A apuração mal termina e os vencedores já sabem o que o país pensa. Uma eleição vira a consagração de um projeto político, a derrota do adversário comprova que suas ideias foram rejeitadas e, por algumas horas, parece não haver dúvida sobre o significado de cada voto. Como o eleitor não costuma anexar uma justificativa à cédula, os partidos se encarregam de escrever uma em seu nome.
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nessa terça-feira (4), oferecem um bom exemplo dos riscos dessa interpretação. Os democratas conquistaram o controle da Câmara e do Senado, avançaram sobre redutos republicanos e venceram até no Texas, onde não elegiam um senador desde 1988. Dois anos depois de devolver Donald Trump à Casa Branca, os americanos entregaram à oposição instrumentos importantes para conter seu governo.
O resultado ressuscitou a conhecida imagem do pêndulo político. A sociedade se deslocaria para a direita, depois para a esquerda, num movimento de correção quase automático. Há precedentes para a alternância. Barack Obama perdeu 63 cadeiras na Câmara em 2010, durante seu primeiro mandato. Oito anos depois, Trump viu os democratas recuperarem o controle da mesma Casa. O desgaste de quem ocupa a Presidência é um fenômeno recorrente na política americana. A confusão começa quando esse movimento passa a ser interpretado como uma mudança igualmente profunda nas convicções dos eleitores.
Um dado das pesquisas de boca de urna merece mais atenção do que boa parte das análises produzidas desde terça-feira. Segundo a CBS, aproximadamente um em cada cinco eleitores que escolheram candidatos democratas à Câmara tinha uma opinião desfavorável sobre o próprio Partido Democrata. Votaram nele apesar disso. É uma informação que deveria constranger um pouco os discursos triunfalistas. Existe uma distância considerável entre escolher alguém e gostar de quem se escolheu, embora essa distinção raramente sobreviva à primeira entrevista coletiva dos vencedores.
O cientista político americano V. O. Key Jr. dedicou boa parte de seu trabalho a compreender como os eleitores respondem à política. Em The Responsible Electorate, publicado em 1966, deixou uma frase que se tornaria célebre: “Os eleitores não são tolos”. Key contestava a ideia de um eleitorado incapaz de fazer escolhas coerentes. As pessoas podiam avaliar o desempenho de quem governava e responsabilizá-lo por aquilo que haviam experimentado. Nem sempre dispunham das melhores informações ou alternativas, mas havia racionalidade em decisões que os analistas frequentemente preferiam atribuir à volatilidade.
Trump venceu em 2024 prometendo enfrentar a inflação e recuperar o poder de compra. Dois anos depois, o custo de vida apareceu entre as principais preocupações dos eleitores. A Associated Press identificou ainda que cerca de sete em cada dez entrevistados consideravam insuficiente a fiscalização exercida pelo Congresso sobre a Presidência. O eleitor que havia escolhido Trump para governar podia perfeitamente desejar, agora, que alguém lhe impusesse limites. Não precisava se converter ao programa democrata para chegar a essa conclusão.
No Texas, a vitória de James Talarico sobre Ken Paxton acrescenta uma dimensão particularmente interessante para quem trabalha com estratégia eleitoral. Ex-professor e seminarista, Talarico fez uma campanha centrada em questões econômicas e corrupção, mas também disputou uma linguagem religiosa frequentemente associada à direita americana. Apresentou-se como cristão progressista e procurou conversar com eleitores que dificilmente seriam alcançados apenas pelo repertório tradicional do Partido Democrata.
Há uma escolha de posicionamento importante nesse movimento. Talarico não precisou adotar a identidade política dos republicanos para reconhecer referências culturais de parte daquele eleitorado. Sua própria trajetória religiosa lhe dava credibilidade para entrar numa conversa que outros candidatos democratas talvez evitassem. A campanha encontrou uma maneira de apresentar suas posições num ambiente historicamente resistente a elas.
Seria precipitado atribuir a vitória exclusivamente a essa estratégia. O desgaste republicano, as preocupações com o custo de vida e as controvérsias envolvendo Paxton também pesaram na disputa. Uma boa comunicação pode aproveitar condições favoráveis sem que isso permita medir isoladamente sua contribuição para o resultado. Ainda assim, o caso merece atenção pela maneira como Talarico procurou atravessar fronteiras políticas que pareciam sólidas. É difícil acreditar que o Texas tenha descoberto o socialismo entre o jantar de segunda-feira e o café da manhã de quarta.
O Brasil acaba de produzir seu próprio episódio para quem gosta de anunciar mudanças definitivas no comportamento do eleitorado. No primeiro turno presidencial, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Três semanas depois, Lula foi reeleito com 51,79%. Houve quem enxergasse no primeiro resultado a confirmação de uma guinada à direita. Se aceitássemos essa leitura ao pé da letra, precisaríamos explicar como o país conseguiu rever suas convicções ideológicas em apenas 21 dias. Seria um feito considerável, inclusive para os nossos padrões de instabilidade política.
As circunstâncias são diferentes. Nos Estados Unidos, os eleitores escolhiam representantes para o Congresso durante um governo em andamento. No Brasil, o segundo turno reduziu as alternativas da eleição presidencial a dois candidatos, modificando os cálculos de quem havia escolhido outros nomes. Também entraram em jogo a mobilização dos eleitores e a participação de quem não havia votado na primeira etapa. Seria inadequado tratar os dois resultados como manifestações de um único fenômeno.
Mas existe uma semelhança importante na maneira como são interpretados. Partidos e analistas frequentemente atribuem a uma escolha eleitoral um significado ideológico muito mais abrangente do que os dados permitem sustentar.
A polarização ajuda a produzir esse equívoco. Quem acompanha a política a partir de seus grupos mais engajados tende a enxergar dois grandes campos separados por convicções profundas. Esses campos existem e têm enorme influência sobre o debate público. Mas há também um eleitorado menos interessado em demonstrar fidelidade, que pode concordar com um candidato sobre segurança pública, discordar dele sobre economia e terminar votando no adversário porque considera insatisfatório o desempenho do governo. Não há grande mistério nisso. O complicado é admitir que a política nem sempre ocupa, na vida das pessoas, o lugar que ocupa na vida dos políticos.
Para quem organiza campanhas, compreender essa diferença tem consequências práticas. Uma vitória apoiada na insatisfação com o adversário exige uma leitura diferente daquela construída sobre forte identificação com o candidato. Os votos aparecem juntos na apuração, mas podem ter motivações bastante distintas. Confundi-las pode levar um partido a investir na consolidação de um apoio que ainda é circunstancial, enquanto deixa de enfrentar as razões pelas quais parte do eleitorado continua desconfiando dele.
O pêndulo é uma boa imagem para descrever a alternância do poder. Seu movimento, entretanto, não informa por que cada eleitor mudou de escolha. Os democratas conquistaram uma vitória expressiva, mas ainda precisarão demonstrar que conseguem responder às expectativas de uma coalizão que inclui pessoas pouco entusiasmadas com o próprio partido. Trump conserva um eleitorado importante, embora tenha perdido o controle do Congresso. Nenhum desses fatos exige imaginar uma sociedade que troca integralmente de convicções a cada dois anos.
As pessoas continuam avaliando o governo depois da posse. Reagem ao custo de vida, cobram promessas e podem se decepcionar sem abandonar tudo aquilo em que acreditavam. É uma dificuldade para os partidos que preferem interpretar a própria vitória como aprovação de um programa inteiro. O eleitor pode ter feito uma escolha muito mais modesta: exigir que alguém resolva um problema.
E essa talvez seja a parte mais incômoda da explicação. É sempre mais agradável acreditar que o país mudou de ideias para concordar conosco do que admitir que parte dos votos chegou porque alguém deixou de entregar o que havia prometido. A primeira interpretação rende bons discursos de vitória. A segunda exige muito trabalho no dia seguinte.