A República das Palavras Perdidas

Rui Barbosa durante a campanha civilista de 1910.
Rui Barbosa durante a campanha civilista de 1910. Foto: Fundação Casa de Rui Barbosa/Agência Senado

Houve um tempo em que os homens acreditavam profundamente nas palavras.

Não nas palavras vazias dos discursos prontos, nem naquelas fabricadas para os palanques e para os aplausos efêmeros. Mas nas palavras como instrumentos de civilização. Palavras capazes de erguer instituições, conter tiranias, educar consciências e impedir que a barbárie se instalasse entre os homens.

Rui Barbosa pertencia a esse tempo.

Conta-se que sua biblioteca parecia uma catedral silenciosa. Livros empilhados como colunas invisíveis sustentavam sua existência. Entre páginas anotadas e discursos escritos à mão, Rui compreendia algo que o Brasil ainda luta para aprender: nenhuma nação se sustenta apenas pela força da economia ou pelo brilho ocasional de seus líderes. Uma República sobrevive, sobretudo, pela qualidade moral de suas instituições e pela confiança que o povo deposita nelas.

Nascido em Salvador, em 1849, Rui atravessou o Império e ajudou a construir os primeiros contornos da República brasileira. Advogado, jornalista, senador, diplomata, abolicionista, defensor das liberdades civis, tornou-se uma das consciências mais vigorosas da vida pública nacional. Sua voz ecoava nos tribunais, nos jornais e no Parlamento como um alerta permanente contra os abusos do poder.

Talvez tenha sido por isso que o chamaram de “Águia de Haia”, após sua atuação memorável na Segunda Conferência da Paz, em Haia, quando defendeu a igualdade jurídica entre as nações e a soberania dos países mais frágeis diante das potências mundiais. Mas, paradoxalmente, enquanto o mundo o admirava, o Brasil continuava sendo um país profundamente desigual, marcado pelo analfabetismo, pela pobreza e pela exclusão social.

E eis aí uma ferida que atravessa os séculos.

Porque o Brasil moderno ainda carrega, sob novas vestes, velhas ausências republicanas.

Os livros “Como as Democracias Morrem” e “Como Salvar a Democracia”, escritos já no século XXI, parecem dialogar silenciosamente com os fantasmas que Rui Barbosa conheceu em sua época. Ambos os autores demonstram que as democracias raramente morrem por golpes abruptos e tanques nas ruas; frequentemente adoecem lentamente, corroídas pela intolerância, pelo desprezo às instituições, pela radicalização política e pela destruição da confiança pública.

As democracias morrem quando os adversários passam a ser tratados como inimigos irreconciliáveis.

Morrem quando a mentira se torna método.

Morrem quando o povo deixa de acreditar que a lei vale para todos.

Morrem quando a política deixa de ser serviço e se converte apenas em espetáculo, ressentimento e poder.

Rui Barbosa enxergava isso muito antes dos cientistas políticos contemporâneos. Em seus discursos, repetia que “a pior democracia é preferível à melhor das ditaduras”, porque sabia que o autoritarismo seduz exatamente nos momentos em que a sociedade perde a esperança na Justiça e na representação política.

E talvez seja justamente aí que o Brasil contemporâneo encontre seu maior desafio.

Vivemos um tempo em que milhões de brasileiros experimentam a sensação amarga das dificuldades do dia a dia. A exclusão social não é apenas econômica; ela também é simbólica. Há pessoas que já não se sentem pertencentes à República. Não confiam nos partidos, desacreditam das instituições, enxergam a política como território exclusivo dos poderosos e vivem esmagadas entre a indignação e a indiferença.

Uma democracia pode sobreviver à pobreza por algum tempo.

Pode sobreviver às crises econômicas.

Pode até resistir a governos ruins.

Mas dificilmente resiste quando perde a confiança coletiva.

É exatamente esse o ponto central de Como Salvar a Democracia: instituições importam, mas não sobrevivem sem cultura democrática. Nenhuma Constituição, por mais sofisticada que seja, consegue proteger um país cujos cidadãos desistiram de acreditar uns nos outros.

Rui Barbosa compreendia profundamente o valor da educação nesse processo. Não a educação ornamental dos títulos vazios, mas a educação cívica, aquela que forma cidadãos conscientes de seus direitos, mas também de seus deveres para com a coletividade. Ele sabia que a República não se constrói apenas nos gabinetes; constrói-se sobretudo nas escolas, nos jornais livres, nas bibliotecas, nos debates públicos, nos cafés entre amigos, e no cotidiano ético das pessoas comuns.

Talvez por isso sua figura permaneça tão atual.

Num país atravessado pela desigualdade, pela desinformação e pela fadiga moral, Rui Barbosa nos recorda que a democracia exige vigilância permanente. Ela depende menos de heróis e mais de cidadãos. Menos de salvadores da pátria e mais de instituições sólidas. Menos de ódio e mais de responsabilidade pública.

Porque uma nação não se destrói apenas quando suas pontes caem ou quando sua economia fracassa.

Uma nação começa verdadeiramente a ruir quando desaparece a confiança entre seus próprios filhos.

E ainda assim, apesar de tudo, permanece uma esperança silenciosa.

A esperança de que o Brasil consiga reencontrar o sentido profundo da palavra República. Não como abstração jurídica. Mas como pacto moral entre diferentes. Um pacto no qual ninguém seja invisível. No qual a política volte a se compreendida como construção coletiva do bem comum.

Ao final da vida, Rui Barbosa talvez tenha entendido que nenhuma geração conclui plenamente a obra democrática. Cada época apenas recebe das anteriores uma tarefa inacabada. A nossa talvez seja justamente esta: reconstruir a confiança.

Porque sem confiança não existe cidadania.

Sem cidadania não existe democracia.

E sem democracia, o silêncio das nações começa muito antes do silêncio das armas.

Advogada e Mestre em Ciências Sociais. Associada Efetiva do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

Advogada e Mestre em Ciências Sociais. Associada Efetiva do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

Leia também:

A República das Palavras Perdidas

AGU pede ao STF que rejeite ação do Ibram e defende continuidade do auxílio emergencial a atingidos de Brumadinho

As conversas de Gabriel Azevedo e Jarbas Soares sobre as eleições de 2026

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse