De Cordeirinho a Manhuaçu, nesses caminhos longos de Minas que costuram o Brasil por dentro, aprendi que a história não está apenas nos arquivos. Ela vive nas cidades, nas ruas, nas casas antigas hoje museus e nessa memória teimosa que Minas cultiva como quem guarda um parente. Por isso, neste 2 de dezembro, o país olha para dois aniversários que se encontram na mesma data: os 200 anos de nascimento de Dom Pedro II e os 305 anos da criação da Capitania de Minas Gerais.
Dom Pedro II nasceu em 1825 num Brasil raro no continente: o único Império independente das Américas, o único a manter uma monarquia depois de romper com a metrópole. Esse dado geopolítico moldou o século XIX. Enquanto repúblicas vizinhas se fragmentavam em guerras internas, o Brasil permaneceu territorialmente contínuo, estável e reconhecível. Essa coerência — tão pouco celebrada — deve muito às províncias estruturadas do interior, e Minas foi decisiva nesse processo.
Criada em 1720, Minas já possuía vida urbana intensa, câmaras ativas, irmandades fortes, escolas e um senso de organização pública que antecedia a própria ideia de Brasil. Quando Dom Pedro I percorreu a província, em 1822, para garantir seu apoio à Independência, a história produziu uma cena simbólica incomparável: foi justamente do Palácio dos Governadores, em Ouro Preto — sede do poder colonial português — que a Independência foi proclamada para Minas. O centro da autoridade lusitana converteu-se, de repente, no palco da autonomia brasileira. Sem Minas, a Independência não se sustentaria como Estado.
Dom Pedro II cresce nesse país interiorizado e, ao longo do seu reinado, volta inúmeras vezes a Minas para entendê-lo de perto. No Caraça, encontrou uma escola-modelo do século XIX brasileiro. Em Ouro Preto, registrou com sua própria câmera a densidade estética do barroco. Em Sabará, Serro, Campanha, Pouso Alegre e São João del-Rei, viu práticas comunitárias, religiosas e políticas que revelavam um Brasil profundo, complexo e diverso. No Jequitinhonha, encontrou o país ancestral — indígena, africano e sertanejo — que não aparecia nas representações oficiais.
Essa presença permanece viva na memória das cidades. Em quase toda casa oitocentista, alguém aponta o quarto onde “Dom Pedro II dormiu”, a janela por onde teria olhado. Parte mito, parte verdade — mas sempre afeto. Minas não apenas o recebeu: fez do Imperador parte de sua narrativa íntima.
A cartografia confirma essa ligação. Cidades como Visconde do Rio Branco, Conselheiro Lafaiete, Martinho Campos e Barão de Cocais carregam o nome dos homens de confiança do Segundo Reinado, como se Minas devolvesse ao presente a tessitura política do Império. E Belo Horizonte, planejada como capital republicana, revela involuntariamente essa permanência: dentro da Avenida do Contorno, a República consagrou os Inconfidentes; fora dela, porém, seus dois grandes eixos viários permanecem sendo Dom Pedro II e Teresa Cristina. A monarquia segue estruturando, silenciosa, o urbanismo da cidade.
O Bicentenário exige também lucidez. Dom Pedro II governou um país escravocrata. Embora tenha condenado a escravidão, não rompeu com ela com a urgência moral necessária. Essa é a falha incontornável de seu reinado — e celebrá-lo exige reconhecer isso sem atenuantes. A história é inteira: grandeza e sombra caminham juntas.
Ainda assim, seu legado permanece extraordinário. Dom Pedro II acreditava que o futuro do Brasil dependia de cultura, ciência e educação — e tratou esses pilares como política de Estado. Financiou expedições científicas ao Amazonas, fomentou o primeiro levantamento de línguas indígenas, introduziu a fotografia como instrumento público, incentivou a educação para surdos e lançou bases da preservação do patrimônio histórico. Ele não via o Brasil como cenário, mas como projeto intelectual.
Neste 2 de dezembro, ao celebrarmos os 200 anos de Dom Pedro II, Minas celebra também seus 305 anos como capitania. As duas datas, separadas por um século, iluminam uma verdade profunda: Minas ajudou a formar o Brasil que Dom Pedro II governou — e Dom Pedro II deu ao Brasil uma ambição intelectual que ainda não alcançamos plenamente.
E aqui está a síntese que importa: não é apenas olhando para montanhas que se entende Minas, mas para todo o território que ela representa — seus vales, seus campos, suas cidades, seus povos e sua profundidade histórica. Dom Pedro II voltou tantas vezes porque sabia que aqui havia uma chave para compreender o Brasil. Minas é interioridade no sentido mais amplo: geográfica, política, cultural e moral.
O Imperador compreendeu isso. Minas sempre soube.
Cabe agora ao Brasil — duzentos anos depois — decidir se deseja compreender-se também.