Boqueirão de Unaí: acampamento da fé e da memória sertaneja

Foto: Divulgação

Vi com os próprios olhos o que tantos já me haviam contado com brilho na voz: o Boqueirão de Unaí é um daqueles raros lugares onde a fé ainda tem cheiro de lenha, som de viola e poeira de estrada. Às margens do Rio Preto, numa dobra esquecida do Noroeste mineiro, ergue-se todos os anos um acampamento ancestral que parece saído das páginas de “Grande Sertão: Veredas” — como se Riobaldo, Diadorim e todo um Brasil profundo ali se assentassem para rezar, comer e contar causos ao pé da fogueira.

É a Festa de Santo Antônio do Boqueirão, que chega à sua 277ª edição, reunindo dezenas de milhares de romeiros onde vivem, no restante do ano, apenas cinco famílias. Ali, entre duas igrejas simples — uma antiga, fincada no exato lugar onde apareceu a imagem do santo; a outra, maior, para acolher os fiéis — acontece algo mais do que uma festa: uma cerimônia do tempo, um ritual de pertencimento.

Dizem que, séculos atrás, encontraram ali a imagem de Santo Antônio. Levaram-na para Paracatu, então sede da freguesia. Mas a imagem reapareceu, sozinha, de volta ao Boqueirão. Desde então, o povo voltou também — e nunca mais deixou de voltar.

É a fé que acampa. Vi barracas erguidas com paus de buriti, plásticos, cobertores e redes. Vi fogões improvisados, tachos fervendo, panelas comunitárias e crianças correndo entre lonas e bancos de madeira. Cada família guarda sua barraca, como quem guarda um lugar no mundo. Há quem venha de Unaí, de Paracatu, do Norte de Minas, mas também de Goiás, da Bahia, do interior de São Paulo. Chegam de barco, a pé, em carro de boi, em caminhonete, a cavalo. A geografia do sertão se reencontra ali.

Lembrei-me das picadas de Goyaz, trilhas abertas com suor e reza pelos antigos tropeiros. Era por essas rotas que seguiam os comboios de gado, os carregamentos de sal, os andantes com seus santos no bornal e a Bíblia na boca. O Boqueirão guarda essa memória: não só como lembrança, mas como prática viva. A tradição tropeira reaparece na forma do acampamento familiar, onde a fé se transmite como o ofício do pai para o filho.

A trezena — os treze dias que precedem o dia do santo — é vivida com intensidade: missas de hora em hora, procissões, cortejos, ladainhas, comidas típicas, velas acesas. E, acima de tudo, os reencontros. “Aqui a gente vê o primo que não vê o ano inteiro”, me disse uma senhora sentada à sombra da lona, virando com cuidado o pão de queijo no forno de lata. “Aqui a gente relembra os que já partiram também.”

O Boqueirão é, mais que tudo, um lugar de memória. E não falo de memória como passado engessado, mas como aquilo que nos move e nos ancora ao mesmo tempo. Guimarães Rosa já dizia: “Viver é muito perigoso, mas é preciso.” Talvez seja por isso que o povo de Unaí segue voltando para esse mesmo pedaço de chão, todos os anos, como quem volta à casa da infância.

Nada ali é monumental, mas tudo é essencial. O Boqueirão não é monumento — é gesto, é encontro, é herança do chão. É o lugar onde a fé se encosta à memória, onde os filhos herdam as barracas dos avós como se herdassem a própria terra.

Não há placas de bronze, mas há gerações inteiras dizendo: “Aqui é meu lugar de voltar”.

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