A Vale resolveu interromper contratos com duas produtoras culturais que, juntos, somavam cerca de R$ 18 milhões. As empresas tocavam projetos socioculturais que integram a série de contrapartidas ligada à renovação da concessão da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM).
A interrupção foi parar na Justiça. O Fator apurou que, em petição protocolada no início de agosto, as empresas mineiras Culturama Gestão e Eventos e Horus Planejamento e Gestão pedem que o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) restabeleça os contratos interrompidos e obrigue a Vale reembolsar despesas já pagas pelas empresas no total R$ 229,7 mil.
Em notificação enviada às produtoras, a Vale informou que a ruptura dos vínculos, comunicada no início de julho, se deu após as empresas enviarem, sem o consentimento da mineradora, notícias sobre os projetos para jornais e revistas.
No documento, a Vale cita como exemplo uma reportagem publicada em 13 de maio na revista Ferrovia em Foco e outra de junho veiculada na revista Exame. Segundo a companhia, os textos jornalísticos, feitos a partir de informações fornecidas pelas produtoras, têm características de promoção pessoal dos dirigentes das empresas.
“As duas matérias trazem citações à Vale e à Agência Nacional de Transportes Terrestres, sem, contudo, ter tido release (texto produzido por assessorias de comunicação e enviado a jornalistas com informações relevantes sobre determinado tema) aprovado pelas assessorias das duas instituições, causando estranheza e desconforto nas equipes e entre as duas instituições”, afirma a Vale.
O Fator apurou que os contratos firmados com as empresas, em fevereiro de 2025, tinham cláusulas que impediam a publicação de materiais de comunicação sem a aprovação da Vale. Os produtores, no entanto, dizem na Justiça que avisaram a empresa.
Os contratos
As parcerias com as duas empresas fazem parte de uma série de contratos firmados entre a Vale e produtoras culturais em torno da renovação da concessão da EFVM, assinada em 2020.
A Culturama, por exemplo, foi contratada pela mineradora para desenvolver, por 46 meses, o projeto “Identidades: Memórias de Uma Estrada de Ferro”, que visava inventariar as expressões culturais nos municípios das estações ferroviárias. Ao todo, a Vale pagaria R$ 8,4 milhões, em parcelas semestrais, sendo que ainda faltariam ser desembolsados R$ 5,5 milhões.
Já a Horus era responsável pelo projeto “Estação: Memórias, Saberes e Patrimônios”, que visava preservar a memória da ferrovia. A ela, seriam pagos R$ 9,6 milhões em 46 meses, sendo que a mineradora ainda precisaria desembolsar R$ 6,2 milhões.
Neste ano, os projetos interrompidos seriam realizados nos municípios mineiros de Aimorés, Itueta, Resplendor, Tumiritinga, Conselheiro Pena, Governador Valadares, Periquito, Naque, Santana do Paraíso, Belo Oriente, Coronel Fabriciano, Timóteo, Ipatinga e Santa Bárbara.
Procurada pela reportagem, a Vale afirmou que não comenta processos judiciais em curso. “É importante esclarecer que a companhia avaliará iniciativas a serem implementadas futuramente, reafirmando o seu compromisso com a valorização da cultura e da memória ferroviária nas regiões onde está presente”, acrescentou em nota.