O ministro Alexandre de Moraes afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que seus filhos nunca estiveram na Arena MRV, estádio do Atlético, em Belo Horizonte. A declaração consta da defesa enviada pelo ministro para a sessão desta terça-feira (15), convocada para discutir a validade de investigação conduzida a partir de relatório da Polícia Federal sobre dados extraídos do celular do empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.
No documento, Moraes contesta a interpretação dada pela PF a mensagens de maio de 2024 nas quais Vorcaro tratou da obtenção de ingressos para dois filhos do ministro, Giuliana e Alexandre. O relatório policial registra conversas sobre um ingresso VIP para Giuliana e uma solicitação para que ela fosse posicionada ao lado do irmão em uma “boa mesa”. A PF não informa quem teria pago pelos ingressos, nem os valores envolvidos.
“Meus filhos nunca solicitaram esses convites e, mais grave, nunca estiveram na vida na Arena MRV em Belo Horizonte”, afirmou Moraes. Na manifestação, o ministro também sustenta que as referências foram inseridas em um relatório formado por recortes de mensagens e diz que a apuração teria sido dirigida para produzir acusações contra ele.
Segundo o relatório da PF, em 12 de maio de 2024 Vorcaro enviou uma mensagem a Ana Matos, então funcionária do setor de marketing do Banco Master, avisando: “Filha alexandre moraes vai te chamar aí”. Em seguida, identificou a filha como Giuliana e pediu: “Arruma pra ela”. Ana respondeu: “Pode deixar”.
A funcionária encaminhou depois informações sobre uma partida entre Atlético e Grêmio na Arena MRV.
Posteriormente, Vorcaro escreveu a Ana que Giuliana havia recebido um ingresso VIP, mas que pretendia assistir ao jogo ao lado do irmão, Alexandre, que não teria acesso à mesma área. “Ela recebeu VIP 1, ótimo. Será que consegue sentar com o irmão que não é VIP”, escreveu. Depois, determinou: “Coloca os irmãos juntos”. Ao receber a informação de que a situação seria verificada, acrescentou: “Coloca eles em boa mesa”.
A defesa de Moraes reproduz o episódio de forma diferente. O ministro afirma que seus filhos não pediram convites e nega que eles tenham comparecido a qualquer evento na Arena MRV. O documento menciona uma suposta referência a um evento solidário e à presença em área VIP, versão que Moraes classificou como falsa.
Investigação
As mensagens fazem parte de um relatório de 218 páginas produzido pela Polícia Federal após a análise do celular de Vorcaro, apreendido na Operação Compliance Zero. O documento reúne conversas, registros de chamadas, arquivos, contratos e outros dados encontrados no aparelho do empresário.
A operação foi deflagrada em novembro de 2025 para investigar suspeitas de fraudes na venda de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB, o Banco de Brasília. Vorcaro foi preso na primeira fase da operação, em 18 de novembro de 2025.
O relatório foi produzido a pedido do ministro André Mendonça, do STF, com o objetivo de identificar uma possível rede de influência e monitoramento atribuída a Vorcaro. A PF entregou o material em 27 de agosto de 2026.
Segundo a corporação, a análise não é exaustiva porque foi elaborada dentro do prazo de 72 horas fixado pela decisão judicial. Parte das conversas também teria ocorrido pelo recurso de visualização única do WhatsApp. Nesses casos, o relatório identifica mensagens enviadas por Vorcaro, mas não permite conhecer o teor das respostas recebidas.
Nas conversas associadas ao contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, essa limitação impede a reconstituição completa de parte dos diálogos. A PF registrou ainda que podem existir outras citações ou referências indiretas nos dados extraídos que não foram identificadas durante a análise inicial.
Sessão no STF
A sessão desta terça-feira deve analisar manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) que questiona a validade da investigação que deu origem à Petição 16.662. Na defesa, Moraes pede que o STF reconheça a nulidade do procedimento e extinga a petição.
O ministro afirma que a investigação contra ele foi determinada de ofício por André Mendonça, sem pedido da PF ou da PGR e sem autorização do plenário do STF. Moraes também diz não haver indícios de que tenha tido conhecimento antecipado da operação contra Vorcaro, influenciado autoridades ou atuado em processos relacionados ao Banco Master.