O Republicanos manteve a decisão de não lançar a candidatura do senador Cleitinho Azevedo ao governo de Minas Gerais. A deliberação foi anunciada nesta segunda-feira (3), após uma reunião iniciada no fim da manhã e que se estendeu durante a tarde.
Embora a justificativa oficial tenha sido o momento de luto vivido pelo senador, que perdeu o irmão no último mês, a decisão foi motivada, nos bastidores, por divergências em torno da composição da chapa para a eleição estadual.
Além do senador, participaram do encontro, em Brasília (DF), o presidente nacional do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira (SP), e o presidente da legenda no estado, deputado federal licenciado Euclydes Pettersen.
Emocionado, Cleitinho atribuiu a escolha à fase pessoal que enfrenta após a morte do irmão, em 18 de julho. “Não adianta entrar na campanha do jeito que estou. Não adianta querer cuidar de vocês se não estou cuidando de mim e da minha família”, afirmou.
O anúncio foi feito pelas redes sociais, em um vídeo publicado no Instagram ao lado dos dirigentes partidários. A gravação foi conduzida por Marcos Pereira, que relembrou os meses de indefinição envolvendo o senador, que chamou de “vaivém” e afirmou que Cleitinho teve tempo para definir seu futuro político, o que, segundo ele, não aconteceu.
Pereira também disse que o cenário foi agravado pelo período de luto vivido pelo parlamentar. De acordo com o presidente do Republicanos, a legenda ofereceu todas as condições para que o senador disputasse o governo de Minas, mas o próprio Cleitinho concluiu que este não era o momento adequado, por precisar cuidar de si e da família.
“Na semana passada, tomamos uma decisão em razão de algumas condicionantes colocadas pelo Cleitinho. O Cleitinho não compareceu à convenção, eu pedi que ele fosse a São Paulo para gravar comigo dizendo que era candidato, demos a oportunidade até a terça-feira, mas não foi possível por causa do momento de luto e de dor que ele está vivendo”, narrou Marcos Pereira.
Como mostrou O Fator, o Republicanos, agora, vai buscar consolidar uma aliança com União Brasil, PP e PL. O bloco trabalhava com a hipótese de apoiar o ex-secretário de Estado e deputado federal Marcelo Aro (PP) ao governo com a saída oficial de Cleitinho do páreo.
Desconforto nos bastidores
Nos bastidores, a versão foi rebatida. Aliados do senador contam que ele tentou viabilizar a candidatura até o último momento, mas não conseguiu em função de divergências com acordo fechado anteriormente pela sigla. A decisão encerra meses de indefinição quanto à participação do senador na corrida ao Palácio Tiradentes.
O imbróglio só chegou ao fim após a candidatura ter sido desautorizada pela própria legenda, em nota pública divulgada na quarta-feira (29), em razão da demora do senador em dar uma resposta aos correligionários.
Desde então, Cleitinho passou a atuar para reverter a decisão. As negociações incluíram reuniões na sexta-feira (31), ao longo do fim de semana e nesta segunda-feira, inclusive no interior de São Paulo.
Lideranças da ala mais ideológica do PL, como o deputado federal Nikolas Ferreira (MG), o senador Flávio Bolsonaro (RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro participaram das articulações, mas o movimento não prosperou em virtude da decisão do parlamentar. O intuito era que Flávio tivesse um palanque à Presidência da República no estado, segundo maior colégio eleitoral do país.
Desgaste e pressão
A desistência foi antecedida pela pressão de legendas aliadas e pela avaliação interna de que a autoridade do Republicanos estava desgastada pelo vaivém do senador. A pressão pela definição partiu de parte das direções do PL e da federação formada por PP e União Brasil.
Como mostrou O Fator, o grupo se reuniu na noite de terça-feira (27), em Brasília, e passou um recado duro ao presidente nacional da sigla, que participou por telefone. A mensagem foi para que o martelo sobre Cleitinho fosse batido, uma vez que a indefinição do senador travava o fechamento do arco de alianças e as candidaturas proporcionais. Isso foi feito com a nota pública.
No comunicado em que descartava ser representado por Cleitinho na eleição para o governo, o Republicanos dizia que, embora estivesse pronto para encabeçar um projeto majoritário próprio, a candidatura “nunca foi assumida por quem deveria liderá-la” — no caso, o senador.
O texto foi divulgado na quarta-feira (29). Horas depois, Cleitinho convocou uma entrevista coletiva para uma praça em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas. Diante dos microfones, disse pela primeira vez ter a intenção de pleitear o Palácio Tiradentes e afirmou que tentaria “tocar o coração” de Marcos Pereira para fazê-lo mudar de posição.
Agora, na configuração de chapa debatida na terça-feira, Marcelo Aro ficaria como candidato ao governo, e o deputado federal Domingos Sávio (PL) disputaria uma das vagas ao Senado. As outras duas cadeiras, de vice-governador e a segunda ao Senado, ficariam com nomes do Republicanos. Há, no entanto, uma pressão para que apenas Sávio concorra à Casa Alta.