O rei teme o riso: a audácia do bobo e a fragilidade do poder

De que adianta o poder que não suporta a verdade irreverente de uma risada?
As Novas Roupas do Imperador, de Hans Christian Andersen (Google Images)

Esta reflexão surgiu quando recebi um conto sobre Triboulet, o lendário bobo da corte francês, gentilmente enviado pelo meu amigo Vasco. À primeira vista, parecia apenas uma anedota curiosa de um tempo distante. No entanto, conforme li, percebi que ali havia muito mais do que um episódio histórico. Havia um espelho incômodo refletindo verdades atemporais sobre o riso e o poder.

Triboulet serviu a reis poderosos na França renascentista e tinha o raro privilégio de rir do rei sem perder a cabeça – ou assim se pensava. Sua função era justamente aliviar tensões com piadas e expor com astúcia a hipocrisia dos poderosos, sob a proteção do título de bobo. Mas mesmo os bobos possuem uma linha invisível que não devem cruzar. Certo dia, Triboulet a cruzou.

No auge de uma brincadeira, diante de toda a corte, Triboulet tomou coragem e fez um gesto impensável: deu um tapa no traseiro do rei. O salão inteiro congelou em silêncio. Como reagir quando o riso transgride o sagrado protocolo da autoridade? Aquele instante suspenso revelou o perigo latente por trás da graça: a fronteira tênue entre o humor e a insolência, entre a verdade jocosa e a ofensa imperdoável.

Ontem, hoje e sempre

O rei – humilhado e enfurecido – decidiu que o bobo merecia a morte. Ainda assim, talvez pela longa lealdade de Triboulet, concedeu-lhe uma chance de redenção: pouparia sua vida se o bobo apresentasse um pedido de desculpas que fosse mais ofensivo que o tapa em si. Era uma exigência inusitada, um desafio quase perverso. Triboulet, trêmulo, mas sagaz, arriscou uma última piada: pediu perdão dizendo ter confundido o rei com a rainha. O atrevimento, que buscava ser espirituoso, acabou soando como um insulto fatal. A rainha era intocável. Evocá-la naquela desculpa maliciosa selou o destino do bobo.

Sentenciado à execução, Triboulet recebeu ao menos o direito de escolher a forma de sua morte. Encurralado diante do carrasco invisível, ele optou por usar sua derradeira arma: a irreverência. Sem titubear, declarou que desejava morrer de velhice. A resposta inesperada subverteu completamente a situação. O rei, desarmado pelo golpe súbito de humor, explodiu em gargalhadas. E assim, em vez de ordenar a decapitação, optou pelo banimento. Triboulet manteve a cabeça sobre os ombros, provando que a sagacidade podia triunfar onde a força bruta falharia.

Parece um conto distante, mas ecoa verdades próximas. Por que o poder teme tanto o riso? Por que a autoridade, seja de um monarca absoluto ou de um pequeno chefe cotidiano, reage de forma tão visceral à mínima sátira? O episódio de Triboulet expõe uma camada psicológica oculta: a insegurança que se esconde por trás da pompa. O rei, cercado de bajulação e cerimônia, viu sua aura de invencibilidade ruir por um instante quando virou motivo de riso. Aquele tapa irreverente não doeu na carne – doeu no ego.

Rir será sempre o melhor remédio

No silêncio horrorizado da corte manifestou-se um medo coletivo. Ninguém ousava rir do rei caído no ridículo, pois todos sabiam que, naquele ambiente, o riso podia matar. A risada, ali, era uma arma – capaz de ferir mais que espadas, capaz de abalar os alicerces do trono. Todo poder que se leva a sério demais pavimenta sua própria tragédia. Basta uma gargalhada fora de hora para expor a nudez do imperador.

O bobo, figura à margem da hierarquia, funcionava como uma válvula de escape social. Era permitido a ele dizer verdades incômodas de forma brincalhona, quase sem consequências. Quase. Triboulet vivia sob tensão constante, dançando na linha tênue entre graça e desgraça. Sua existência dependia do humor volúvel do rei. Quantas verdades ele calou, quantas engoliu em seco com um sorriso, por saber que mesmo a mais privilegiada das liberdades tem um limite afiado? Em que medida o bobo era livre, ou apenas mais um prisioneiro do jogo de poder que fingia ridicularizar?

Há também uma camada existencial nessa história. Diante da morte iminente, Triboulet escolheu rir. Transformou seu terror em piada e, com isso, recuperou uma liberdade fundamental: a de não se curvar completamente ao medo. Nesse gesto maiêutico – uma resposta em forma de pergunta à autoridade da própria mortalidade – há um vislumbre do absurdo de que falava Camus: confrontar o inevitável com desafio e humor, arrancando sentido do sem sentido. Não é o riso, afinal, uma forma de revolta contra a tirania do destino?

A pergunta que não quer calar

No fundo, por mais imponente que seja, toda autoridade esconde fraquezas quase patéticas. O rei poderoso revelou-se refém de sua vaidade ferida; o bobo condenado mostrou-se senhor da situação ao rir da própria sentença. Há uma inversão deliciosa e incômoda nisso. Os papéis se misturam. Quem detém de verdade o poder: quem impõe o medo ou quem consegue rir diante dele?

E nós, onde nos encaixamos nisso tudo? Quantas vezes, em nossa vida cotidiana, fazemos o papel de reis ofendidos por tão pouco? Não será o nosso ego uma corte tão suscetível ao riso quanto aquela de Francisco I? Talvez sejamos todos um pouco reis nus, temendo o espelho do humor que revela nossas vaidades ridículas.

A história enviada pelo amigo revelou-se então mais que uma curiosidade histórica – foi um convite à reflexão. Triboulet, com seu tapa insolente e sua esperteza final, nos obriga a encarar verdades desconfortáveis. Rimos tanto de Triboulet quanto do rei, mas rimos sobretudo de nós mesmos, projetados ali. No fundo, o bobo da corte nos pergunta, em silêncio e com um sorriso maroto, algo fundamental: “De que adianta o poder que não suporta a verdade irreverente de uma risada?

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