A vida quer da gente coragem e atitude

Urna eletrônica
Talvez o melhor antídoto contra a política transformada em torcida seja justamente aquilo que faltou na história do detergente: boa análise e reflexão. Em vez de beber o produto para provar um ponto, leia, reflita e pense. Foto: Abdias Pinheiro/Secom/TSE

Há coisas que a gente aprende desde cedo, quase que instintivamente. Guarda-chuva é para quando chove. Cinto de segurança é para usar no carro e proteger em situações de impacto. Detergente é para limpeza. Voto é para escolher quem vai nos representar, no Executivo ou no Legislativo. Coragem e atitude é o que a vida quer da gente.

Agora parece que as certezas, ou boa parte delas, entraram todas em campanha eleitoral. E o caso do detergente é daqueles que, se aparecesse numa crônica de costumes, talvez o leitor desconfiasse de exagero. Em maio, a Anvisa determinou o recolhimento de produtos da Ypê depois de identificar falhas em etapas críticas do processo produtivo e apontar risco de contaminação microbiológica. A medida alcançou lotes específicos de detergentes, sabões líquidos para roupas e desinfetantes.

O assunto, que deveria permanecer no campo da vigilância sanitária, rapidamente ganhou contornos políticos. E veio o capítulo mais inacreditável: circularam vídeos de pessoas bebendo detergente em protesto contra a decisão da Anvisa. Sim, bebendo detergente.

A discussão sobre bactérias, controle de qualidade, fiscalização e risco sanitário ganhou um ingrediente que nenhum laboratório recomendaria: ideologia e disputa político-partidária. Reportagens registraram vídeos de pessoas ingerindo produtos de limpeza como forma de protesto e alertaram para os riscos dessa prática.

A Pseudomonas não tem título de eleitor. Um microrganismo não sabe se o fiscal é de esquerda ou de direita. Uma falha numa linha de produção não se torna menos perigosa porque a empresa tem simpatia por determinado político. E um produto não fica mais seguro porque alguém decidiu transformá-lo em símbolo de uma guerra de narrativas.

Ainda bem que existem os órgãos de controle e fiscalização. É justamente aí que a ciência e a estrutura pública entram, não para escolher um lado político, mas para garantir segurança à população e separar interesse público e políticas públicas de ideologia e de disputas político-partidárias.

O artigo “Detergente tem lado político?”, publicado por O Fator, chama a atenção para essa mistura entre o debate técnico e a polarização política. O texto lembra algo elementar: detergente não é sinônimo de esterilização, e uma eventual contaminação microbiológica precisa ser analisada segundo critérios técnicos, não segundo preferências ideológicas e político partidárias.

E talvez a grande lição esteja aí: informação não é aquilo que confirma o que já pensamos. Informação é aquilo que nos leva a refletir e a pensar melhor. Se uma autoridade diz que determinado produto apresenta risco, vale perguntar: qual produto? Qual lote? Qual foi a evidência? Qual norma foi aplicada? Houve inspeção? Houve contraditório? O fabricante apresentou sua defesa? O que dizem os documentos técnicos?

São perguntas menos emocionantes que um vídeo curto de protesto. Mas são infinitamente mais úteis. Porque existe uma diferença fundamental entre convicção e teimosia: a convicção aceita ser confrontada pelos fatos. E existe também uma diferença entre liberdade de opinião e desprezo pela realidade e evidências.

No fim das contas, nem detergente é neutro — não porque tenha ideologia, mas porque tudo aquilo que fazemos com ele produz consequências. Usá-lo corretamente é uma questão de informação. Fiscalizá-lo é uma questão de responsabilidade pública. E discutir uma eventual irregularidade ou Fake News exige evidências, não torcida.

O mesmo vale para a política e para o voto.

Também não existe neutralidade no processo eleitoral. Não porque todo eleitor precise vestir uma camisa ou entrar numa guerra de narrativas, mas porque escolher requer refletir, pensar e inevitavelmente, assumir consequências. O voto produz efeitos sobre a administração pública, sobre as políticas adotadas, sobre as prioridades do governo e sobre a vida cotidiana de todos, em especial daqueles que mais dependem das políticas públicas.

Por isso, talvez o melhor antídoto contra a política transformada em torcida seja justamente aquilo que faltou na história do detergente: boa análise e reflexão. Em vez de beber o produto para provar um ponto, leia, reflita e pense.

Leia as propostas. Conheça o histórico político dos candidatos. Leia o que fizeram quando tiveram oportunidade de agir. Compare compromissos, prioridades e posições, dos candidatos, de seu partido e de apoiadores. Procure fontes confiáveis. Consulte dados. Verifique o que é fato, o que é interpretação e o que é ilusão.

Desconfie tanto da informação que parece boa demais para ser verdade quanto daquela que confirma perfeitamente tudo o que você já queria acreditar. No supermercado, ninguém deveria escolher detergente porque a embalagem grita mais alto ou pela cor do rótulo. Na política e na urna, também não.

Porque o voto não é um gesto de torcida. Voto é uma decisão sobre quem receberá poder para administrar recursos públicos, formular políticas e tomar decisões que afetarão a vida de todos, inclusive de quem não votou em quem venceu.

O que não consigo aceitar é que a minha geração, a geração que leu Umberto Eco e Saramago, que ouviu Chico Buarque e tantos outros cantarem a liberdade, a justiça e a esperança, acostume com parte dos sonhos que nos formaram se reduzir à pós-verdade, tantas vezes alimentada por sofismas, pelo ressentimento e até pela crueldade.

Uma época em que a desinformação pode valer mais do que a evidência. Em que a convicção parece dispensar o conhecimento. Em que a política se transforma em identidade e o adversário, em inimigo. Pensar e refletir, com raciocínio lógico, são atos de resistência.

Aqui que me lembro de Martin Niemöller, pastor luterano e teólogo alemão que inicialmente apoiou de forma crítica a ascensão de Adolf Hitler, depois rompeu com o regime nazista, foi preso e passou vários anos em campos de concentração. Em 1946, ele proferiu discursos que ficaram conhecidos por abordar o perigo da apatia e da cumplicidade silenciosa das pessoas na vida em sociedade.

“Quando os nazistas vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando prenderam os sociais-democratas, eu fiquei em silêncio; eu não era um social-democrata. Quando me vieram buscar, já não havia ninguém para protestar por mim”.

Foi no mesmo sentido que em meados dos anos 1960 o poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa escreveu No caminho, com Maiakóvski, poema que durante décadas foi atribuído ao próprio Vladimir Maiakóvski e também, em algumas versões, a Bertolt Brecht. A autoria de Costa, entretanto, foi posteriormente esclarecida e documentada.

O poema nasceu em um tempo de intolerância política no Brasil e acabou se tornando símbolo de resistência. Entre seus versos mais conhecidos está a advertência: “E já não podemos dizer nada.” É justamente essa parte que destaco neste momento.

Não quero viver de forma apática e silenciosa num tempo em que a mentira seja aceita porque confirma aquilo em que desejamos acreditar. Não quero que o ressentimento substitua o argumento, que o grito substitua a informação ou que a crueldade seja tratada como coragem. Não quero que a minha geração, que aprendeu a valorizar a liberdade, termine confundindo liberdade com licença para ignorar os fatos. Farei a minha parte.

Não sou neutro diante da distorção da realidade, da intolerância e da tentativa de transformar a política em uma guerra de torcidas. E não ficarei apático e em silêncio nem faltarei com a coragem, afinal, silêncio não é neutralidade, e esperar não é saber. Vou continuar lendo, perguntando, comparando, desconfiando, procurando evidências e, sobretudo, pensando. Conheça e analise as propostas dos candidatos à presidência.

A propósito, coragem é mais afeta à luta do que à briga, pois a briga é impulsiva e momentânea, enquanto a luta é um ato de coragem que move as evoluções e revoluções. Aqui deixo uma sugestão de leitura: “A hora dos predadores: Como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado”, do cientista político e ensaísta suíço-italiano, Giuliano da Empoli. O livro é o terceiro volume de uma trilogia do autor sobre os mecanismos contemporâneos de poder, e analisa como uma nova aliança global ameaça as instituições democráticas tradicionais por meio de estratégias específicas.

A democracia não se exerce apenas apertando uma tecla na urna. Exercemos também a democracia antes e depois do voto: primeiro, na disposição de conhecer os candidatos, seu histórico e examinar suas propostas; depois, na vigilância, que passa por acompanhar, questionar e cobrar medidas concretas e de efetivo interesse público.

Para isso, a vida quer da gente coragem e atitude.

Auditor Fiscal e ex-presidente do SINDIFISCO-MG. Bacharel em Direito, economista, especialista em Direito Tributário, especialista em Inovação, mestre em Administração Pública. Atua em análises de políticas públicas e finanças públicas, com foco na redução de desigualdades, promoção de justiça social e fiscal.

A vida quer da gente coragem e atitude

Leia também:

Câmara de Três Marias recebe nova denúncia contra prefeito que teve cassação suspensa pelo TJMG

O municipalismo na mesa de transição do governo de Minas Gerais

A vida quer da gente coragem e atitude

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse