Erika Hilton, Oruam e a armadilha da política em voz alta

Foto: Divulgação/Montagem

Na era das redes, onde cada gesto vira manchete e cada fala vira corte, o caso entre a deputada Erika Hilton (PSOL) e o rapper Oruam diz muito mais sobre o funcionamento da política digital do que parece à primeira vista.

Tudo começou no dia 7 de junho, quando um jovem foi morto durante uma ação da PM no Morro de Santo Amaro, no Rio de Janeiro. A tragédia gerou forte comoção na comunidade. No dia seguinte, Oruam — filho de Marcinho VP, figura conhecida do Comando Vermelho — usou suas redes sociais para protestar e lançou uma pergunta direta: o que ele precisava fazer para ser respeitado como liderança política nas favelas?

A pergunta viralizou. E a resposta de Erika Hilton também.

No X (antigo Twitter), a deputada afirmou: “A transformação vem da organização coletiva… não vai ser chutando que vamos mudar a realidade dele”, sugerindo que o rapper buscasse se aproximar de coletivos e movimentos comunitários sérios, como o DPN, Entidade Maré e Mães de Manguinhos. A frase se espalhou rapidamente, como tudo que toca as camadas tensas da política brasileira: por um lado, gerou elogios à tentativa de construção política; por outro, críticas de todos os matizes.

A direita, como era previsível, reagiu com fúria. O MBL apresentou uma representação à PGR contra Erika, acusando-a de fazer apologia ao crime. E em meio ao linchamento digital, surgiu uma acusação recorrente: Erika estaria “passando pano” para um suposto criminoso — mesmo com Oruam não sendo réu em nenhum processo. A própria deputada respondeu: “Não passei pano pra ninguém. Não endosso crime. Não compactuo com facções.”

Diante da escalada da polêmica, Erika Hilton publicou um vídeo no dia 15 de junho reconhecendo que “errou no tom” e que desconhecia parte das “problemáticas” envolvendo Oruam. Ela reafirmou que sua intenção era estimular um diálogo político com figuras que mobilizam a juventude periférica, não endossar qualquer ação ou ligação criminosa.

A repercussão, no entanto, já havia sido moldada.

Nas redes sociais, o sentimento geral foi misto: muitos elogiaram a capacidade de Erika em reconhecer um erro em público — algo raro na política institucional — e reafirmar seus compromissos com a periferia. Outros, mesmo dentro do campo progressista, viram oportunismo. Um gesto que, apesar das boas intenções, soou mais como uma tentativa de se colocar em cena do que de construir pontes reais.

E é justamente aí que a crítica mais contundente se sustenta.

Se o objetivo era realmente dialogar com Oruam e seus milhares de seguidores, por que fazer isso diretamente nas redes? Por que não buscar um contato no bastidor, com escuta, respeito e sem a mediação do algoritmo? Ao escolher o feed em vez do privado, Erika trocou o processo pela performance. O diálogo virou conteúdo. A política virou post.

O episódio evidencia uma armadilha da política contemporânea: a de que todo gesto precisa ser público, rápido e viral. Mas a construção de vínculos, especialmente nas periferias, exige tempo, escuta e cuidado. Ao tentar dar uma aula pública, Erika foi cobrada como se tivesse escrito uma tese. E quando a internet cobra, não importa mais se você está certa — importa se você entregou o espetáculo certo.

No fim das contas, o caso deixa lições para todas as trincheiras. Oruam não é réu. Erika não defendeu crime. A morte de um jovem nas mãos da polícia continua sem respostas. E a política brasileira segue se equilibrando entre a necessidade do diálogo e o desejo da lacração.

O que faltou aqui não foi coragem — Erika teve. Faltou estratégia. Faltou bastidor. Faltou política de verdade, com o pé no chão.

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