A Empabra, mineradora suspeita de extrair ilegalmente minério de ferro da Serra do Curral, negociou a venda do mineral diretamente com a Usiminas e tentou interlocução com Gerdau, Vale e CSN, aponta relatório da Polícia Federal que indiciou 17 pessoas na operação Parcours.
Segundo a PF, documentos coletados pelos investigadores apontam que o então acionista e diretor executivo da Empabra, Lucas Kallas, manteve tratativas e interlocuções com agentes e entes do setor, incluindo representantes dessas empresas.
Procurado por O Fator, o empresário respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que “a defesa tem plena confiança na demonstração de inocência de Lucas Kallas, pois o indiciamento requenta fatos antigos, já investigados e arquivados pela Justiça.” A nota acrescenta ainda que: “Lucas não tem relação com a empresa investigada desde 2017 e, antes disso, havia sido apenas investidor.”
O relatório da PF não aponta negociação direta da empresa com a Vale, Gerdau e CSN. Mas mensagens coletadas do celular de Kallas apontam que a Empabra chegou a concluir vendas ao menos para a Usiminas.
Em março de 2015, Lucas Kallas mandou uma mensagem ao gerente de operações da Empabra, cobrando a intensificação da extração de minério de ferro da mina Granja Corumi, na Serra do Curral.
Na mensagem, o empresário demonstrava preocupação com a possibilidade de o governo estadual suspender as operações da empresa e, consequentemente, atrapalhar as vendas para a Usiminas.
“Programa trabalhar sábado e domingo para tirarmos o máximo de minério, pois até o término do TAC com o governo ‘poderemos’ ficar parados 2 a 3 dias a partir de terça!”, diz Kallas ao seu então gerente. “Tenho que garantir as composições da Usiminas da próxima semana”, acrescentou.
Composições, nesse caso, é um termo comum dentro do setor de mineração para se referir ao carregamento ferroviário de minério de ferro.
Minutos depois, o gerente de operações disse que produziria sábado e domingo. “Estamos fazendo 5000 [toneladas] dia, devemos fazer 20000 t”, afirmou. Kallas, então, respondeu: “Ok! Foco total!!”
Procuradas, Usiminas, Vale, CSN e Gerdau não haviam respondido até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.
A operação
Segundo as investigações, a empresa, sob o controle de Lucas Kallas, Luis Fernando Franceschini e Bruno Luciano, se aproveitou de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado pela administração passada com a Prefeitura de Belo Horizonte para lavrar e comercializar minério de ferro em quantidades muito maiores que as autorizadas.
A Operação Parcours investiga a extração ilegal de minério de ferro pela Empabra entre 2014 e 2025 na Serra do Curral.
O TAC, em questão, previa apenas a comercialização de minério existente em rejeitos e pilhas, mas os investigadores apontam a criação de uma organização criminosa, inclusive com agentes públicos, para avançar com outras frentes na mineração. Em 2024, segundo o relatório da PF, a Empabra tinha planos de vender até R$ 2,3 bilhões em minério de ferro extraído da Serra do Curral.