O antibolsonarismo ganhou. O petismo faria bem em perceber

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva
PT precisará aprender que, às vezes, dar um passo para trás é a única maneira de permitir que seu campo político avance. Foto: Renato Pizzutto/Band

Na noite de domingo, o Brasil assistiu a um acontecimento inédito. Pela primeira vez desde que adotamos as eleições presidenciais em dois turnos, o candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu vencer a segunda. Luiz Inácio Lula da Silva, que já havia conquistado um lugar bastante confortável nos livros de história, decidiu acrescentar mais um capítulo. Aos 80 anos, foi eleito presidente da República pela quarta vez.

Houve até duas viradas na apuração. Lula começou na frente, foi ultrapassado por Flávio Bolsonaro e retomou a liderança. Para um país que passou os últimos anos discutindo se conseguiria sobreviver à próxima eleição, foi uma maneira particularmente brasileira de encerrar o domingo.

Mas talvez a notícia mais importante não seja a vitória de Lula. É a descoberta, feita com considerável atraso pelo Partido dos Trabalhadores, de que existe vida inteligente fora do petismo.

Durante boa parte de sua história recente, o PT pareceu trabalhar com uma divisão bastante conveniente do eleitorado. De um lado, os que compreendiam a importância histórica do partido. Do outro, uma coleção heterogênea de fascistas, reacionários, neoliberais e pessoas que ainda não haviam recebido explicações suficientes sobre a importância histórica do partido.

A campanha de 2026 obrigou os petistas a reconsiderar essa classificação. Descobriram que havia uma direita democrática, que pessoas podiam discordar de Lula sem desejar um golpe de Estado e que nem todo eleitor disposto a impedir a volta da família Bolsonaro ao Planalto pretendia, em contrapartida, filiar-se ao PT.

Foi uma descoberta tardia, mas eleitoralmente proveitosa.

A vitória pertenceu a uma coalizão circunstancial que talvez mereça um nome próprio: antibolsonarismo. Não se trata de uma nova ideologia, tampouco de um movimento organizado em torno de um programa comum. Seus integrantes discordam sobre economia, costumes, tamanho do Estado e provavelmente sobre o que pedir no almoço. Concordam, porém, que a família Bolsonaro não deveria voltar à Presidência.

Essa concordância foi suficiente.

Em setembro, escrevi neste mesmo espaço que a apatia havia se tornado uma força decisiva da política brasileira. O eleitor cansado já não queria necessariamente trocar de lado. Queria distância. Não se interessava pela próxima batalha entre personagens que conhecia havia décadas e dos quais já ouvira praticamente todas as promessas disponíveis no mercado.

O segundo turno não desmentiu inteiramente aquela hipótese. Revelou uma de suas condições de contorno.

O eleitor apático pode voltar a participar quando encontra uma razão suficientemente forte para fazê-lo. A queda da abstenção, de 21,08% para cerca de 19,2%, e o crescimento expressivo da votação de Lula entre os turnos (mais 10,3 milhões de votos, contra 3,7 milhões de Flávio) sugerem que a mobilização foi importante para a virada. Não demonstram, isoladamente, de onde veio cada voto. Mas indicam que a campanha conseguiu alcançar pessoas que não estavam inteiramente disponíveis no primeiro turno.

O problema é que a razão encontrada foi, outra vez, negativa.

O Brasil conseguiu mobilizar parte de seus eleitores para impedir alguma coisa. Continua sem encontrar uma maneira particularmente convincente de mobilizá-los para construir outra.

Conheço essa contradição de perto. Não considero que meu voto tenha concedido a Lula uma autorização para fazer tudo aquilo que seu partido gostaria de fazer. Pelo contrário. Foi um voto condicionado à moderação que a campanha prometeu.

O petismo faria bem em não se esquecer disso quando começar a distribuir os cargos.

Há outro aspecto curioso nesta eleição. Em 2022, Lula chegou a prometer que seria “presidente de um mandato só”, e acabou concorrendo de novo. Agora, a hipótese de que esta tenha sido sua última campanha presidencial não depende de promessa: a Constituição o impede de disputar um terceiro mandato consecutivo em 2030. O partido que construiu sua identidade em torno de um homem finalmente precisará considerar a existência de um mundo político depois dele.

Não será uma transição simples. Se completar o mandato, Lula terá acumulado dezesseis anos na Presidência, ultrapassando o ditador Getúlio Vargas. Nenhum outro presidente brasileiro terá governado por tanto tempo em períodos democráticos. Ainda assim, o partido parece ter dedicado mais energia à preservação de sua liderança do que à preparação de sua sucessão.

Geraldo Alckmin oferece uma alternativa interessante. Durante o governo, ocupou uma posição frequentemente secundária. Na campanha, ganhou protagonismo e ajudou a dar credibilidade à promessa de moderação.

Seria razoável que esse protagonismo não terminasse na noite da vitória.

Na própria noite, ao menos, não terminou. No discurso da vitória, Lula cedeu a palavra imediatamente a Alckmin. Pode parecer detalhe de cerimonial, mas não é. Em 2022, o pronunciamento no hotel foi só de Lula; Alckmin faria seu primeiro discurso como vice eleito mais tarde, em cima de um trio na Avenida Paulista. Desta vez, o gesto de respeito à frente ampla foi muito maior.

O PT precisará aprender que, às vezes, dar um passo para trás é a única maneira de permitir que seu campo político avance. Em Minas Gerais, depois de esperar meses por Rodrigo Pacheco, recorreu a uma candidatura própria, a de Patrus Ananias, que terminou 29 pontos atrás de Cleitinho Azevedo, eleito já no primeiro turno, e tampouco se mostrou capaz de oferecer a Lula o palanque de que ele precisava. A recuperação presidencial no estado teve de encontrar outros caminhos. Derrotado em Minas no primeiro turno, Lula virou o estado no segundo, o único que trocou de lado.

A política mineira forneceu ainda um personagem que merece atenção: o próprio Cleitinho. Eleito com 55,4% dos votos válidos, declarou apoio a Flávio Bolsonaro desde o início da campanha e chegou a dizer que quem votasse nele deveria votar no candidato do PL. A transferência não se confirmou nas urnas. No domingo, Cleitinho chamou atenção ao promover um abraço entre eleitores adversários.

Num ambiente em que boa parte da política depende da preservação de inimigos, um abraço pode ser interpretado como uma provocação.

A derrota presidencial também abre uma fase delicada para o bolsonarismo. Michelle Bolsonaro e Carlos Bolsonaro foram eleitos senadores, pelo Distrito Federal e por Santa Catarina. Flávio, derrotado na disputa pelo Planalto, ficará sem mandato a partir de fevereiro de 2027, quando termina sua passagem pelo Senado. Jair Bolsonaro segue cumprindo pena, desde março em prisão domiciliar humanitária.

A família continuará politicamente relevante. Terá representação institucional, eleitores e capacidade de mobilização. Mas terá também um problema sucessório que o poder costumava ajudar a administrar.

Minha hipótese é que o bolsonarismo entre numa fase autofágica. A derrota produzirá uma procura por culpados. Governadores que não se empenharam suficientemente, aliados que não demonstraram entusiasmo adequado, dirigentes que erraram na estratégia e parentes que poderiam ter feito alguma coisa diferente passarão a integrar a lista de suspeitos.

Talvez consigam mobilizar o Senado para tentar o impeachment de Alexandre de Moraes, embora a condenação exija 54 dos 81 votos. Isso, porém, é muito diferente de conseguir a libertação de Jair Bolsonaro. São processos de natureza distinta, e uma eventual mudança na composição do Supremo não apaga automaticamente condenações.

A família terá de descobrir como administrar uma estrutura política poderosa sem a Presidência. É possível que consiga. Também é possível que seus integrantes passem a disputar entre si o direito de falar em nome de um patriarca que já não pode exercer o poder.

A história das dinastias políticas brasileiras recomenda cautela com previsões de desaparecimento. Elas costumam sobreviver até mesmo às próprias derrotas.

A eleição também trouxe uma pequena reparação à minha categoria profissional.

Durante meses, parte do governo pareceu acreditar que os problemas de Lula eram essencialmente de comunicação. Era uma explicação conveniente, porque dispensava mudanças nas decisões que produziam insatisfação. Bastaria encontrar uma frase melhor, um vídeo mais interessante ou alguém que compreendesse os algoritmos.

A comunicação não faz milagres. Mas a campanha mostrou que profissionais competentes podem fazer diferença quando o candidato finalmente aceita ouvi-los.

A mudança de Lula entre os debates da Band e da Globo foi perceptível. Houve preparação, disciplina e maior cuidado com a maneira de apresentar argumentos. Não se tratou de uma transformação substancial do governo, mas de uma mudança na forma de disputar a eleição.

Há mérito profissional nisso.

O problema de muitos candidatos é que só começam a respeitar os profissionais quando percebem que podem perder.

O Rio de Janeiro ofereceu um exemplo ainda mais expressivo. Douglas Ruas venceu uma disputa que Eduardo Paes parecia considerar resolvida antes de começar. A campanha de Ruas, conduzida por uma equipe da qual participou meu amigo argentino Guillermo Raffo, trabalhou a imagem de um Rio real, que não se resume à capital e às prioridades de seus círculos políticos tradicionais.

Paes é um gestor experiente, com realizações administrativas relevantes. Mas experiência não substitui campanha. Sua confiança na vitória parece ter dificultado o reconhecimento de que havia um adversário competitivo do outro lado. No Rio, a arrogância política encontrou uma campanha adversária que soube explorar suas oportunidades. Em Brasília, Lula precisou perceber que sua condição de presidente não garantia a reeleição.

O marketing político ganhou o direito de reivindicar parte dos resultados. Não ganhou o direito de fingir que governa.

E é justamente o governo que começa a representar o maior problema para Lula.

A campanha terminou, mas as promessas continuam existindo. Lula e Flávio Bolsonaro apresentaram compromissos cujo financiamento merece explicações muito mais detalhadas do que as oferecidas durante a disputa. Desde o primeiro turno, Lula anunciou medidas que devem custar mais de R$ 50 bilhões nos próximos anos; Flávio prometeu um ajuste de 1,5% do PIB em 18 meses sem dizer que gastos cortaria. É uma tradição nacional prometer benefícios no domingo e descobrir a existência do orçamento na segunda-feira.

O próximo mandato enfrentará restrições fiscais importantes. O risco não se resume a um eventual corte de despesas ou aumento de impostos. Existe a possibilidade de que parte do ajuste aconteça pela inflação.

O mecanismo é conhecido. A inflação pode elevar receitas nominais enquanto determinadas despesas permanecem temporariamente sem reajuste equivalente. O governo melhora alguns indicadores à custa da perda de poder de compra da população. Não é um ajuste gratuito. A conta apenas chega por outro caminho.

Há também o risco mais grave de dominância fiscal, situação em que o desequilíbrio das contas públicas compromete a capacidade da política monetária de controlar a inflação. Se o aumento dos juros agrava de maneira persistente as expectativas sobre a dívida e o financiamento do Estado, a autoridade monetária pode perder parte de sua eficácia.

Não há fundamento suficiente para decretar que o Brasil já entrou nesse regime. Mas ignorar o risco seria imprudente.

É por isso que a possibilidade de Geraldo Alckmin assumir a Fazenda merece ser examinada como algo mais sério do que um gesto para tranquilizar investidores.

Não se trata de colocar um rosto moderado diante das câmeras enquanto as decisões continuam sendo tomadas da mesma maneira. Seria necessário conceder autonomia política para enfrentar escolhas difíceis, inclusive aquelas que Lula preferiu evitar no mandato que agora termina.

Fernando Haddad, que deixou a Fazenda em março para disputar o governo de São Paulo, não foi o único responsável pelos problemas fiscais do governo. Um ministro da Fazenda não consegue impor sozinho uma política econômica que o presidente não deseja executar.

Alckmin tampouco conseguiria.

Mas sua presença poderia representar uma mudança efetiva de orientação, desde que acompanhada de autoridade para negociar prioridades, conter despesas e enfrentar resistências dentro da própria coalizão.

O mercado financeiro, aliás, não deveria ser tratado como uma entidade dotada de sabedoria infalível. Sua disposição para acreditar em promessas fiscais improváveis não é exclusividade de um campo político. Houve quem demonstrasse notável tolerância com as promessas do bolsonarismo, mesmo quando a aritmética se aproximava mais de um programa de auditório do que de uma proposta econômica.

O problema não é convencer o mercado. É fazer as contas fecharem.

Talvez por isso valha registrar quem estava ao lado de Lula no discurso da vitória: Rafael Fonteles, reeleito governador do Piauí com mais de 70% dos votos. Fonteles concluiu a graduação em matemática aos 19 anos, com nota máxima, fez mestrado em economia matemática no IMPA e passou sete anos à frente da Secretaria da Fazenda do Piauí. É um dos raros petistas de quem ninguém duvida que saiba fazer conta, e isso faz uma diferença enorme. O PT tem um problema grave com a economia e, não raro, com a matemática.

E, finalmente, há a questão democrática.

Lula venceu prometendo reconhecer a legitimidade de pessoas que não compartilham sua visão de mundo. O PT chegou ao segundo turno disposto a conversar com eleitores de Augusto Cury, Renan Santos e outras candidaturas que, em circunstâncias normais, provavelmente seriam tratadas com alguma desconfiança.

Espero que essa disposição sobreviva à apuração.

Não é necessário que Lula abandone suas convicções. Tampouco seria razoável exigir que o PT deixasse de ser um partido de esquerda. O que se espera é algo mais simples: reconhecer que a vitória foi construída com pessoas que não pertencem ao partido e que não desejam pertencer.

Um Congresso hostil, com o PL dono das maiores bancadas da Câmara (121 deputados) e do Senado (28 senadores), poderá impor limites ao governo. Isso pode favorecer a negociação e a moderação, embora também possa produzir paralisia. A diferença dependerá da capacidade de transformar uma coalizão eleitoral em algum tipo de entendimento institucional.

Seria um desperdício histórico se o petismo interpretasse o resultado como autorização para voltar exatamente ao comportamento que tornou necessária a frente ampla.

A eleição de 2026 não resolveu a crise de representação brasileira. Mostrou que, diante de uma ameaça percebida como suficientemente grave, eleitores desinteressados ainda podem retornar às urnas. É uma descoberta importante, mas insuficiente.

Não podemos continuar oferecendo ao eleitor apenas a oportunidade de impedir o próximo desastre.

A democracia precisa voltar a produzir expectativas positivas. Precisa permitir que as pessoas votem porque acreditam em alguma coisa, não porque consideram intolerável a alternativa.

Durante a campanha, Lula finalmente pareceu compreender que havia uma direita democrática com a qual precisava conversar. Agora terá quatro anos para demonstrar que essa descoberta não foi apenas uma técnica eleitoral.

Na manhã seguinte à eleição, estou satisfeito com a derrota de Flávio Bolsonaro. Também me tranquiliza saber que não haverá uma vitória do filho a servir de instrumento político imediato para tentar libertar o pai.

Não sinto, entretanto, nenhuma felicidade especial pela vitória de Lula.

Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o resultado.

O presidente ganhou mais quatro anos. O petismo ganhou uma sobrevida. O antibolsonarismo cumpriu sua tarefa.

Falta descobrir se alguém será capaz de oferecer ao Brasil alguma coisa além da próxima eleição contra os Bolsonaro. Porque impedir o pior pode ser uma razão perfeitamente legítima para votar. Só não deveria ser a única razão que nos resta.

Profissional de marketing político, colecionador de histórias em quadrinhos e ingressos de shows. Coautor do livro “Cabeça de Candidato”.

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