A mente por trás do vício do jogo

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Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

No início deste mês, o Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que beneficiários do Bolsa Família usaram cerca de R$ 3,7 bilhões em apostas online em janeiro de 2025, igual a 27% do total pago pelo programa naquele mês. O TCU identificou uma aceleração nesse comportamento e classificou como um “cassino no bolso” o acesso quase ilimitado a sites e aplicativos de apostas esportivas.

A estatística aponta o crescimento do transtorno do jogo, que é uma síndrome de grande complexidade, que combina impulsividade, disfunções cognitivas e influências sociais em um ciclo destrutivo. Estudos mostram que pessoas afetadas apresentam elevados índices de comorbidades psiquiátricas, como depressão e ansiedade, até ideação suicida. As taxas de incidência são de 0,2% a 0,3% da população geral, mas a condição muitas vezes evolui sem que os indivíduos busquem tratamento, seja por negação ou incapacidade de reconhecer a seriedade do problema.

Uma condição comportamental, o transtorno do jogo retrata a persistência de um comportamento compulsivo atrelado a estruturas mentais e sociais complexas. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), esse transtorno é caracterizado por, pelo menos, quatro sintomas ao longo de 12 meses. Esses sintomas incluem aumento progressivo no valor das apostas, tentativas frustradas de reduzir o hábito, mentiras para encobrir a prática e prejuízos significativos em relações pessoais, profissionais ou financeiras.

Mas o que impulsiona esse comportamento aparentemente irracional?

Mecanismos mentais: a construção da dependência

O jogo de azar está associado à busca por euforia. A aposta funciona como um estímulo que ativa os sistemas neurais de recompensa. A busca por ganhos financeiros imediatos está associada a distorções cognitivas, como excesso de confiança, crenças no controle sobre eventos aleatórios e o clássico “efeito do quase-acerto” – a sensação de estar próximo de vencer, mesmo em jogos de puro acaso.

Indivíduos com personalidade impulsiva ou em estado emocional fragilizado, como depressão e ansiedade, são especialmente vulneráveis. O jogo, nesses casos, atua como um mecanismo de fuga, um “anestésico” temporário para angústias internas. Essas condições podem levar pessoas a desenvolverem a dependência psicológica do jogo.

Além disso, é comum entre os jogadores a mentalidade de “recuperar perdas”, em que apostas maiores são feitas após derrotas consecutivas, intensificando o ciclo de dependência. Essa prática não só aumenta os prejuízos financeiros, mas também a carga de estresse e culpa, perpetuando a compulsividade.

O papel do meio e dos laços pessoais

Estímulos externos também influenciam o comportamento do jogador ao atuarem na introdução ao hábito em ambientes familiares ou comunitários onde o jogo é tradição ou forma de convívio. Entre jovens, a prática muitas vezes começa em círculos de amigos ou familiares; entre adultos, é reforçada por contextos culturais ou eventos sociais.

Nesse contexto, a demografia é relevante. Estatísticas apontam que homens são mais propensos ao transtorno desde idades mais precoces, enquanto mulheres geralmente iniciam o hábito mais tarde. A influência do meio ainda reforça o comportamento e pode agravar o quadro. Para cobrir dívidas, jogadores podem começar a mentir ou a depender de familiares e amigos para suporte financeiro. Essa dinâmica desgasta relacionamentos, limitando as possibilidades de apoio e agravando o isolamento social. O acesso fácil a jogos ou apostas acentua a tendência.

A remissão é possível, mas exige suporte

Esse cenário reflete a importância de se estudar as apostas online. E já aponta para a necessidade de políticas públicas que melhorem o acesso a intervenções terapêuticas, oferta de informações educativas e regulamentação mais rígida sobre a propaganda de jogos.

Para quem vive nas sombras do transtorno, há esperança de remissão, mas a jornada exige suporte contínuo – tanto de profissionais quanto de redes sociais e familiares. Afinal, o que está em jogo aqui vai muito além do dinheiro: são vidas em risco, comprometidas por um impulso aparentemente passageiro, mas que carrega significados emocionais profundos e consequências humanas enormes.

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