Atenção, Cleitinho: Minas não é uma live de Instagram ou TikTok

Foto mostra Cleitinho segurando um bodoque
Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Deputado federal e candidato ao Senado pelo PL mineiro, Domingos Sávio disse, em entrevista à BandNews FM de Belo Horizonte, aquilo que boa parte da política profissional comenta — nem sempre tão reservadamente — há meses, mas evita verbalizar em público: sozinho, Cleitinho Azevedo (Republicanos) não teria condições (ou seja, precisaria de um respaldo em seu entorno) para governar Minas Gerais.

Como é do estilo de Domingos, fez isso sem elevar o tom, sem agressividade e com o cuidado habitual de quem conhece os custos de uma guerra dentro do próprio campo político. O parlamentar afirmou que, caso Romeu Zema mantenha sua candidatura presidencial, a aliança do partido com Mateus Simões (PSD) tende a se inviabilizar.

Nesse cenário, segundo ele, o caminho natural seria uma candidatura própria ou mesmo o embarque no projeto de Cleitinho. Domingos reconhece no senador uma enorme capacidade de comunicação popular, alguém que fala a língua do eleitor comum.

Mas, Minas não é uma live de Instagram, um vídeo de TikTok ou uma sequência de frases de efeito dentro de um carro em uma estrada. Minas é um estado complexo, com mais de 850 municípios, uma dívida bilionária, uma máquina pública gigantesca e interesses econômicos que exigem articulação técnica, política e administrativa em nível permanente.

Na visão de Domingos, o PL seria o sustentáculo político e administrativo necessário a uma hipotética gestão Cleitinho. E aí surge a dúvida: seria mesmo o partido de Valdemar Costa Neto, Flávio Bolsonaro e companhia a tábua de salvação, ou melhor, o exemplo de boa administração e boas práticas políticas a socorrer o atual senador?

Cleitinho se vende como “antissistema”, mas, convenhamos, os bolsonaristas estão longe de ser encarados pelo eleitor como símbolos de ruptura institucional ou renovação moral da política brasileira. Seu discurso de “outsider” começa a desmoronar quando depende justamente das engrenagens mais tradicionais do sistema partidário para sobreviver.

Falta de amor próprio

Mais curioso ainda é observar o tamanho do rebaixamento político aceito pelo PL em Minas. O partido provavelmente fará uma das maiores bancadas do país em 2026. Tem Nikolas Ferreira, hoje um fenômeno eleitoral e digital, apoiando publicamente Mateus Simões, e possivelmente maior, em alcance e influência, que o próprio Flávio Bolsonaro.

É como se faltasse ao PL mineiro algo elementar em política: instinto de poder. Hoje, o partido se submete aos interesses particulares de Valdemar Costa Neto e às conveniências da família Bolsonaro, e aceita viver como força política regional sem jamais, contudo, assumir plenamente o protagonismo que seus números eleitorais sugerem.

Para mim, que não tenho qualquer simpatia pelo partido, tanto faz. O problema é que Minas corre o risco de entrar em mais uma eleição movida por vaidade, improviso, interesse pessoal e disputa de egos. Pior. Corre o risco de assistir a um candidato da esquerda vencer e implodir definitivamente o que restou da hecatombe Fernando Pimentel (PT).

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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