Um dos mais, se não o mais improvável governador de estado eleito no Brasil, Cleitinho Azevedo, do alto de toda a sua inexperiência administrativa e pouco conhecimento geral, a despeito, como sempre fiz questão de frisar e deixar claro, de ótimos propósitos e honestidade – até então, à toda prova -, calou a boca de muita gente, inclusive a minha, e é o grande vencedor dessas eleições.
E não apenas por ter sido eleito em primeiro turno em Minas Gerais, com estrondosos mais de 6,3 milhões de votos, mas por ter apostado em uma campanha sem ataques frontais a adversários diretos e, sobretudo, sem aderir à agressividade e à intolerância política comuns aos bolsonaristas contra a esquerda brasileira, como se as pessoas não tivessem o direito ao pensamento divergente.
Cleitinho apoiou explicitamente Flávio Bolsonaro e jamais deixou margem para dúvidas. Igualmente, jamais deixou margem para ser acusado de intolerante e antipetista. Ao contrário. Sempre disse que, uma vez reeleito o presidente Lula, iria procurá-lo pelo bem de Minas e do Brasil. Mais: o senador repete, a todo instante, que quer acabar com a polarização e unir o estado e o país. Acertou.
O “piá” perdeu
Do lado oposto, Nikolas Ferreira, o novo bezerro de ouro da política brasileira, pelo seu caráter messiânico e pela idolatria com que suas dezenas de milhões de fiéis lhe rendem devoção, perdeu e perdeu feio. Se é fato que se elegeu com mais de 3 milhões de votos e é o deputado federal mais votado do país, é fato que não se trata de uma unanimidade como pensa – e pensam seus fanáticos.
Menos pior assim, porque creio que Nikolas é o verdadeiro grande perigo para o Brasil – ao menos enquanto atuar como se fosse o escolhido de Deus e investir em desinformação e cisão social. Ao que tudo indica, será um dia presidente e terá a seus pés, além de dezenas de milhões de súditos, um Legislativo curvado. A partir daí, como já vimos na Hungria, Polônia, Turquia, Venezuela etc., tudo é possível.
Anotem: Cleitinho será bombardeado pelos bolsonaristas. Tentarão culpá-lo por ter sido equilibrado. Essa gente não percebe que jamais ganhará uma eleição nacional novamente sem o mínimo de temperança. Flávio chamou Lula de “nove dedos” em pleno debate da Globo. Cleitinho o teria orientado a tratar o petista como merece um senhor de 80 anos. Não foi ouvido.
Encerro
Espero que o governador eleito se mantenha assim. Não só porque é o melhor caminho como fará bem ao estado. As portas de Brasília não estão fechadas para Minas Gerais justamente pelo seu comportamento adequado. A crispação política só serve a quem pensa em si mesmo. E se o jovem ex-verdudeiro de Divinópolis pensa em voos mais altos, acerta mais ainda na escolha. Cleitinho está de parabéns.