Brasil, o país dos amigos. E dos amigos de meu pai

O idealizador do departamento de propinas da Odebrecht é, hoje, mais inocente que um monge budista
Marcelo Odebrecht, a segunda "alma mais honesta deff paíff" (Foto: Reprodução)

No dia 11 de abril de 2019, a revista eletrônica Crusoé, do site O Antagonista, publicou uma reportagem exclusiva com o seguinte título: “O amigo do amigo de meu pai”. Tratava-se de uma informação – obtida a partir de um documento que a revista encontrou em um processo da Operação Lava Jato -, de que este era o codinome (apelido) usado por Marcelo Odebrecht para referir-se a Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), em suas conversas com os executivos da então Odebrecht, hoje Novonor.

Três dias depois, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, a reportagem foi retirada do ar e o editor da revista, o excelente jornalista Mario Sabino, hoje no Portal Metrópoles, foi intimado a prestar depoimento na Polícia Federal (PF). Alguns dias após, a censura foi levantada e o codinome tornou-se conhecido por todos. Aliás, além da expertise em superfaturar e corromper, Marcelo Odebrecht e sua gangue eram experts em apelidos como “Coxa”, para a deputada petista Gleisi Hoffmann

(Em tempo: A lista completa dos codinomes, caso os leitores queiram se divertir, encontra-se disponível neste link do G1)

Marcelo referia-se assim a Toffoli (amigo do amigo de meu pai) por causa de sua proximidade com Lula, e deste, com Emílio Odebrecht – seu pai. Em março de 2016, quando a Lava Jato ainda seguia viva, o “príncipe” foi condenado a 19 anos de prisão. Após acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal (MPF), homologado pelo STF, teve a pena reduzida para 10 anos, e depois, para sete anos. Após pouco mais de dois anos de cadeia, foi cumprir sua sentença em casa, em prisão domiciliar. 

Nesta infame terça-feira (21), dia que ficará marcado na história brasileira como o “escárnio dos escárnios”, a Suprema Corte extinguiu uma condenação do mensaleiro, quadrilheiro, terrorista, corrupto e falsário José Dirceu, por uma destas tecnicidades jurídicas, quase exclusivas aos poderosos e seus advogados de sete dígitos, ao mesmo tempo em que anulou todos os atos da Lava Jato contra Marcelo Odebrecht. Leia-se: deixou o idealizador do departamento de propinas da empreiteira mais inocente que um monge budista.

Sim. O “CEO” do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht, que corrompeu metade dos políticos e governantes deste pobre País – e de outras pocilgas mundo afora -, que confessou, ao lado de quase 80 executivos da companhia, crimes e mais crimes de corrupção, evasão de divisas, sonegação fiscal, formação de quadrilha, superfaturamento etc., hoje, tem a ficha limpinha, limpinha. As planilhas, os nomes, os depósitos, o dinheiro devolvido? Bobagem. Foi tudo ilusão de ótica. Delírio coletivo após a canetada suprema.

Sou nascido em Brasília, e por lá vivi até os 10 anos de idade. Cresci, portanto, na capital da carteirada, do “sabe com quem você está falando”? Todos conhecem, também, o significado de QI (Quociente de Inteligência), abrasileirado para “quem indicou”. E sempre foi notório, em Banânia, o mais eficiente cartão de visitas: “sou amigo de…”. A decisão monocrática de Dias Toffoli, anulando o passado criminoso de Marcelo Odebrecht (em relação à Lava Jato), prova e comprova que o Brasil é, de fato, o país mais amigável do mundo.

Ricardo Kertzman é empresário, e há 8 anos milita no jornalismo profissional. Tem passagens pelo jornal Estado de Minas e Portal UAI, com a coluna Opinião Sem Medo; pela revista e site da IstoÉ; pela Rede 98 e a Rádio Itatiaia, como comentarista do Conversa de Redação. Escreve para a revista Encontro e o portal O Antagonista.

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