uma rolagem sem fim. A pergunta volta: se não há governo, nem polícia, nem juiz neste quarto e a porta está escancarada, por que ele não foge? Talvez porque a liberdade exija uma coragem que ele desaprendeu: a de ser anônimo, imperfeito, uma respiração no escuro sem nome nem likes. A porta continua aberta. Ele não se levanta. O medo é o carcereiro.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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