O PL abriu uma disputa interna sobre o papel do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na derrota do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Lideranças mineiras cobram a ausência do deputado no estado na reta final. Aliados, porém, lembram que a agenda nacional dele foi definida pela própria campanha.
Desde o início do 2º turno, o PL escalou Nikolas para viagens a regiões onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu no primeiro turno, sobretudo no Nordeste.
A coordenação era do senador Rogério Marinho (PL-RN). A avaliação no partido era de que a força de Nikolas ia além de Minas.
Ele se reelegeu como o deputado mais votado da história do país, com 3.119.318 votos. Mas, no estado, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não conseguiu manter a vitória do primeiro turno.
No estado, Lula teve 50,43% dos votos válidos, contra 49,57% do senador, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Três semanas antes, Flávio tinha vencido com 48,24%, e Lula ficou com 43,33%. Minas foi o único estado do país que trocou de vencedor.
Entre um turno e outro, Lula ganhou 1,1 milhão de votos no eleitorado mineiro, e Flávio 464 mil, menos da metade. Ele perdeu em Minas pela diferença de 109.313 votos.
Estratégia nacional
O plano previa atos de Nikolas em paralelo e, muitas vezes, ao mesmo tempo que os do senador fluminense. “Era dividir pra conquistar”, resumiu uma fonte.
Na última semana, a campanha escalou o deputado para comandar atos pelo Nordeste e Minas ficou para o último dia, com uma motociata ao lado de Flávio em Belo Horizonte.
Projeto pessoal
Entre lideranças do PL mineiro, a interpretação é outra. Para esse grupo, Nikolas estava mais preocupado com um projeto próprio do que com a vitória do senador.
Uma das críticas é que, ao viajar pelo Brasil para mobilizar atos em regiões estratégicas, o deputado ficou fora da maior parte das agendas no estado.
O incômodo também passa pela divisão do mapa mineiro entre aliados eleitos para a primeira “bancada nikolista” da Assembleia Legislativa (ALMG).
Cada coordenador ficava responsável por uma região e autorizava a participação de outros parlamentares nas cidades, modelo que acabou por gerar ciúmes.
Na avaliação desse grupo, os aliados trabalhavam tanto por Flávio quanto pelo futuro político de Nikolas.
Um dos exemplos citados é que a maioria das canções entoadas nas manifestações exaltava o mineiro, e não o candidato à Presidência.
Família Bolsonaro e o receio
Nacionalmente, aliados do mineiro dizem que há uma ala da família Bolsonaro que sempre se incomodou com o crescimento de Nikolas e, agora, teriam a “desculpa perfeita”.
“O receio é que o deputado se torne maior que o próprio clã”, resume. Os atritos ficaram públicos ainda na pré-campanha.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, por exemplo, acusou Nikolas de colocar o irmão em uma “espiral do silêncio” e de apenas simular apoio à candidatura.
Depois, o vereador Jair Renan (PL-SC), outro filho do ex-presidente, insinuou que o deputado tinha trocado apoio político por emendas.
O próprio Flávio precisou entrar em campo para apaziguar os ânimos. Nesse grupo, não pouparam críticas ao vídeo do deputado sobre o Nordeste.
Vídeo sobre o Nordeste
Publicada na terça-feira (20), a peça “O Nordeste que foi esquecido” reuniu depoimentos de moradores de um assentamento na Bahia.
Nikolas tinha anunciado o material como o vídeo mais importante da campanha e da vida dele. A repercussão na região, contudo, foi negativa.
Além das críticas sobre estereótipos dos nordestinos, imagens dos bastidores expuseram a direção de cena por trás dos depoimentos.