Antes de dirigir a Rádio MEC, Maristela Rangel já tivera seu nome anunciado pelo rádio. Em Niterói, seu pai, barbeiro, acompanhava com orgulho as convocações da filha caçula para a seleção fluminense de handebol. Muitos anos depois, o nome Maristela seria ouvido novamente, dessa vez na voz de Chico Buarque, em Barafunda: “Foi Glorinha/ Não, era Maristela”. Não sei se Chico se referia à amiga que conhecera por intermédio de sua irmã, Ana de Hollanda. Gosto, entretanto, da coincidência. A menina cujo nome o pai esperava ouvir pelo rádio dedicaria grande parte da vida à música e aos artistas brasileiros.
No próximo dia 23 de novembro, está prevista, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, uma homenagem a Maristela Rangel Paes, por iniciativa do deputado Professor Cleiton, com apoio de parlamentares de diferentes partidos. A indicação ao título de Cidadã Honorária reconhece sua contribuição à cultura mineira desde 2020. Ao pensar nessa homenagem, procurei recuperar a história da mulher que conheci na Funarte e que se tornaria uma das minhas mais queridas amigas.
Maristela nasceu em Barra de São João, terra de Casimiro de Abreu, e mudou-se aos cinco anos para Niterói. Caçula de quatro filhos, cresceu numa família em que o trabalho organizava a vida. O pai era barbeiro; a mãe, costureira. Desses ofícios, que exigem habilidade manual, atenção às pessoas e paciência, herdou valores que a acompanhariam muito além da infância. Foi a única dos quatro irmãos a concluir um curso universitário.
O handebol lhe abriu as primeiras oportunidades. Jogou na seleção fluminense, apareceu nas páginas do Jornal dos Sports e recebeu bolsas de estudo de escolas particulares interessadas em seu talento. Aos dezoito anos, conciliava trabalho, estudo e esporte. Pensou em Educação Física, considerou Biologia, mas escolheu Turismo. Quando lhe perguntei sobre os sonhos da juventude, respondeu que não cultivava grandes ambições. “Meu sonho mesmo era ser feliz e vencedora.”
Talvez tenha encontrado nas quadras algo que levaria para a vida inteira. O handebol exige rapidez, resistência, disciplina e, sobretudo, confiança nos companheiros. Ninguém atravessa sozinho a quadra adversária. É preciso observar, passar a bola e reconhecer o momento de cada um. Maristela conservou essa disposição para o trabalho coletivo, embora tenha personalidade suficientemente forte para, de vez em quando, querer decidir a partida.
Conheci uma mulher de inteligência rápida, opiniões firmes e uma capacidade admirável de resolver problemas. Maristela é teimosa, e não faria sentido escondê-lo numa biografia escrita por um amigo. Argumenta, discorda, insiste. Tem também uma qualidade que considero cada vez mais rara: sabe reconhecer a razão de quem pensa diferente dela. Talvez por isso tenha conseguido atravessar governos e instituições sem perder o respeito de pessoas com posições tão distintas.
Sua trajetória profissional começou na televisão educativa e no rádio. Na Fundação Roquette-Pinto, percorreu funções administrativas e de direção e participou, em 1997, da criação da Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto, a ACERP. Conviveu com profissionais que ajudaram a construir a história da radiodifusão brasileira, entre eles Fernando Barbosa Lima, Arthur da Távola e Adelzon Alves.
Foi na Rádio MEC, herdeira da tradição de Edgard Roquette-Pinto, que realizou um dos trabalhos de que mais gosto. Em 1999, percebeu que a emissora dispunha de um excelente estúdio de gravação, pouco utilizado, enquanto muitos músicos brasileiros enfrentavam dificuldades para registrar suas obras. Aproximou essas duas necessidades e criou o Selo Rádio MEC. Hermeto Pascoal, Nelson Sargento, Wilson Moreira, Carlos Malta e Diana Pequeno estiveram entre os artistas associados aos primeiros projetos. A iniciativa ganharia posteriormente o apoio da Petrobras.
Em entrevista à Reuters, publicada em 2003, explicou sua motivação: “Senti necessidade de profissionalizar o processo para que os músicos fossem remunerados”. A frase diz muito sobre Maristela. O estúdio existia, os artistas precisavam gravar, e ela encontrou uma maneira de fazer as coisas acontecerem. A cultura, afinal, depende também daqueles que sabem transformar boas ideias em condições reais de trabalho.
Sua saída da Rádio MEC, durante uma mudança de governo, foi dolorosa. Estava em Barra de São João quando recebeu um telefonema de Ana de Hollanda. As duas haviam se conhecido algum tempo antes, quando Ana, então ligada à área de música da Funarte, procurara a emissora para atender a uma necessidade de gravação do ministro Gilberto Gil. Maristela disponibilizara o estúdio. Ana não esqueceu o gesto e, mais tarde, convidou-a para trabalhar na Fundação Nacional de Artes.
Aquela aproximação transformou-se numa amizade duradoura. Maristela ingressou por concurso público no quadro da Funarte, onde trabalhou com programas culturais, publicações, acervos e projetos de circulação artística. Conviveu com Sérgio Mamberti, acompanhou iniciativas ligadas à obra de Augusto Boal e participou de ações voltadas à valorização da produção cultural brasileira.
Quando Ana de Hollanda assumiu o Ministério da Cultura, em janeiro de 2011, levou Maristela para a chefia de gabinete. Ela permaneceria na função durante a gestão de Marta Suplicy, trabalhando com as duas primeiras mulheres a ocupar o Ministério. Daquele período, guarda especialmente as viagens a comunidades indígenas, a convivência com artistas e os aprendizados sobre a diversidade cultural brasileira. Mais tarde, foi diretora executiva e presidente interina da Fundação Biblioteca Nacional. De volta à Funarte, participou de iniciativas como Territórios da Arte, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal Fluminense.
Foi nessa instituição que nossos caminhos se encontraram, em 2019.
Eu havia chegado para assumir a Diretoria Executiva e pouco conhecia dos procedimentos internos da Fundação. Maristela me recebeu com uma generosidade que não esqueci. Conhecia os servidores, os projetos, os arquivos, os caminhos possíveis e os obstáculos administrativos. À frente do Centro de Programas Integrados, tornou-se também minha substituta eventual na Diretoria Executiva.
Trabalhamos para aproximar a Funarte das universidades e ampliar sua presença fora dos grandes centros. O Prêmio Descentrarte contemplou 120 projetos artísticos em cidades brasileiras de médio porte. Com a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o professor Marcelo Jardim, estruturamos o Bossa Criativa – Arte de Toda Gente, voltado à formação e à circulação de atividades artísticas em cidades de patrimônio cultural e natural.
Em janeiro de 2020, Maristela esteve em Ouro Preto para apresentar o projeto. Já conhecia Minas por outras viagens, mas ainda não imaginava que o estado se tornaria parte tão importante de sua vida.
Quando encerramos aquele ciclo na Funarte, fomos jantar num restaurante italiano no Leme, no Rio de Janeiro. Conversamos sobre o trabalho realizado, as dificuldades enfrentadas e a incerteza do futuro. Guardo daquela noite uma frase que, desde então, passou a fazer parte de nossa amizade. Voltarei a ela.
Poucos meses depois, a pandemia interrompeu a vida cultural brasileira. Os teatros fecharam, os espetáculos foram suspensos, as festas desapareceram do calendário. Artistas, técnicos, produtores e trabalhadores do turismo ficaram sem renda. Maristela acabara de se aposentar pela Funarte e imaginava permanecer em Niterói, perto dos filhos e dos amigos.
Eu estava à frente da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Conhecia sua experiência e, sobretudo, confiava em sua maneira de trabalhar. Convidei-a para assumir a chefia de gabinete. Era uma decisão difícil. Depois de tantos anos de serviço público, tinha finalmente a oportunidade de descansar e viver mais perto da família. Os filhos a incentivaram a aceitar.
Maristela encontrou em Guimarães Rosa uma resposta para aquela inquietação. Em Grande sertão: veredas, Riobaldo reconhece que a vida nos leva do sossego ao aperto e nos obriga a recomeçar. “O que ela quer da gente é coragem.”
Ela veio.
Durante a pandemia, moramos juntos em Casa Branca. Dividíamos a casa, as refeições, as preocupações e uma rotina de trabalho que parecia não terminar. Havia notícias difíceis todos os dias, famílias sem renda e uma necessidade permanente de encontrar soluções. Conheci ali uma Maristela que os documentos administrativos jamais seriam capazes de revelar. Discutíamos, discordávamos, ríamos das nossas próprias impaciências. A convivência nos ensinou a respeitar nossos temperamentos e tornou nossa amizade muito mais íntima.
O primeiro projeto que realizamos juntos em Minas foi o Arte Salva, lançado em 1º de junho de 2020. Foi também a primeira iniciativa de minha gestão na Secretaria. Precisávamos ajudar aqueles que haviam perdido suas condições de sobrevivência. Reunimos mais de sessenta parceiros, mobilizamos a distribuição de centenas de toneladas de alimentos e alcançamos aproximadamente 332 mil pessoas. O movimento também abriu caminho para ações emergenciais de financiamento cultural, num período em que muitos profissionais não sabiam quando poderiam voltar a trabalhar.
Elza Soares foi a madrinha do Arte Salva. Aos 90 anos, gravou mensagens de apoio e participou da mobilização solidária realizada com o Sesc em Minas, transmitida pela internet e pela Rede Minas. Sua voz, marcada por uma vida inteira de enfrentamentos, ajudava a chamar atenção para a situação dos trabalhadores da cultura. Guardo com emoção aquela participação. Elza morreria em janeiro de 2022.
Maristela esteve no centro desse esforço, articulando instituições, ouvindo as equipes e buscando soluções para necessidades que mudavam de um dia para o outro. A implementação da Lei Aldir Blanc exigiria depois outro trabalho intenso com os municípios e a sociedade civil. Foram anos em que a administração pública deixou de ser uma abstração. As decisões tinham consequências imediatas sobre a vida das pessoas.
Nossa convivência prosseguiu pelas estradas de Minas. Visitamos cidades, igrejas, mercados, comunidades e festas. Eu lhe apresentava lugares conhecidos desde a infância ou descobertos ao longo de minha formação em arquitetura, história e teoria da arte. Maristela observava tudo com curiosidade. Perguntava sobre as pessoas, as famílias, os ofícios, os costumes e as maneiras de preparar os alimentos. Muitas vezes, seu olhar de recém-chegada me fazia perceber aspectos de Minas aos quais eu já não prestava tanta atenção.
Também atravessamos situações que nenhuma agenda de trabalho poderia prever.
Em 2024, sofremos juntos um acidente de carro. Maristela estava no banco de trás; eu, no da frente. O veículo teve perda total. Ela se preocupou comigo, e eu, assim que conseguimos sair, corri para abraçá-la e saber se estava bem. O acidente lhe deixou doze pinos no braço.
Hoje, quando recorda aquele dia, brinca que já possuía tantos “puricalhos” que ganhou mais doze. Consegue rir até da minha impaciência no meio da confusão. Eu guardo sobretudo o abraço. Há momentos em que percebemos, sem necessidade de maiores explicações, o quanto uma pessoa se tornou importante em nossa vida.
É bom estar perto de Maristela. Gosto de seu humor, de sua alegria, da maneira como recebe os amigos e de sua liberdade de pensamento. Ela não procura parecer diferente do que é. Pode ser exigente, impaciente, afetuosa, divertida. Conheceu ministros, artistas e intelectuais, mas jamais permitiu que a solenidade dos cargos lhe roubasse a espontaneidade. Tem prazer numa boa conversa, numa mesa cheia, numa cerveja gelada e, desde que chegou a Minas, numa boa cachaça.
Costuma dizer, com aquela mistura de brincadeira e convicção que lhe é própria, que “a vida é dura só pra quem é mole”. Sua história ajuda a compreender a frase.
Maristela criou sozinha dois filhos, conciliando as responsabilidades da maternidade com uma vida profissional intensa. Hoje fala com orgulho de suas trajetórias: um veterinário e uma professora de Educação Física, mestre e servidora da Marinha. A menina que conquistara bolsas de estudo pelo handebol tornou-se uma mãe empenhada em oferecer aos filhos oportunidades e liberdade para construírem seus próprios caminhos.
Penso nela quando escuto Maria Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Em 1976, o Grupo Corpo estreava em Belo Horizonte seu primeiro espetáculo, com música de Milton, roteiro de Fernando Brant e coreografia de Oscar Araiz. A obra acompanhava a vida de uma mulher que precisava enfrentar dificuldades para criar os filhos. A canção, lançada dois anos depois no álbum Clube da Esquina 2, guarda uma das expressões mais conhecidas da força feminina na música brasileira: “é preciso ter força”.
Reconheço algo daquela Maria na trajetória de Maristela. Não apenas pela coragem com que criou os filhos, mas pela disposição de continuar vivendo, trabalhando, fazendo amigos e descobrindo novos interesses. Há nela uma feminilidade alegre, afirmativa, que não se deixou reduzir às obrigações que a vida lhe impôs.
Outra canção de Milton, composta com Chico Buarque, também me acompanha quando penso nessa história. Em O Cio da Terra, o gesto de “afagar a terra” aproxima o trabalho de uma forma de cuidado. Maristela é filha de uma costureira e de um barbeiro. Cresceu entre pessoas que trabalhavam com as próprias mãos, atendiam outras pessoas e conheciam o valor de um ofício bem realizado. É possível reconhecer essa formação na maneira como ela compreende a administração cultural.
Depois da pandemia, assumiu novas responsabilidades em Minas. Como subsecretária de Estado de Cultura, participou da ampliação das políticas de financiamento e descentralização, da implementação das leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo e dos novos ciclos da Política Nacional Aldir Blanc. Em 2026, acompanhou dezesseis editais do Fundo Estadual de Cultura, com recursos de R$ 31,9 milhões.
Na presidência do Conselho Estadual de Política Cultural, enfrentou debates exigentes, especialmente aqueles relacionados à distribuição dos recursos e à participação dos diferentes segmentos da sociedade civil. Em outubro de 2026, o Conselho aprovou por unanimidade a destinação de R$ 8 milhões para um edital voltado a 55 municípios do Vale do Jequitinhonha. Era uma resposta a reivindicações históricas de uma região cuja produção cultural conhecemos e admiramos.
Mas foi uma mensagem de voz, recebida recentemente, que me ajudou a compreender o que Maristela considera uma verdadeira realização.
Ela me encaminhou um áudio de Pedro Camargo, agradecendo sua ajuda num projeto relacionado às ruínas da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, a Igreja de Pedra, em Barra do Guaicuí, no município de Várzea da Palma. O monumento, próximo ao encontro dos rios das Velhas e São Francisco, pertence a uma das paisagens históricas mais singulares de Minas Gerais.
Pedro havia ajustado o projeto às exigências do Ministério Público e conseguido sua aprovação no Fundo Estadual de Cultura. Na mensagem, chamava Maristela de irmã. Falava com gratidão, emocionado, e terminava dizendo: “Obrigado por você existir”.
Ela conserva aquele áudio e ainda se emociona quando o escuta. Ao me encaminhá-lo, perguntou:
“Tem recompensa maior do que essa para um gestor público?”
Entre tantos documentos, programas, cerimônias e reuniões, era aquele agradecimento que Maristela escolhera guardar.
Talvez seja por isso que sua presença em Minas me pareça tão natural. Há nela características que reconheço desde a infância entre pessoas de minha terra: a importância da palavra empenhada, a lealdade aos amigos, a discrição diante dos próprios méritos e o respeito ao trabalho dos outros. Maristela costuma brincar que, se pudesse mudar alguma coisa em sua história, teria nascido mineira. Conhecendo seu amor por Niterói e pelo Rio de Janeiro, sei que essa declaração tem uma boa dose de humor. Mas há nela também uma forma muito sincera de pertencimento.
Minas não lhe pediu que renunciasse à sua origem. Ofereceu-lhe outras amizades, outras paisagens e a possibilidade de continuar uma história que ela imaginava encerrada com a aposentadoria. Seu amor pelo estado foi construído nas viagens, nas conversas, nas festas populares, nas comunidades e, principalmente, nas pessoas com quem trabalhou.
Na última reunião de seu mandato à frente do Conselho Estadual de Política Cultural, em outubro, assisti a uma cena que dificilmente esquecerei. Ao final dos trabalhos, os conselheiros se levantaram para aplaudi-la. Muitos haviam discordado dela, participado de discussões difíceis e defendido posições distintas sobre os rumos das políticas culturais. Ainda assim, todos reconheceram seu trabalho.
Mais tarde, perguntei o que sentira. Maristela contou que havia chorado muito. Disse apenas: “Missão cumprida”.
Durante dois anos, procurara ouvir as reivindicações de uma sociedade civil participativa e crítica. Os aplausos significavam que aquela disposição para escutar, mesmo diante das divergências, havia sido reconhecida. Para ela, isso tinha um valor especial.
Enquanto observava a cena, lembrei-me da menina de Niterói e do pai barbeiro que esperava ouvir pelo rádio a convocação da filha para a seleção de handebol. Tantos anos depois, ninguém precisou anunciar seu nome. O reconhecimento estava na maneira como uma sala inteira se levantou para homenageá-la.
Pensei também na noite em que jantamos no Leme, depois de encerrarmos nosso trabalho na Funarte. Não sabíamos que Minas nos reuniria novamente nem que atravessaríamos uma pandemia, tantas estradas, dificuldades e alegrias. Naquele restaurante italiano, ao conversarmos sobre o que havíamos realizado, eu lhe disse uma frase que se tornaria nossa.
Desde então, quando terminamos um trabalho, superamos uma dificuldade ou celebramos alguma conquista, gosto de repeti-la. Maristela abre um sorriso imenso toda vez que a escuta.
“Mas, Maristela, ainda nem começamos.”
Colaborou: Luciana Mello