Até quando a dor será herança?

Pessoas se abraçam
Muitos passam a vida inteira prometendo que nunca serão como o pai ou a mãe. E, sem perceber, acabam repetindo os mesmos gestos, pronunciando as mesmas frases, impondo os mesmos silêncios. Foto: Pixabay

Há dores que não aparecem nos exames, não deixam cicatrizes na pele e não encontram palavras para serem externadas. São dores silenciosas, escondidas nas profundezas da alma e que nos acompanham por anos, de forma consciente ou inconsciente, mas que doem todas as vezes em que esbarramos nelas.

Algumas nasceram de uma infância em que faltaram abraços, de expressões que machucaram mais do que os silêncios, de sonhos que precisaram ser enterrados para que pudéssemos sobreviver.

E o mais curioso é que nem sempre são nossas. Recebemos algumas delas de nossos pais, que também as receberam dos pais deles, numa longa corrente de pessoas que fizeram o melhor que podiam com aquilo que tinham, e que, muitas vezes, não conseguiram oferecer aquilo que nunca conheceram.

E, assim, de geração em geração, certas dores vão mudando de endereço, mas continuam morando na mesma família. Não porque exista uma herança inevitável de sofrimento, mas porque aquilo que não conseguimos compreender em nós mesmos, que tamponamos e que não curamos continuará nos aprisionando. E, provavelmente, continuará se manifestando nas gerações seguintes.

É como uma casa antiga, construída sobre rachaduras que ninguém teve coragem de examinar. Pintamos as paredes e enfeitamos os cômodos. Por fora, tudo parece bonito. Mas, quando chega a chuva, a água inunda, estraga a pintura e os objetos.

As dores da alma são assim. Podemos escondê-las, disfarçá-las, fingir que já passaram. Podemos até construir uma vida aparentemente feliz ao redor delas. Mas, enquanto não olharmos para essas feridas com honestidade e compaixão, elas continuarão influenciando nossas escolhas, nossos medos e nossas reações.

Muitos passam a vida inteira prometendo que nunca serão como o pai ou a mãe. E, sem perceber, acabam repetindo os mesmos gestos, pronunciando as mesmas frases, impondo os mesmos silêncios. Muda-se o cenário, mudam-se os personagens, mas o roteiro permanece o mesmo.

É que não basta rejeitar aquilo que nos feriu. Precisamos compreender o que essa ferida fez conosco. Precisamos olhar para a criança que fomos, aquela que talvez tenha esperado por um pedido de desculpas que nunca chegou ou por um reconhecimento que parecia sempre pertencer a outra pessoa.

Precisamos também compreender que nossos pais um dia foram crianças. Que talvez tenham carregado suas próprias ausências, seus próprios medos e suas próprias histórias interrompidas. Que podem ter amado com sinceridade e, ainda assim, não terem sabido amar da maneira de que precisávamos.

Porque chega um momento em que precisamos escolher o que faremos com nossas dores herdadas. Podemos transformá-las em ressentimento e permitir que elas continuem decidindo por nós. Ou podemos transformá-las em consciência, fazendo de nossas feridas lugares de aprendizado. Qual é a sua escolha?

Interrompermos aquilo que não queremos ver continuar talvez seja uma das tarefas mais bonitas e mais difíceis da nossa existência. Só assim permitiremos que os nossos filhos, netos e aqueles que vierem depois de nós recebam uma herança diferente.

E, quando isso acontece, a cura de uma pessoa deixa de ser apenas uma conquista individual. Torna-se uma possibilidade para todos os que virão depois dela não precisarem carregar as mesmas marcas. Porque heranças como o medo de não ser amado, a vergonha de sentir, a obrigação de agradar e o silêncio diante da dor podem terminar em nós.

E que privilégio será para os nossos descendentes quando puderem olhar para a própria história e encontrar pessoas que tiveram a coragem de se transformar. Pessoas que compreenderam que o passado merece respeito, mas não precisa receber as chaves do nosso futuro.

E, assim, quando o tempo contar a história da nossa família, que não se lembre apenas do que sofremos, mas também do momento em que alguém decidiu que o sofrimento não precisaria continuar. Alguém que, em vez de entregar a dor como herança, escolheu transformá-la em consciência. E que ensinou que o amor, quando se torna consciente, não é apenas aquilo que recebemos ou oferecemos. É também aquilo que decidimos não transmitir.

Escritora. Observadora comportamental. Bacharel em Direito.

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