Não faz 24 horas da saída do país do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas as discussões internas sobre quem vai falar em nome do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) já dividem o PL, de acordo com interlocutores da legenda.
Então candidato à Presidência, Flávio deixou o país nesta terça-feira (27) e era visto como herdeiro natural do capital político da família. Com o pai preso e a comunicação restrita, a sucessão no comando do clã segue indefinida.
Para fontes ouvidas pela reportagem, o vácuo racha ainda mais a sigla. Uma ala mais pragmática, comandada pelo presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, enxerga a chance de projetar novas lideranças, enquanto o grupo mais fiel à família teme ficar sem referência.
Com a saída de Flávio, dois filhos do ex-presidente passam a viver fora do país. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde o início de 2025.
Os nomes da família
Em julho, em carta escrita à mão, Bolsonaro havia chamado Flávio de seu “porta-voz” e o apontado como o escolhido para representá-lo politicamente. Sem o primogênito no Brasil, os demais integrantes do clã não reúnem o mesmo consenso.
Na avaliação de dirigentes da sigla, a ex-primeira-dama e senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF) é um dos ativos mais valiosos do partido. O alcance dela vai além do eleitorado feminino e chega com força ao público cristão.
A confiança, porém, tem limites. Michelle deixou em junho a presidência do PL Mulher após atritos com Flávio. A desconfiança que os enteados alimentam em relação a ela impede que seja aceita sem ressalvas como porta-voz do marido.
O senador eleito Carlos Bolsonaro (PL-SC) também enfrenta resistência. Vereador do Rio de Janeiro por 24 anos, ele transferiu o domicílio eleitoral para Santa Catarina para disputar o Senado.
Para correligionários ouvidos sob reserva, o filho “02” não inspira confiança para assumir o papel de representante do pai, muito em função das confusões nas redes sociais.
Já Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), vereador em Balneário Camboriú (SC) e deputado federal eleito, tem participação discreta nas articulações da legenda e é tratado como “eterno caçula”.
Ala pragmática
Para os quadros de perfil mais pragmático, a ausência de um herdeiro claro pode trazer vantagens. Na leitura desse grupo, o momento abre espaço para consolidar lideranças de fora do clã, com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) à frente da fila.
A relação com os Bolsonaro, no entanto, tem arestas. Nikolas acumulou nos últimos meses entreveros com integrantes do núcleo familiar e aliados, enquanto Flávio tentava mantê-lo por perto sem perder o protagonismo. Há ainda um movimento de aproximação desse grupo com a ex-primeira-dama.
A estratégia dos pragmáticos inclui ainda atrair nomes de outras legendas, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno. A intenção, conforme aliados, é dar à bancada uma atuação mais orientada a resultados no Congresso Nacional.
Ala ideológica
Já os parlamentares mais ligados à família observam o cenário com apreensão. O temor, segundo relatos colhidos pela reportagem, é que projetos pessoais de figuras externas ganhem fôlego e esvaziem o grupo.
Sem acesso direto ao ex-presidente, esses aliados também não sabem a quem recorrer. Há respeito por Michelle, mas as reservas dos enteados impedem que ela funcione como canal único com Bolsonaro. O receio é a perda de espaço e voz com os dirigentes da sigla.