“A arte não reproduz o visível; ela torna visível.” A afirmação de Paul Klee ajuda a situar, com precisão, o lugar ocupado por Victor Dzenk no campo cultural contemporâneo. Há criadores cuja obra começa quando a carreira começa — e há outros, mais raros, cuja obra começa antes. Antes da técnica, antes do mercado, antes mesmo da escolha profissional. Começa na vocação.
Em Victor Dzenk, a forma não nasce de uma decisão racional. Nasce de um reconhecimento interior. Antes de ser estilista, ele já percebia o corpo como campo expressivo, a luz como matéria e o tecido como linguagem. Aos quinze anos, após formação em desenho, inicia sua atuação profissional em Belo Horizonte, passando por casas fundamentais do setor têxtil, como a Casa Rolla, referência em tecidos de alta moda na cidade. Em seguida, atua como assistente de estilo, desenvolve private labels para grandes redes e, ainda muito jovem, já assina coleções para marcas mineiras. Não como promessa juvenil, mas como resposta ao que Giorgio Agamben define como chamado: algo que não se escolhe, mas ao qual se responde. A vocação, aqui, não é desejo; é destino ativo.
Começar tão cedo produz mais do que experiência: produz estrutura estética. Aprende-se, antes do aplauso, o rigor; aprende-se que elegância não nasce do excesso, mas do controle; que sensualidade não é exposição, mas tensão; que vestir é um gesto cultural profundo, no qual o criador se relaciona com o corpo do outro. Essa formação precoce atravessa toda a obra de Dzenk e explica a coerência rara de sua linguagem ao longo do tempo. Sua moda nunca dependeu do efeito fácil: constrói-se pela permanência.
A ampliação de repertório vem com a experiência internacional em Paris, nos estudos na ESMOD. Não se trata de ruptura, mas de lapidação. O que era intuição ganha método; o que era sensibilidade ganha precisão. Em Victor Dzenk, a técnica nunca sufoca a poesia — ela a sustenta. Sua obra mantém fluidez sem dispersão, brilho sem estridência e sensualidade sem ruído, revelando o domínio de quem compreende profundamente a matéria com que trabalha.
A marca que leva seu nome surge em 1998, como projeto autoral estruturado, em parceria com seus irmãos, quando seu trabalho já alcançava reconhecimento. A estreia acontece na BH Fashion Week, seguida pela participação nas principais feiras de negócios do país. Em 2004, passa a integrar oficialmente o calendário nacional com desfiles no Fashion Rio, consolidando sua presença na moda brasileira. Anos depois, em 2014, estreia no São Paulo Fashion Week, ampliando o alcance institucional de sua obra. A isso se somam desfiles internacionais, inserindo sua criação em diálogo com outros contextos culturais. Ao longo desse percurso, leituras reiteradas da crítica especializada identificaram um traço constante: a força do feminino como eixo central de sua construção estética.
Os marcos estilísticos de sua trajetória são claros. O primeiro é a estamparia digital, da qual é precursor no Brasil, tratada não como ornamento, mas como narrativa visual. Em coleções inspiradas na Grécia clássica, em mitologias tropicais ou em símbolos como o beija-flor — figura associada à leveza, resistência e liberdade —, a estampa funciona como superfície simbólica, capaz de contar histórias. O segundo marco é o trabalho com malhas nobres e tecidos fluidos, aliados a uma modelagem que valoriza a silhueta feminina sem aprisioná-la. O terceiro é a construção da noite como território poético — não a noite do excesso, mas a da luz organizada, da presença segura, do feminino afirmado.
É necessário afirmar com clareza: a moda é uma das artes integradas da contemporaneidade. Ela não ocupa posição secundária em relação às artes visuais, à música ou à arquitetura. Opera com outros meios — tecido, corpo, movimento e tempo —, mas produz o mesmo efeito fundamental: sentido cultural. A obra de Victor Dzenk confirma isso ao circular não apenas nas passarelas, mas também em editoriais, figurinos para cinema, teatro e televisão, além de colaborações com artistas visuais, nas quais pinturas e linguagens gráficas são incorporadas às coleções, dissolvendo fronteiras disciplinares.
Essa compreensão do fazer como linguagem se estende à dimensão pedagógica e social de sua atuação. Dzenk desenvolve um trabalho consistente de mentoria, formando jovens designers a partir do contato direto com o chão de fábrica, transmitindo saberes que muitas vezes não aparecem na formação acadêmica. Vincula-se ao Maker Movement, defendendo o fazer manual como valor cultural, e conduz o projeto social Costurando Sonhos, voltado à capacitação de mulheres no ofício da costura. Aqui, a moda deixa de ser apenas criação e se torna transmissão de saber, autonomia e dignidade.
Nos anos mais recentes, sua atuação assume também um papel institucional. Como dirigente da A.CRIEM, atua na articulação do campo autoral da moda mineira, sendo curador do programa Passarela Liberdade, hoje em sua quarta edição. Nesse lugar, não apenas cria, mas organiza, projeta e reposiciona a moda de Minas Gerais no cenário nacional, reforçando sua condição de campo cultural estruturado.
O próprio Dzenk já afirmou que “a roupa precisa emocionar antes de vestir”. A frase desloca a moda do consumo imediato para a experiência estética. Vestir, aqui, é sentir. É produzir memória.
Victor Dzenk construiu uma obra que não depende da tendência nem do ruído do tempo. Ela nasce de uma vocação reconhecida cedo, cultivada com disciplina e traduzida em forma com maturidade. Sua moda não pede lugar no campo cultural. Ela já está nele. Colaborou Antônio Diniz