Magdala. A palavra, nas raízes antigas, remete à ideia de torre: algo que se ergue não para a vaidade, mas para a vigília; não para o ornamento, mas para a sustentação. Há nomes que parecem carregar um destino. Magdalena Rodrigues é desses casos em que o nome antecede a biografia: firmeza, permanência, presença que não se retira.
Conheci Magdalena em 2012, quando fui presidente da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. Ela, já presidente do SATED-MG, trazia consigo uma liderança iniciada no começo dos anos 1990 — e isso conferia ao encontro uma gravidade serena, como se a experiência chegasse antes da explicação. Alguns encontros não se organizam apenas pela circunstância; acontecem como pressentimento. Recordo-me de um leve tremor — um medo bom, desses que não diminuem, mas ampliam a percepção. Magdalena ocupava o espaço antes mesmo da palavra.
Desde então, acompanho sua trajetória. Já a vi nos palcos — e isso não é detalhe, é fundamento. Quem vive o teatro sabe que a arte não se sustenta apenas de ideias, mas de tempo, disciplina, corpo e trabalho. Vi Magdalena em Entre Quatro Paredes, montagem de beleza rara, daquelas que permanecem como medida: ali, o palco não era espetáculo; era humanidade exposta com rigor e verdade. Do drama ao popular, do risco ao humor, seu repertório atravessa mundos: Dagmar, a Perigosa; Adorável Pecado; Amor de Vampira; Deleite, Depois Delete. Obras que não se acumulam como currículo, mas como percurso — uma biografia feita de continuidade, não de passagem.
Depois, a vi em Pompéu, representando Dona Joaquina do Pompéu, grande matriarca do sertão mineiro. Ali, a interpretação ultrapassava o exercício cênico e se convertia em gesto de memória. Quando o teatro encarna uma figura histórica, devolve à comunidade uma imagem de si mesma — e, ao mesmo tempo, a interroga. É nessas horas que se percebe como Magdalena transita entre arte e território com naturalidade: ela dá corpo ao que Minas guarda, mas nem sempre consegue nomear.
Sua singularidade, contudo, está no modo como atravessa a fronteira entre a cena e a vida pública sem trair nenhuma das duas. À frente do SATED-MG, ocupa um lugar que não é apenas administrativo: é civilizatório. Porque o sindicato, quando cumpre seu papel, não faz ruído — cria sustentação. No cotidiano, isso se traduz em tarefas pouco visíveis e decisivas: registro profissional, mediação de conflitos, defesa de contratos, orientação constante, escuta de urgências, presença institucional quando o artista precisa existir também no plano formal. É esse trabalho silencioso que impede que a vocação se transforme em desamparo.
Sua defesa da arte começa exatamente aí: na compreensão de que não há estética sem condições de existência. Talvez por isso Magdalena, tantas vezes, pegue o microfone para defender artistas e técnicos com uma firmeza que dispensa estridências. Ela sustenta uma ideia simples e exigente — repetida não como retórica, mas como princípio: o artista é trabalhador. Quando se assume isso com honestidade, mudam as perguntas e mudam as respostas: contrato, remuneração, circulação, proteção social, reconhecimento. O que parecia bastidor revela-se, no fundo, como chão.
Houve um tempo recente em que a cultura foi empurrada para a borda do mundo. Naquele limite, tornou-se ainda mais nítido quem sustentava o essencial. Arte Salva e SATED caminharam juntos — política pública e organização da categoria, Estado e bastidor — como formas complementares de cuidado. Não se tratava de protagonismo individual, mas de parceria: garantir que a arte não desaparecesse porque seus trabalhadores não podiam desaparecer.
É nesse contexto que Wilma Henriques se torna memória viva. A necessidade de uma cadeira de rodas especial não era apenas uma urgência material; era um teste ético. Magdalena mobilizou apoios, buscou recursos, somou pessoas, até que a solução se viabilizasse. Wilma permanece — não como episódio, mas como lembrança permanente do que está em jogo quando se fala de cultura: vida concreta, dignidade, permanência.
Também por isso Magdalena transita com naturalidade entre linguagens. No audiovisual, participou de Contos de Minas (Rede Minas) e de As Mineiras, Uai, ampliando para a tela a mesma vocação: narrar Minas por dentro. O suporte muda; o compromisso permanece.
O que impressiona, afinal, é que sua firmeza não exclui a ternura. Magdalena cobra, porque direitos não se mantêm sem cobrança. Mas sua exigência não nasce do gosto pelo conflito; nasce do cuidado. E também constrói: participa, articula, conversa, insiste, costura. Há quem confunda conciliação com fraqueza; ela demonstra que conciliar pode ser, às vezes, a forma mais alta de coragem — manter o diálogo vivo sem ceder no essencial.
Sua trajetória fala menos de cargos e mais de postura. A postura de permanecer quando seria mais fácil recuar. A postura de sustentar a palavra quando ela é necessária. Talvez por isso a frase de Guimarães Rosa soe aqui menos como citação e mais como constatação: “O que a vida quer da gente é coragem.”
Este artigo teve a colaboração de Maurício Canguçu.