Há famílias em que a vida pública chega muito antes da política partidária. Ela se instala nos gestos cotidianos, na educação dos filhos, no modo de compreender a cidade, na disposição de servir e na ideia, transmitida de uma geração a outra, de que o mundo comum exige participação. A história de Ione Pinheiro nasce nesse ambiente. Antes de existir uma família politicamente influente em Ibirité e na Região Metropolitana de Belo Horizonte, existiu uma casa em que a educação e a vida pública já ocupavam lugar central.
Sua mãe, Irene de Melo Pinheiro, é uma das figuras fundamentais para compreender essa origem. Órfã aos cinco anos, em Paracatu, Irene começou a trabalhar muito jovem e fez da educação o eixo de sua vida. Ainda moça, veio para Belo Horizonte e, aprovada em concurso público, seguiu para Ibirité. Ali encontrou Helena Antipoff, uma das personagens decisivas da história da educação brasileira no século XX. O encontro não foi circunstancial. Irene se tornaria sua discípula e participaria daquele universo pedagógico construído em torno da Fazenda do Rosário, onde educação, trabalho, experiência comunitária e atenção ao desenvolvimento humano se encontravam numa concepção que ultrapassava largamente os limites convencionais da escola.
Irene estudou Geografia e História na UFMG, aprofundou-se em Psicologia, orientação e administração escolar, integrou o Conselho Estadual de Educação e presidiu, em diferentes momentos, a Fundação Helena Antipoff. A educação, para ela, não era somente profissão. Ione recordaria, muitos anos depois, uma frase que sintetizava a vida da mãe: mudar pela educação era o seu lema.
Ao lado dela estava Antônio Pinheiro Diniz, o Tonico Pinheiro, motorista, comerciante, produtor rural e homem profundamente ligado à vida comunitária. Foi vereador por Betim quando Ibirité ainda era distrito, participou do movimento de emancipação do município e tornou-se prefeito entre 1967 e 1971. Se Irene representava a tradição da educação como transformação humana, Tonico encarnava uma política de proximidade, construída na relação direta com a comunidade e com os problemas concretos de um município em formação.
Foi nesse encontro entre escola e cidade, educação e política, que se formou a família que se tornaria uma das mais longevas presenças da vida pública de Ibirité e da Região Metropolitana. Dinis Pinheiro seria deputado estadual por cinco mandatos, primeiro-secretário e presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Toninho Pinheiro seria prefeito de Ibirité por três vezes e deputado federal por dois mandatos. A geração seguinte também chegaria à política, com Antônio Pinheiro Neto, o Pinheirinho.
Uma família política pode oferecer um sobrenome conhecido, relações construídas e portas previamente abertas. Não pode, contudo, transferir votos por herança nem substituir o julgamento que o eleitor faz de cada geração. É nesse ponto que começa, propriamente, a trajetória de Ione.
Antes de aparecer nas urnas, ela conheceu longamente a política por dentro. Pedagoga e empresária, atuou no setor têxtil e passou anos nos bastidores da vida pública. Foi chefe de gabinete de Dinis Pinheiro a partir de 1995, trabalhou junto à administração de Toninho Pinheiro em Ibirité e ocupou a Secretaria Municipal de Administração. Aprendeu, portanto, uma dimensão da política que raramente aparece no horário eleitoral: orçamento, equipe, demanda social, processo administrativo, negociação institucional, execução e a imensa distância que pode existir entre uma ideia e sua transformação em política pública.
Quando decidiu buscar um mandato próprio, a resposta não foi imediata. Em 2006, candidatou-se a deputada federal e recebeu cerca de 31 mil votos, insuficientes para a eleição. A derrota tem importância na biografia porque introduz uma diferença fundamental entre pertencer a uma tradição política e conquistar legitimidade eleitoral própria.
Ela voltaria às urnas em 2014, desta vez para a Assembleia Legislativa. Recebeu 81.956 votos e tornou-se a mulher mais votada entre as eleitas para deputada estadual naquele pleito. Foi reeleita em 2018, com 55.634 votos, e novamente em 2022, com 80.136. Três eleições consecutivas construíram uma trajetória que já não podia ser explicada apenas pelo sobrenome. Havia ali uma carreira própria, constituída pelo voto e pela permanência.
Na Assembleia, Ione transitou por temas distintos, mas que ajudam a revelar uma concepção bastante concreta do mandato: educação, inclusão, saúde, administração pública, infraestrutura, desenvolvimento regional, meio ambiente, direitos das mulheres e transporte ferroviário. Algumas leis ajudam a compreender essa maneira de atuar porque traduzem problemas cotidianos em mudanças objetivas.
Uma delas garantiu a emissão de diplomas e certificados em formatos acessíveis, inclusive em Braille. Outra assegurou às mulheres o direito de serem acompanhadas por pessoa de sua escolha em consultas, exames e procedimentos de saúde. São medidas que podem parecer pequenas diante das grandes disputas políticas, mas a política pública frequentemente muda a vida justamente nesses detalhes, quando reconhece uma vulnerabilidade concreta e estabelece uma garantia que antes não existia.
Em outros temas, Ione mostrou uma face menos conciliadora. Na área ambiental, especialmente em discussões envolvendo a Refinaria Gabriel Passos, a Regap, e a Lagoa de Ibirité, cobrou da Petrobras respostas sobre impactos ambientais e obrigações assumidas no território. Como vice-presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, participou de debates e cobranças públicas em torno de uma relação histórica entre atividade industrial, meio ambiente e qualidade de vida na região onde sua própria trajetória política se formou.
Também fez da ferrovia uma pauta recorrente, defendendo investimento no transporte ferroviário, a retomada de trens de passageiros e maior transparência sobre os recursos vinculados às renovações das concessões ferroviárias e sua aplicação em Minas Gerais. Há nisso uma leitura territorial do desenvolvimento: infraestrutura não apenas como obra, mas como capacidade de reconectar regiões e reorganizar oportunidades.
Mas há um eixo de sua passagem pela Assembleia que ultrapassa leis específicas e ajuda a compreender o lugar histórico ao qual sua trajetória chegaria em 2026: a presença das mulheres nas instituições públicas mineiras.
As primeiras deputadas estaduais de Minas Gerais, Maria Pena e Marta Nair Monteiro, chegaram à Assembleia em 1963. Desde então, a participação feminina avançou, mas de maneira extraordinariamente lenta. No levantamento histórico da própria Assembleia, entre os 645 parlamentares que haviam passado pela instituição, apenas 47 eram mulheres, diante de 598 homens. Num Estado em que as mulheres representam mais da metade do eleitorado, a desproporção não é apenas estatística; ela conta uma história sobre quem pôde, durante décadas, ocupar os espaços de decisão.
Essa história também foi construída por mulheres que abriram caminhos em épocas muito distintas: Maria Pena, Marta Nair, Júnia Marise, Maria Elvira, Sandra Starling, Marília Campos, Leninha e tantas outras. São trajetórias diferentes, ideologias diferentes, gerações diferentes. O que as aproxima é a experiência de entrar em instituições originalmente construídas e durante muito tempo ocupadas quase exclusivamente por homens.
Em 2021, quando a Assembleia criou sua Procuradoria da Mulher, Ione tornou-se a primeira procuradora-geral. A importância dessa função não está apenas no simbolismo. A Procuradoria criou uma estrutura permanente para receber e encaminhar questões relacionadas à violência contra as mulheres, inclusive a violência política, promover formação de lideranças femininas e incentivar a criação de procuradorias semelhantes nas câmaras municipais. A agenda deixava de depender apenas da atuação individual de parlamentares e passava a integrar a institucionalidade do Legislativo.
É justamente nesse ponto que a trajetória de Ione encontra outro espaço historicamente masculino: o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais.
Quando Adriene Andrade chegou ao Tribunal, em 2006, tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira naquela Corte. Ex-prefeita de Três Pontas, sua indicação partiu do então governador Aécio Neves e foi aprovada pela Assembleia. Adriene acabaria também se tornando a primeira mulher a presidir o TCE mineiro.
Seriam necessários vinte anos para que outra mulher chegasse ao Tribunal.
Em 2026, abriu-se uma vaga cuja indicação cabia à Assembleia Legislativa. Vários nomes chegaram a ser apresentados, mas a candidatura de Ione foi construindo uma convergência política ampla até que os demais concorrentes retiraram seus nomes. A comissão especial responsável por sua sabatina adquiriu, por si só, significado histórico: presidida por Lohanna, tendo Delegada Sheila na vice-presidência e Nayara Rocha como relatora, colocou mulheres no centro do processo de escolha de outra mulher para uma das instituições mais importantes do Estado.
Durante a sabatina, discutiu-se o chamado teto de vidro, essa barreira muitas vezes invisível que permite às mulheres avançar nas instituições sem que consigam, na mesma proporção, alcançar seus espaços mais altos de comando e decisão. Ione respondeu não apenas falando de sua própria trajetória. Leu, uma a uma, os nomes das 47 mulheres que haviam passado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
O gesto tinha força porque deslocava a conquista individual para uma história coletiva.
Em 15 de julho de 2026, Ione Pinheiro foi eleita pelo plenário da Assembleia com 71 votos para ocupar uma das sete cadeiras do Tribunal de Contas do Estado. Tornou-se a segunda mulher da história da Corte e a primeira escolhida diretamente pela Assembleia Legislativa para uma vaga destinada ao Parlamento.
Naquele momento, dedicou a conquista também às mulheres que haviam sido silenciadas, invisibilizadas ou impedidas de ocupar espaços de poder. Não era apenas uma formulação protocolar. Entre a primeira mulher a chegar ao Tribunal e a segunda haviam transcorrido duas décadas.
Há ainda uma coincidência histórica particularmente significativa nessa passagem de uma instituição a outra. Na sabatina, Ione afirmou compreender o controle externo não apenas em sua dimensão punitiva, mas também como atividade “educativa e construtiva”. A formulação aproxima, de maneira inesperada, o final dessa trajetória de seu princípio.
A menina formada numa casa em que Irene de Melo Pinheiro carregava a influência de Helena Antipoff chega ao Tribunal de Contas falando de educação como parte do exercício do controle público.
Não significa substituir fiscalização por benevolência. Tribunal de Contas existe para controlar, examinar legalidade, responsabilizar quando necessário e proteger o patrimônio público. Mas o controle moderno também pode prevenir, orientar, corrigir procedimentos antes que o dano aconteça e ajudar administrações a funcionarem melhor. Há nessa concepção alguma coisa daquela ideia antiga, aprendida na educação, de que instituições não existem apenas para sancionar o erro, mas também para produzir transformação.
A trajetória de Ione Pinheiro poderia ser narrada simplesmente como continuidade de uma família política. Seria verdadeiro, mas insuficiente. Herdou um sobrenome, uma história e um ambiente em que serviço público fazia parte da vida cotidiana. Herdou de Tonico a proximidade com a política municipal e de Irene uma visão de educação vinculada à transformação humana. Herdou também uma rede construída por gerações.
Mas há uma diferença entre aquilo que se recebe e aquilo que se faz com o que foi recebido.
Ione conheceu uma derrota eleitoral antes da primeira vitória; construiu três mandatos consecutivos na Assembleia; fez do voto sua própria medida de legitimidade; participou da institucionalização da agenda das mulheres no Parlamento e chegou a uma Corte em que, durante toda a sua história, apenas uma mulher a havia precedido.
Talvez seja nesse espaço entre herança e caminho próprio que sua biografia melhor se compreenda. A herança explica de onde ela veio. Não explica inteiramente onde chegou.
No começo dessa história está uma educadora que saiu de Paracatu, encontrou Helena Antipoff em Ibirité e acreditava que era possível mudar o mundo pela educação. Décadas depois, sua filha atravessa a Praça da Assembleia para ocupar uma cadeira no Tribunal de Contas dizendo que fiscalizar também pode significar orientar e construir.
Entre uma mulher e outra há uma família, um território e muitas décadas de vida pública. Há também uma ideia que sobreviveu à mudança das instituições: governar, educar e controlar são atividades diferentes, mas todas dependem da mesma responsabilidade diante daquilo que pertence a todos.
Colaboraram Victor Valverde e Dinis Pinheiro.