Mesmo longes de barragem, crianças em distrito de Brumadinho têm metais pesados em exames; MP apura como exposição ocorreu

Estudo mostrou que água local não está contaminada; comunidade de Aranha não fica próxima de trajeto de rejeitos e lama após o rompimento
Pelo estudo da Fiocruz, em Aranha, todas as 78 crianças que tiveram amostras de urina coletadas apresentaram a presença de arsênio na urina. Destas, 73 tinham chumbo, 63 manganês, 45 mercúrio e 19 cádmio.
Pelo estudo da Fiocruz, em Aranha, todas as 78 crianças que tiveram amostras de urina coletadas apresentaram a presença de arsênio na urina. Destas, 73 tinham chumbo, 63 manganês, 45 mercúrio e 19 cádmio.

Cinco anos depois do rompimento da barragem B1 da mina do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, em Brumadinho, entidades ainda buscam entender o tamanho da contaminação – e possíveis efeitos – de metais pesados que passaram a ser realidade nas proximidades da cidade. Em 2022, um estudo feito pela Fiocruz, junto com pesquisadores da UFMG e UFRJ, indicou que só no distrito de Aranha, no município, mais da metade (56,4%) das crianças apresentaram a presença de metais de interesse à saúde pública (arsênio, mercúrio, cádmio, chumbo e manganês) em seus exames de urina. Só que a nenhum destes elementos foram encontrados na água que abastece o local.

O que mais chamou a atenção de pesquisadores e autoridades é que o distrito de Aranha está a quase 12 km de distância do Córrego do Feijão, não esteve nem perto da trajetória da lama de rejeitos e sempre foi considerada uma área em que a população não teria exposição à poeira de rejeitos gerada pelo rompimento. Amostras coletadas na comunidade, por exemplo, por conta da distância da barragem, podem não ser aprofundadas em pesquisas por conta de critérios técnicos.

Nos desdobramentos do estudo, perícias feitas por setores técnicos do MP de Minas apontaram a inexistência dos metais detectados nos exames na água que abastece Aranha. O Rio Paraopeba, atingido com virulência pelo rompimento da barragem, já não era a principal fonte de captação hídrica do local e, depois da queda de B1, muito menos.

Como, então, as crianças de Aranha apresentam metais perigosos em seus exames médicos?

No início de janeiro, o MP de Minas começou um processo para contratar uma pesquisa técnica, liderada pela USP, para um novo estudo de bioacessibilidade de contaminantes no solo de Aranha.

“Dessa forma, tendo em vista que no entorno do distrito de Aranha há diversos processos minerários, inclusive de ouro, o qual pode estar associado ao mineral arsenopirita, é recomendável a elaboração, por instituições e empresas de consultoria especializadas, de estudo de bioacessibilidade de arsênio nos solos, para investigar a causa da contaminação da população infantil do distrito de Aranha, vez que este elemento e demais metais tóxicos à saúde não foram detectados em nenhum dos pontos de coleta de água potável”, mostra trecho do parecer feito pela equipe técnica do MPMG.

Os estudos atuais, feitos no âmbito do acordo de reparação entre Estado e a Vale, tem uma expectativa de serem concluídos só no ano que vem. Enquanto isso, as comunidades locais pressionam por respostas sobre a presença dos metais em seus exames. Piora: como Aranha possui pouca vinculação com o rompimento, dificilmente o distrito constaria em estudos sobre a relação entre a presença dos elementos e a queda da barragem.

Pelo estudo da Fiocruz, em Aranha, todas as 78 crianças que tiveram amostras de urina coletadas apresentaram a presença de arsênio na urina. Destas, 73 tinham chumbo, 63 manganês, 45 mercúrio e 19 cádmio.

Posicionamento

Procurada, a Vale afirmou, em nota, que não há registros de intoxicação por metais em decorrência do rompimento da barragem. “A empresa também monitora níveis de material particulado em suspensão (frações inaláveis menores que 10µm e frações respiráveis menores que 2,5µm) nas comunidades impactadas de Brumadinho e, até o momento, os resultados desses monitoramentos estão a níveis de segurança adequados à saúde da população.

Além disso, a empresa financia os Estudos de Avaliação de Risco à Saúde Humana e de Avaliação de Risco Ecológico, que estão sendo conduzidos pelo Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SISEMA) em articulação com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e Secretaria de Planejamento (SEPLAG). Esses estudos investigam as áreas impactadas pelo rejeito para identificar uma possível contaminação e os riscos à saúde humana e ao meio ambiente, visando o estabelecimento de medidas de intervenção e reparação e ações de proteção da população, fauna e flora, se necessário.

Este trabalho, que tem metodologia validada pelos Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente e é acompanhado pelos compromitentes do Acordo Judicial de Reparação Integral (Ministério Público do Estado de Minas Gerais, Ministério Público Federal, Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais e pelo Governo do Estado de Minas Gerais)”.

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