A notícia chegou sorrateira no feed, como se já nos conhecesse. Um aplicativo chinês, com nome de pergunta, exige que cada usuário acene, a cada dois dias, para provar que respira. Se o aceno não vem, um contato recebe um alerta; o espanto dos familiares tornou-se recurso de marketing. Não é um serviço para idosos perdidos numa metrópole; os downloads explodiram entre jovens em busca de uma mão invisível. Estamos tão perdidos que precisamos ser lembrados de que existimos? A morte, que sempre nos encontrou sozinha, agora delega suas visitas a um software.
A febre do Si le ma (ou “Você já morreu?”), agora chamado de Demumu, revela uma epidemia maior: o silêncio compartilhado nas redes, a solidão que se disfarça de mensagem de voz. Há quem estimule esse mercado com números e previsão de dividendos: milhões de pessoas vivendo sozinhas e uma em cada seis no mundo inteiro relatando solidão. Transformar a solidão em setor produtivo é uma ironia que nos deveria envergonhar. É a mesma lógica que nos vende amigos artificiais e companhia instantânea enquanto engorda um mercado que pode superar meio trilhão de dólares.
Não foi preciso esperar que a tecnologia chegasse a este ponto para que alguém percebesse o abismo. José Saramago, em As intermitências da morte, escreveu que no dia seguinte ninguém morreu. Ao imaginar o tédio infinito daqueles que não morrem e o desespero dos governos e igrejas que perdem seus rituais, o autor mostrou que o desaparecimento da morte expõe a nossa incapacidade de lidar com o outro. A morte, quando vai embora, revela que o horror maior não é partir, mas a indiferença de quem fica. No romance, a própria morte se humaniza, sente amor e compaixão; não há algoritmo que substitua esse gesto.
Hoje, as mesmas corporações que reinventaram a palavra “amigo” vendem aplicativos para avisar que você ainda está aqui. Elas fazem fortuna com aquilo que destruíram: o senso de comunidade. É um negócio perfeito; quanto mais nos isolamos, mais precisamos de seus produtos. Enquanto isso, as embalagens se tornam individuais e os lares, cápsulas de sobrevivência. Entre a promessa de segurança e a oferta de companhia sintética, resta pouco espaço para reconhecer a urgência de um abraço.
Há algo profundamente inquietante na ideia de um botão que comprova vida. Será que deixamos de estar vivos se não sinalizamos? A cada check-in imposto por uma tela, respondemos a uma instância abstrata que não tem rosto. Freud diria que negociamos com a pulsão de morte, tentando domesticá-la com pequenos rituais; Lacan talvez enxergasse no aplicativo a figura do grande Outro, a quem pedimos confirmação de nossa existência. Mas a pergunta persiste na forma mais simples: quem de nós, hoje, pode morrer sem que alguém dê falta?
Na crônica saramaguiana, quando a morte volta à cena, ela escreve cartas avisando com antecedência e não suporta quando uma delas retorna; decide ela mesma sair em busca do destinatário. Ao antecipar o drama do nosso tempo, Saramago nos diz que a morte, como a vida, precisa de reconhecimento. O aplicativo que pergunta se já morremos é um espelho sombrio dessa intuição. Ele nos obriga a admitir que morrer sozinho é menos pavoroso do que viver sem testemunhas.
Talvez o maior antídoto contra essa epidemia seja recuperar o gesto banal de olhar para alguém. Dizer “bom dia” com olhos e não com emojis, sentir a respiração do outro em vez de contar cliques no celular. As intermitências da morte não é só um romance; é uma antevisão de um mundo em que precisamos provar que existimos para quem não se importa. Se continuarmos a terceirizar nossas presenças a aplicativos, poderemos estar mortos mesmo quando ainda caminhamos na rua.