Após ter verba contingenciada, ANM vai interromper vistoria de 20 barragens em MG, incluindo as da Emicon, em Brumadinho

Governo federal limitou R$ 22,7 milhões do orçamento da agência, limitando atividades e comprometendo fiscalizações presenciais
Fachada de prédio marrom com o ecrito: ANM Agência Nacional de Mineração
Sede da ANM em Brasília Foto: Ricardo Botelho/MME

Após ter R$ 22,7 milhões contingenciados pelo governo federal no final da semana passada, a Agência Nacional de Mineração (ANM) vai precisar alterar o cronograma de visitas presenciais a 20 barragens e 12 pilhas de mineração em Minas Gerais. 

O Fator apurou que entre as estruturas que não receberão os técnicos da agência no prazo estabelecido estão as da Emicon Mineração e Terraplanagem, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A companhia tem uma barragem em nível 2 de emergência e três em nível 1 de emergência. 

Em nota divulgada na quinta-feira (4), a ANM afirmou que o contingenciamento impõe revisões de planejamento, limita deslocamentos de equipes técnicas e compromete atividades que dependem de fiscalização presencial. O limite aplicado pelo governo federal representa cerca de 20% do orçamento da agência para 2026.

De acordo com o órgão, algumas das barragens que seriam visitadas presencialmente exigem acompanhamento contínuo em razão de potencial impacto social, ambiental e econômico, incluindo alguns localizados próximos a comunidades e áreas ambientalmente sensíveis. Em todo o Brasil, serão 43 barragens e 18 pilhas de mineração afetadas. 

Os impactos das vistorias nas barragens da Emicon em Brumadinho causam ainda mais preocupação aos servidores da ANM. Uma dessas estruturas teve o nível de emergência alterado de 1 para 2 no ano passado depois que técnicos da agência identificaram condições de estabilidade marginal — ou seja, quando a estrutura tem o estágio de segurança reduzido em relação ao que seria considerado o ideal.

A Emicon é, inclusive, acusada pela Prefeitura de Brumadinho e pela ANM de não cumprir as obrigações impostas pela agência para garantir a segurança da estrutura. Uma audiência pública sobre as alegações, aliás, está marcada para o próximo dia 15 na comarca da cidade. 

A ANM é a agência federal responsável por fiscalizar as barragens de mineração do país. A autarquia faz monitoramento remoto das estruturas e privilegia aquelas em nível de emergência e alerta nas visitas presenciais. Até maio deste ano, por exemplo, a agência vistoriou 60 empreendimentos, sendo 33 em Minas Gerais. 

Ao todo, o estado tem uma barragem em nível 3 de emergência, cinco em nível 2, 16 em nível 1 e seis em nível de alerta. 

Contingenciamento também impacta Cfem

O contingenciamento das verbas da ANM também afeta a fiscalização sobre o pagamento da Compensação Financeira pela Exploração dos Recursos Minerais (Cfem), como são chamados os royalties pagos pelas mineradoras. As cifras são calculadas a partir do faturamento autodeclarado das empresas. Cabe aos técnicos da agência verificar se os valores estão corretos. 

Sem a capacidade de fiscalizar, aponta a ANM em nota, é possível que haja efeitos nas receitas públicas compartilhadas com municípios e estados mineradores.

O que diz o governo

O contingenciamento de parte do orçamento da ANM foi autorizado por um decreto do último dia 29 assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelos ministros da Fazenda, Dario Durigan, e do Planejamento, Bruno Moretti. Ao todo, o documento impõe limites de R$ 22,1 bilhões na verba de vários órgãos federais, incluindo outras agências de fiscalização.  

Procurado por O Fator, a pasta de Planejamento afirmou que o bloqueio atingiu ministérios e órgãos do governo de maneira generalizada, não apenas as agências reguladoras.

“Sempre que possível, foi observada a proporcionalidade entre bloqueios e volume de despesa discricionária em cada um desses ministérios e órgãos”, disse em nota.

Já o Ministério de Minas e Energia afirmou que a ANM possui autonomia orçamentária. “Tal prerrogativa lhe confere competência para tratar diretamente com o Ministério do Planejamento e Orçamento sobre matérias orçamentárias, cabendo ao MME prestar apoio institucional complementar sempre que necessário”. A pasta também disse estar atuando para fortalecer a agência.

O Ministério da Fazenda, por sua vez, disse que não vai comentar.

Formado em jornalismo pela PUC Minas, Pedro Lovisi trabalhou nas redações do jornal Estado de Minas e da Rádio Itatiaia. Nos últimos cinco anos, foi repórter da Folha de S.Paulo, onde se destacou pela cobertura econômica de setores ligados à transição energética, principalmente energia e mineração. Também é mestre em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais pela PUC SP, onde estudou instrumentos orçamentários para cidades mineradoras de Minas Gerais.

Após ter verba contingenciada, ANM vai interromper vistoria de 20 barragens em MG, incluindo as da Emicon, em Brumadinho

Leia também:

Feridas em carne viva que jamais cicatrizarão

Nikolas ganha aval do PL para rodar o país no 2° turno, mas recebe críticas por ter aliados na coordenação de Flávio em MG

O encontro entre Cleitinho e Flávio Bolsonaro

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse