A Cervejaria Três Lobos, dona da marca Backer, conseguiu adiar em cerca de um mês a votação de seu plano de recuperação judicial. A análise do documento estava marcada para essa segunda-feira (13), mas a empresa disse aos credores estar em negociações com potenciais investidores para aporte de capital. Diante disso, obteve aval para suspender a sessão e remarcá-la para 25 de agosto.
A Três Lobos está em recuperação judicial desde 2023, em meio aos efeitos financeiros causados pela contaminação por dietilenoglicol de unidades da cerveja Belorizontina. O incidente, ocorrido em 2020, matou 10 pessoas e deixou outros 16 consumidores com sequelas graves, como paralisia facial, cegueira e comprometimento das funções renais.
Como O Fator já mostrou, a dívida da companhia está em R$ 146,3 milhões. São 448 credores cadastrados no processo de reestruturação.
Segundo a ata da sessão dessa segunda-feira, a Backer aproveitou o início do encontro para informar “que o plano de Recuperação Judicial demanda ajustes em razão das tratativas atualmente em curso, inclusive com potenciais investidores e aportadores de capital, encontrando estes em fase de due diligence”.
Adiamentos sucessivos
É a segunda semana seguida de recalendarização da assembleia de credores da Backer. A votação do plano de renegociação estava originalmente prevista para o dia 6 deste mês, mas acabou postergada em razão da falta de quórum.
A detentora do selo Backer possui R$ 15 milhões em débitos trabalhistas. Paralelamente, acumula passivo quirografário de R$ 124,5 milhões. Esse montante diz respeito, por exemplo, a fornecedores e prestadores de serviços.
O saldo negativo é formado, ainda, por R$ 6,7 milhões referentes a débitos contraídos junto a microempresas.
No pedido de reestruturação das dívidas, a Três Lobos relatou que, por causa da contaminação de lotes da Belorizontina, precisou paralisar a planta industrial em 2020, retomando as atividades em abril de 2022. No ano seguinte, ao protocolar o pedido de recuperação judicial, os advogados da empresa apontaram a necessidade de renegociar mais de R$ 55 milhões em dívidas.
“Os reflexos da Crise da Belorizontina e a retração do interesse dos investidores em manter as parcerias diante do cenário político, narrados acima, comprometeram a situação da Requerente, que chegou ao insustentável: capital de giro reduzido, produção limitada e incapaz de gerar o faturamento necessário para fazer frente às obrigações com fornecedores, instituições de crédito, dentre outros. O risco de total inadimplência é iminente”, escreveram os advogados da empresa, à época.
Relembre o caso
Perícias da Polícia Civil e do Ministério da Agricultura identificaram contaminação em 36 lotes de diversas marcas produzidas pela cervejaria entre janeiro de 2018 e janeiro de 2020. Os laudos apontaram presença de monoetilenoglicol e dietilenoglicol, substâncias tóxicas não recomendadas para a indústria alimentícia.
A investigação revelou que a Backer passou a adquirir monoetilenoglicol em setembro de 2017, com a intenção de utilizar o composto como anticongelante.
Laudos técnicos identificaram múltiplos pontos de contaminação na fábrica, incluindo tanques de fermentação e a fase conhecida como “cozinha” do processo produtivo. O relatório do Ministério da Agricultura descartou a hipótese de que o problema ocorreu apenas em um tonel, como inicialmente suspeitado.
Em 4 de novembro do ano passado, a Justiça absolveu os 11 réus do caso de contaminação das bebidas. O juiz Alexandre Magno de Resende Oliveira reconheceu o dano gerado às vítimas, mas considerou que não havia provas suficientes para condenação criminal.
Entre os absolvidos, estão Ana Paula Lebbos, Hayan Franco Khalil Lebbos e Munir Franco Khalil Lebbos, sócios da cervejaria. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que recorreu da decisão, os acusou de vender produto adulterado com dolo eventual e de não comunicar os consumidores sobre a nocividade após a interdição dos lotes.