A derrota de Flávio Bolsonaro não chega a ser uma pá de cal nas ambições da família que conserva em Michelle uma liderança que chega ao Senado com expressivo apoio popular. Mas a tentativa frustrada de voltar à Presidência, somada à prisão domiciliar de Jair e à perda do mandato de Eduardo, que permanece nos Estados Unidos e agora terá a companhia do irmão, enfraquece o núcleo familiar. Flávio chegará ao fim do mandato sob investigação por suspeitas envolvendo empresas de apostas e o financiamento do filme sobre o pai.
Esse desgaste atinge o comando familiar, mas não dissolve o bolsonarismo. Permanecem na sociedade os preconceitos e os desejos de intimidação que encontraram nos Bolsonaro liderança e reconhecimento político.
Em 2016, ao votar pelo impeachment de Dilma Rousseff, Jair homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, a quem chamou de “o pavor de Dilma Rousseff”. A exaltação de um torturador, dirigida contra uma mulher que havia sido torturada, ajudou a despertar uma serpente que a redemocratização não havia eliminado, e que foi alimentada pelo racismo, pelo machismo, pela xenofobia e pelos discursos de ódio que ganharam volume após essa fala.
Essa serpente trouxe consigo herdeiros de um tempo de terror, dispostos a renovar seus métodos e a perpetuar seus ódios. Pessoas que ergueram como bandeira a mão em arma e, em alguns casos, o braço em riste como saudação nazista. Que invadiram e quebraram as sedes dos três poderes em Brasília. Que por motivação política espancaram até a morte, o engenheiro Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, em Santos. Homens que sem nenhum pudor e motivados pela raiva contra a esquerda deflagaram socos e pontapés contra mulheres na frente de quem quisesse assistir.
Essas pessoas foram encorajadas por discursos como, “vamos metralhar essa petralhada do Acre”; “o erro da ditadura foi torturar e não matar”; ou ainda pelo emblemático discurso do então deputado Jair Bolsonaro em favor da morte de inocentes numa guerra civil que, para ele, seria necessária. “Só vai mudar (…) fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil,(…) Se vai morrer [sic] alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente.”
A ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP) levou essa disposição às ruas. Na véspera do segundo turno de 2022, perseguiu o jornalista Luan Araújo com uma pistola em punho, até uma lanchonete em São Paulo. A cena resultou em sua condenação pelo STF por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal.
A humilhação também se fez presente quando Bolsonaro referiu-se ao peso de quilombolas em “arrobas”, afirmou que a deputada Maria do Rosário (PT-RS) não merecia ser estuprada chamando-a de “vagabunda”, e quando sugeriu que um filho homossexual mudaria de comportamento se apanhasse. Na pandemia, o “não sou coveiro” e a imitação de pessoas com falta de ar expuseram a mesma indiferença diante do sofrimento. Os aplausos e risos ajudaram a naturalizar a crueldade e o papel de estadista passou longe de Bolsonaro.
Flávio pouco fez para romper com esse legado. As suspeitas envolvendo o filme Dark Horse e operações com empresas de apostas, além do histórico das “rachadinhas” e das transações imobiliárias pagas em dinheiro vivo, desgastaram a promessa de renovação.
No segundo turno, o protagonismo de Nikolas Ferreira (PL-MG), Eduarda Campopiano (PL-SP), Pablo Marçal e outros radicais da extrema direita reforçou a face agressiva, violenta e preconceituosa do bolsonarismo, deixando pouco espaço para o debate de propostas. O próprio PL expôs essa face ao divulgar, em um canal oficial, uma montagem do rosto de Flávio cuja composição remetia à imagem de Benito Mussolini na fachada do Partido Nacional Fascista, em Roma.
Diante de tudo isso, a direita precisa agir rápido, antes que esse repertório consolide novos líderes. Nikolas faz dos ataques a pessoas trans uma bandeira nas redes e na Câmara. Eduarda Campopiano, eleita deputada estadual mais votada de São Paulo, associou indígenas ao canibalismo e à violência contra crianças, motivando representações ao Ministério Público que por sua vez ajuizou contra ela uma ação por transfobia. Campopiano também afirmou não acreditar que o feminicídio “seja algo que exista”, quando dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, em 2025, o Brasil registrou 1.571 mulheres vítimas desse time de crime, mais de quatro por dia.
É dessas lideranças que a direita precisa se libertar. A defesa pelo Estado mínimo, privatizações, responsabilidade fiscal e livre mercado são propostas legítimas, que permeiam o campo de ideias da direita. Sua defesa não exige preconceito ou intimidação. “Direita é direita, bolsonarismo é isso que estamos vendo”, advertiu o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), ao distinguir o seu campo político das práticas da família.
Itamar Franco, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin, com diferenças e contradições, participaram da construção de soluções para o país e ajudaram a elevar o nível dos debates eleitorais. E essa capacidade precisa ser renovada pela direita.
Por outro lado, a vitória de Lula recomenda prudência. Não se pode presumir que todos os que o escolheram no segundo turno tenham aderido ao PT ou aprovado seu governo. Boa parte desse eleitorado votou para impedir que o bolsonarismo voltasse à Presidência. Se a direita tivesse chegado ao segundo turno com uma liderança preparada e comprometida com a democracia, Lula talvez não tivesse reunido os votos que garantiram sua vitória.
Isso também exige da esquerda uma leitura cuidadosa da vitória. A rejeição ao extremismo não lhe concede aprovação irrestrita. Será preciso governar melhor, enfrentar os próprios erros e formar lideranças capazes de apresentar um futuro para além de Lula e do PT.
À direita, cabe compreender que a derrota de Flávio abriu uma oportunidade de reconstrução e eliminação de uma parcela reacionária e que não é a cara da direita. Do contrário, enquanto depender de quem transforma preconceito e violência em identidade política, continuará alimentando o movimento do qual precisa se libertar. Os Bolsonaro sofreram um revés, mas a intolerância que legitimaram permanece. Impedir que ela encontre outro líder exige oferecer aos eleitores de direita uma alternativa que mereça confiança sem lhes pedir ódio em troca.