Banco de Vorcaro vendeu ao BRB consignados de servidores do governo de MG, da PM e de Uberaba

Contratos somaram R$ 12,4 milhões numa única venda; PF indiciou 15 pessoas e aponta R$ 12,2 bilhões em créditos sem comprovação
Daniel Vorcaro está preso preventivamente desde março. Foto: Divulgação

O Banco Master, de Daniel Vorcaro, vendeu ao Banco de Brasília (BRB), em 2024, contratos de empréstimo consignado de servidores do governo de Minas Gerais, da Polícia Militar (PMMG) e da Prefeitura de Uberaba, no Triângulo. Os contratos aparecem em planilhas internas do Master anexadas pela Polícia Federal (PF) ao relatório em que a corporação indiciou Vorcaro e outras 14 pessoas nesta quarta-feira (28). O Fator teve acesso ao relatório.

Em uma venda de agosto de 2024, o BRB pagou R$ 12,4 milhões por contratos ligados a Minas. Em janeiro de 2025, uma carteira de R$ 3 bilhões preparada pelo Master para repasse ao BRB incluía R$ 178,3 milhões em empréstimos de convênios de Minas e de Uberaba. Nesse período, segundo a PF, o banco de Vorcaro negociava com o banco público créditos sem prova de que existiam.

Segundo a PF, o Master vendeu R$ 17,5 bilhões em créditos ao BRB entre julho de 2024 e outubro de 2025. Ao menos R$ 12,2 bilhões não tinham comprovação de existência. A polícia aponta Vorcaro como líder da organização criminosa e o indiciou por gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro, entre outros crimes.

O consignado é o empréstimo com parcelas descontadas direto do salário. Quando um banco vende esses contratos, o servidor continua pagando pela folha, mas a dívida passa a pertencer ao comprador. No caso do BRB, o Master ficou encarregado de receber as parcelas e repassá-las ao banco público.

Segundo a PF, R$ 2,17 bilhões pagos pelos clientes não haviam chegado ao BRB até fevereiro deste ano. O relatório não informa quantos servidores mineiros têm contratos nas carteiras nem afirma que os créditos ligados a Minas sejam falsos.

A PF diz, porém, que as bases de clientes usadas pelo Master a partir de dezembro de 2024 reuniam CPFs “de diferentes regiões do país” e “volumes incompatíveis com uma originação regular”.

O que mostram as planilhas

A primeira tabela foi enviada em 9 de agosto de 2024 a um grupo de WhatsApp da equipe que montava as carteiras de crédito no Master. O grupo era coordenado pelo gerente Allan da Silva Machado, um dos indiciados. A mensagem dizia: “Segue o valor da cessão do Brb aberto por convênio”.

Cessão é a venda dos contratos a outro banco. A tabela divide a venda daquele dia por convênio, isto é, pelo órgão que desconta as parcelas na folha. Os contratos tinham valor presente de R$ 107,4 milhões e foram vendidos ao BRB por R$ 162,9 milhões. Quatro linhas tratam de Minas.

Convênio na planilhaValor da carteiraValor de venda ao BRB
CD Minas SeplagR$ 66,9 milR$ 99,8 mil
CD Minas PMMGR$ 1,53 milhãoR$ 2,39 milhões
MF Minas PMMGR$ 3,17 milhõesR$ 5,33 milhões
CD UberabaR$ 2,54 milhõesR$ 4,61 milhões
TotalR$ 7,31 milhõesR$ 12,43 milhões

A segunda tabela é de 10 de janeiro de 2025. Naquele dia, Allan Machado contou a um superintendente do Master que Alberto Félix de Oliveira Neto, chefe da Tesouraria e também indiciado, estava “cobrando a base”. Em seguida, mandou a foto de uma planilha com a “composição dos 3 BI de carteira”.

A planilha lista R$ 139,3 milhões em empréstimos do convênio “CD – Minas”, R$ 30,8 milhões em “MF Minas” e R$ 8,2 milhões em “CD – Uberaba”. Ao olhar os números, Allan escreveu: “Todo mundo do INSS com valor de operação de 7 mil, 6 mil”. E completou: “Estranho, mas tudo bem”.

Para a PF, a conversa mostra que o gerente sabia das “possíveis insubsistências” das bases, ou seja, da possibilidade de os créditos não existirem. Só em janeiro de 2025, a diretoria do BRB aprovou R$ 3 bilhões em compras de carteiras do Master.

De onde vinham os contratos

A PF afirma que o Master não tinha empréstimos próprios em volume suficiente para atender às compras do BRB. Para cobrir a falta, Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro e também indiciado, passou a fornecer listas de clientes. Elas eram enviadas por um gerente da Terra Firme da Bahia, empresa ligada a Augusto, e transformadas em carteiras pela equipe de Allan.

Em março de 2025, questionado pelo Banco Central, o Master disse que os créditos vinham de duas associações de servidores da Bahia, a Asteba e a Asseba. Segundo a PF, essa versão não se sustentava, porque os CPFs das listas eram de várias partes do país.

Em junho, o Master passou a atribuir a origem dos créditos à Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações. A empresa foi comprada pronta, tinha capital inicial de R$ 100 e informava como sede um escritório compartilhado em São Paulo, onde não era cliente.

No sistema interno do Master, o 1,02 milhão de contratos atribuídos à Tirreno aparece ligado a apenas três empregadores: “Gov Bahia 2”, “Gov Bahia 3” e “Convênios Diversos”. Dois deles usam um CNPJ que não existe na Receita Federal. Nenhum identifica um órgão de Minas.

Ainda assim, em maio do ano passado, o BRB cobrou do Master os convênios com os órgãos que descontam as parcelas, tanto os do Master quanto os da Tirreno, com a indicação “(INSS, SP, RJ, BA e MG)”. Alberto Félix repassou a lista a Vorcaro, que perguntou: “Conseguimos montar isso?”. Félix respondeu: “Esses aqui são mais difíceis”.

O que acontece com o servidor

As vendas ao BRB foram feitas sem coobrigação, modalidade em que o vendedor não garante o pagamento e o risco passa ao comprador. O contrato, porém, manteve o Master como responsável por cobrar os clientes e repassar o dinheiro ao BRB.

Na prática, a parcela descontada do salário do servidor seguia para o Master. A PF aponta que o banco de Vorcaro passou a depender de novas vendas ao BRB para pagar repasses atrasados, que envolviam, em tese, descontos feitos nos salários de servidores públicos.

Um grupo de trabalho criado pelo BRB em fevereiro de 2025 para conferir as carteiras encontrou reclamações de clientes que negavam ter feito os empréstimos. O banco também tentou confirmar a averbação, o registro do desconto na folha. Conseguiu em 8 de 47 contratos consultados e, depois, em 64 de 126.

No mesmo mês, um superintendente do BRB avisou o diretor financeiro do banco que as listas do Master incluíam contratos de pessoas mortas. Mesmo assim, o BRB pagou a parcela restante do limite aprovado, de cerca de R$ 59 milhões.

O Credcesta, cartão consignado citado no contrato entre os bancos, ficou com o Master até agosto de 2025, quando passou à PKL One Participações. O Master está em liquidação extrajudicial desde novembro de 2025.

Em maio deste ano, o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG), Durval Ângelo, vetou a inclusão do Master na lista de bancos autorizados a conceder consignado aos servidores do tribunal, como o O Fator noticiou.

A investigação

Segundo a PF, a diretoria do BRB aprovou as compras em 25 decisões. Em 21 delas, o valor ficou em R$ 750 milhões, o limite acima do qual o negócio teria de passar pelo Conselho de Administração.

O banco público pagou R$ 7,6 bilhões antes de concluir os pareceres técnicos exigidos. Outros R$ 7 bilhões foram aprovados e pagos depois de alertas formais à diretoria sobre a queda da liquidez do BRB, isto é, do dinheiro disponível para honrar compromissos.

Vorcaro está preso desde março. Foi indiciado por gestão fraudulenta, prestação de informação falsa ao Banco Central, fraude à fiscalização, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa. A PF aponta que seis imóveis avaliados em R$ 146,6 milhões teriam sido destinados a ele como vantagem indevida.

Também foram indiciados:

  • Angelo Antônio Ribeiro da Silva, Luiz Antonio Bull, Alberto Félix de Oliveira Neto e Allan da Silva Machado, do Master;
  • Henrique Souza e Silva Peretto, da Cartos, empresa que daria estrutura à Tirreno;
  • André Felipe de Oliveira Seixas Maia, diretor da Tirreno;
  • o advogado Daniel Lopes Monteiro;
  • Dario Oswaldo Garcia Junior, ex-diretor financeiro do BRB.

Outros quatro diretores do BRB responderão por gestão fraudulenta: Cristiane Maria Lima Bukowitz, Luana de Andrade Ribeiro, Diogo Ilário de Araújo Oliveira e José Maria Correa Dias Junior.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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