14 erros que a direita e a esquerda precisam compreender

Urna eletrônica após conclusão do voto
Foto: Nelson Jr./Ascom/TSE.

Uma eleição não é vencida apenas com números, discursos, pesquisas ou engajamento nas redes sociais. Ela também é decidida pela maneira como o eleitor se sente diante de uma campanha.

O eleitor não é apenas um número na urna. É alguém que carrega histórias, dificuldades, sonhos, frustrações, medos e expectativas. Uma campanha que ignora esses sentimentos pode perder a conexão com as pessoas, mesmo quando acredita estar fazendo tudo certo.

A seguir, sete erros de cada campo político, analisados sob a perspectiva da comunicação, do neuromarketing e da psicologia das emoções.

Os 7 erros da campanha da direita

1. Zombar das dificuldades das pessoas, especialmente do desemprego

Chamar alguém de desempregado como forma de humilhação não é humor inteligente ou crítica assertiva para engajar nas redes. É desprezar uma condição que milhões de brasileiros já enfrentaram ou temem enfrentar. O desemprego representa, para muitas famílias, insegurança, perda de autoestima e sofrimento.

Análise emocional e neuromarketing: A humilhação pode provocar vergonha, raiva e rejeição. Pela psicologia da identificação, quem presencia a ofensa pode se colocar no lugar da vítima, mesmo sem concordar politicamente com ela. O deboche pode até gerar aplausos entre apoiadores, mas também afastar quem já viveu aquela dor.

2. Dormir acreditando que a eleição já está ganha

O excesso de confiança é um dos maiores inimigos de uma campanha. Quando uma candidatura passa a agir como vencedora antes da apuração, corre o risco de reduzir o esforço, ignorar sinais de insatisfação e perder capacidade de reação.

Análise emocional e neuromarketing: O viés do excesso de confiança leva as pessoas a superestimar suas chances de sucesso. Para o eleitor, a sensação de vitória antecipada pode transmitir arrogância e diminuir a percepção de que sua participação importa.

3. Confundir números de internet com votos nas urnas

Milhões de visualizações, milhares de comentários e tendências nas redes sociais não significam, necessariamente, milhões de votos. O ambiente digital pode amplificar grupos muito engajados sem representar proporcionalmente o conjunto do eleitorado.

Análise emocional e neuromarketing: O efeito de câmara de eco reforça convicções dentro de grupos semelhantes. A repetição de mensagens produz familiaridade, mas familiaridade não significa necessariamente confiança ou intenção de voto. Alcance digital e comportamento eleitoral são indicadores diferentes.

4. Atacar regiões do Brasil e diminuir quem vive nelas

Desqualificar o Nordeste ou qualquer outra região do país é desconhecer a história e a dignidade de milhões de brasileiros. Ao atacar uma região marcada por profundas desigualdades históricas e por histórias de superação da fome e da pobreza, a campanha não atinge apenas uma preferência política: atinge identidades, famílias e memórias.

Análise emocional e neuromarketing: A identidade regional está ligada ao pertencimento e ao orgulho coletivo. Quando alguém sente que sua origem está sendo desrespeitada, pode interpretar a agressão como um ataque à própria família. O resultado pode ser rejeição emocional duradoura.

5. Transformar adversários em inimigos e eleitores em adversários

A disputa política precisa de contrapontos, mas existe uma diferença enorme entre criticar ideias e desumanizar pessoas. Quando uma campanha trata quem pensa diferente como inferior, deixa de discutir projetos e passa a estimular ressentimentos.

Análise emocional e neuromarketing: A ameaça à identidade social pode provocar reações defensivas. Ataques pessoais tendem a reforçar a resistência de quem se sente ofendido, dificultando o diálogo e a reconsideração de opiniões.

6. Acreditar que a agressividade é sempre demonstração de força

Falar alto, ridicularizar adversários e transformar toda divergência em confronto pode produzir vídeos virais, mas não necessariamente construir credibilidade. A firmeza de uma liderança não precisa estar associada à grosseria.

Análise emocional e neuromarketing: Emoções intensas, como indignação e raiva, podem aumentar a atenção e o compartilhamento de conteúdos. Entretanto, atenção não equivale a confiança. Uma comunicação agressiva pode mobilizar apoiadores e, simultaneamente, gerar desgaste entre outros públicos.

7. Falar apenas para quem já concorda com a campanha

Uma campanha que vive exclusivamente para receber aplausos de seus próprios seguidores pode perder a capacidade de ouvir a sociedade. O desafio da comunicação política não é apenas reforçar convicções, mas compreender demandas reais, inclusive de quem discorda.

Análise emocional e neuromarketing: O viés de confirmação faz com que as pessoas valorizem informações compatíveis com suas crenças. Quando uma campanha se alimenta apenas desse retorno, pode criar uma percepção artificial de consenso e subestimar preocupações legítimas.

Os 7 erros da campanha da esquerda

1. Achar que a eleição está ganha simplesmente porque está no poder

O poder pode oferecer visibilidade, mas não garante aprovação. A sensação de superioridade, a autossuficiência e a postura de quem acredita ter direito natural à continuidade podem transmitir uma imagem de soberba.

Análise emocional e neuromarketing: A arrogância percebida pode enfraquecer a confiança. O eleitor tende a avaliar não apenas o que uma liderança entrega, mas também se ela demonstra respeito, escuta e responsabilidade diante das necessidades da população.

2. Usar as redes sociais apenas quando o desespero eleitoral aparece

Não é possível construir, em 45 dias, toda a conexão que deveria ter sido cultivada durante quatro anos. Redes sociais não devem funcionar apenas como ferramentas emergenciais de campanha. Elas também são espaços permanentes de diálogo, prestação de contas e relacionamento com a sociedade.

Análise emocional e neuromarketing: A familiaridade construída ao longo do tempo pode favorecer reconhecimento e confiança, desde que acompanhada de experiências positivas. A comunicação que aparece apenas para pedir apoio corre o risco de ser percebida como oportunista.

3. Acreditar que políticas públicas se comunicam sozinhas

Realizar obras, ampliar serviços e apresentar indicadores não significa que a população compreenda automaticamente seus resultados. Uma gestão pode produzir entregas importantes e, ainda assim, falhar em explicar o que mudou concretamente na vida das pessoas.

Análise emocional e neuromarketing: Informações concretas e histórias humanas podem facilitar a compreensão e a lembrança. O cérebro tende a processar com mais facilidade exemplos próximos da experiência cotidiana do que conjuntos abstratos de números.

4. Desqualificar críticas e tratar toda insatisfação como desinformação

Nem toda crítica nasce de manipulação política. Muitas surgem de dificuldades reais. Quando uma liderança responde a reclamações com superioridade ou desprezo, corre o risco de ampliar a distância entre governo e sociedade.

Análise emocional e neuromarketing: A invalidação de sentimentos pode produzir resistência psicológica. Quando alguém percebe que sua experiência está sendo negada, pode se tornar menos receptivo à mensagem, mesmo diante de argumentos tecnicamente corretos.

5. Usar uma linguagem distante da realidade cotidiana

Termos técnicos, discursos excessivamente ideológicos e explicações burocráticas podem dificultar a compreensão de propostas. Uma comunicação que não consegue traduzir ideias complexas para a vida cotidiana perde clareza.

Análise emocional e neuromarketing: O princípio da fluência cognitiva indica que mensagens mais fáceis de compreender tendem a ser processadas com menor esforço. Isso pode favorecer a percepção de clareza, embora não garanta concordância ou credibilidade.

6. Acreditar que o apoio de artistas e influenciadores substitui a conexão com a população

O apoio de personalidades pode gerar visibilidade, mas não deve ser confundido com representatividade eleitoral. A popularidade de quem declara apoio não se transfere automaticamente para uma candidatura.

Análise emocional e neuromarketing: A transferência de atributos, conhecida em marketing como efeito halo, pode influenciar a percepção de uma mensagem. Porém, quando o público não identifica autenticidade ou afinidade, o apoio pode ter efeito limitado ou até contrário.

7. Confundir defesa da democracia com superioridade moral

Defender valores democráticos é legítimo e necessário. O erro aparece quando uma campanha transmite a ideia de que somente seus apoiadores possuem consciência, inteligência ou compromisso com o país. Discordar politicamente não torna alguém moralmente inferior.

Análise emocional e neuromarketing: A superioridade moral percebida pode provocar rejeição e polarização afetiva. Pessoas que se sentem julgadas ou desrespeitadas podem reagir defendendo ainda mais suas posições, em vez de considerar outros argumentos.

O que o neuromarketing ensina às duas campanhas?

Há cinco mecanismos importantes que ajudam a compreender esses erros:

Mecanismo – Possível efeito na percepção eleitoral

Identificação emocional – As pessoas reagem a histórias e situações que reconhecem em suas próprias vidas.

Aversão à perda – O medo de perder segurança, dignidade ou conquistas pode pesar nas decisões.

Viés de confirmação – O público tende a procurar e valorizar informações que reforçam crenças existentes.

Pertencimento social – Ataques à origem, à comunidade ou à identidade podem despertar reações defensivas.

Confiança e familiaridade – A comunicação consistente e respeitosa pode fortalecer relações ao longo do tempo.

Esses mecanismos são referências da psicologia comportamental aplicáveis à análise da comunicação. Não significam que exista um botão emocional capaz de determinar o voto: o comportamento eleitoral é complexo e depende também de condições econômicas, valores, experiências e avaliação dos candidatos.

Reflexão final: o maior erro é esquecer que o eleitor é humano

A direita precisa compreender que o deboche não é sinônimo de inteligência, a agressividade não é necessariamente força e a popularidade digital não representa, por si só, uma vitória eleitoral.

A esquerda precisa compreender que o poder não é propriedade, realizações não dispensam comunicação e nenhuma liderança está acima da necessidade de ouvir a população.

As duas precisam aprender que o eleitor não deve ser tratado como propriedade de um campo político.

Por trás de cada voto existe uma pessoa. Alguém que pode estar desempregado, enfrentando dificuldades financeiras, tentando sustentar uma família, esperando atendimento médico ou simplesmente desejando ser respeitado.

Uma campanha pode ganhar uma discussão e perder a confiança de quem está assistindo. Pode viralizar uma ofensa e comprometer sua própria credibilidade. Pode apresentar números impressionantes e continuar distante da realidade.

O voto revela uma escolha política. Mas a maneira como uma campanha trata as pessoas revela muito sobre sua capacidade de representá-las.

E talvez a maior lição seja esta:

Eleição não é uma disputa para descobrir quem consegue humilhar mais o adversário. É uma oportunidade para demonstrar quem está preparado para respeitar, ouvir e representar melhor a sociedade.

Especialista em Comunicação Estratégica, Marketing, Inteligência Artificial,
Design Thinking, Gestão de Riscos, Governança e Compliance.

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