Todo território se constitui a partir de uma relação de poder. Ele não é apenas um espaço físico delimitado por fronteiras geográficas, mas um campo de forças no qual diferentes interesses se enfrentam. Essa disputa pode acontecer nas ruas, nos Estados e nas instituições, mas também no campo das ideias e nas paisagens digitais.
Um dos elementos centrais dessa disputa é o domínio do corpo. De um lado, estão aqueles que reivindicam o direito de serem donos de si mesmos, de decidirem sobre sua existência e de disporem livremente de seu tempo. Do outro, encontram-se aqueles que se especializam no desenvolvimento de tecnologias destinadas a controlar corpos alheios, especialmente os mais vulneráveis.
Extrair energia, atenção e tempo da maior quantidade possível de pessoas e transformar tudo isso em mercadoria pode representar um extraordinário sinal de rentabilidade. Tem sido assim desde a Revolução Industrial, passando pelo modo de produção escravocrata e chegando à sociedade de mercado. A economia, nesse sentido, também é uma ciência do corpo: interessa-se por seus movimentos, sua capacidade produtiva, seus limites e, sobretudo, pelas possibilidades de exploração de suas potencialidades.
Se o corpo é uma espécie de mina, com metais preciosos a serem extraídos, o tempo passa a ocupar uma posição fundamental nessa relação. Deixa de ser percebido como um tecido no qual construímos memórias e estabelecemos vínculos para se transformar em um dispositivo cada vez mais microscópico de otimização da eficiência e ampliação da lucratividade.
Tempo é dinheiro, eles disseram. Corpo é território, eles descobriram.
Por isso, ele deve estar sempre bem-disposto e atento. Afinal, um organismo cansado, fatigado ou exausto não produz na velocidade desejada. É preciso renová-lo com coaches e doses intermináveis de resiliência. Uma palavra curiosa, aliás. Originalmente, uma propriedade física dos metais que, mesmo depois de submetidos a uma força externa, conseguem recuperar sua forma inicial. O conceito se tornou uma qualidade moral exigida daqueles que precisam suportar sucessivas deformações sem demonstrar sinais de desgaste.
O problema é que o corpo pode até retornar ao trabalho, mas jamais regressa exatamente ao estado anterior. Mesmo quando amparado pela resiliência farmacêutica dos antidepressivos e indutores do sono, não recupera integralmente aquilo que perdeu.
Diferentemente do ferro, o corpo, quando retorcido e submetido à extração, produz experiências. E, ao contrário do que determinadas tradições filosóficas imaginaram ao longo do tempo, a consciência não é uma espécie de morada interior, uma alma que utiliza a carne apenas como meio de transporte.
A consciência é epidérmica. Ela se espalha pelo organismo inteiro, produzindo uma sensação de unidade entre membros e órgãos inicialmente distintos. Não temos simplesmente um corpo: somos um corpo. É por isso que o sofrimento, localizado em qualquer parte desse tecido, nos afeta por inteiro. A experiência humana não acontece fora da corporeidade.
Dizem que Rousseau caminhava cerca de vinte quilômetros por dia. Também defendia que a relação entre as pernas e a consciência era um alimento cotidiano para o pensamento. Para ele, seria impossível colocar a mente verdadeiramente em movimento sem movimentar também o corpo. Ainda bem que nasceu na França do século XVIII. Se estivesse por aqui hoje, talvez fosse diagnosticado com TDAH.
Nietzsche também se ocupava dessa relação. Em Crepúsculo dos Ídolos, afirma, em um de seus aforismos, espécie de para-choque de caminhão da filosofia, que os pensamentos produzidos durante uma caminhada são os mais valiosos.
Somos corpos em movimento. A questão é que, enquanto alguns organismos se deslocam por vontade própria, outros são obrigados a fazê-lo contra os próprios desejos. Tem sido assim desde a consolidação dos sistemas de exploração do trabalho, particularmente durante o período escravocrata.
Sair pela manhã, chegar tarde da noite, produzir durante horas ininterruptas e comprometer a própria existência em nome da sobrevivência são experiências comuns de pessoas que não dispõem plenamente da propriedade de si. Por não serem donas do próprio tempo, também não conseguem exercer integralmente o domínio sobre seus corpos.
A sociedade de massas, fundamental para o desenvolvimento dos regimes totalitários, também descobriu o potencial político dessa operação. Uma das formas mais eficientes de impedir que a violência seja percebida consiste em colocar inúmeros corpos marchando ao som da mesma música. Quando todos caminham na mesma direção, submetidos ao mesmo ritmo e orientados pelos mesmos comandos, as diferenças individuais desaparecem sob a uniformidade coletiva. Assim, nenhum corpo se percebe diferente e todos podem acabar marchando juntos em direção à mesma barbárie.
No entanto, a lógica de exploração dos organismos humanos atravessa uma profunda transformação com o advento da sociedade em rede. Agora, o corpo pode ser explorado mesmo sem realizar grandes deslocamentos, no aconchego do próprio lar, diante de uma tela. É nesse contexto que podemos compreender uma das transformações mais sofisticadas das relações contemporâneas de poder: o tecnofeudalismo.
Se, durante o capitalismo industrial, a fábrica representava um dos principais territórios de controle sobre os corpos, na sociedade em rede as plataformas digitais assumem parte dessa função. Mas não se trata apenas de controlar o lugar onde o trabalho acontece ou o tempo durante o qual ele é realizado. Trata-se de controlar a própria infraestrutura por meio da qual as pessoas experimentam a realidade.
O território deixa de ser exclusivamente geográfico e passa a ser também algorítmico.
As grandes empresas de tecnologia acumulam um poder que ultrapassa a comercialização de produtos e serviços. Elas controlam infraestruturas indispensáveis à vida contemporânea: mecanismos de busca, sistemas operacionais, redes sociais, serviços de armazenamento, plataformas de comércio, ferramentas de trabalho e ambientes de comunicação. Administram os espaços nos quais uma parcela crescente da existência humana acontece. O Feudalismo, como domínio territorial, ultrapassa uma simples metáfora.
No feudalismo histórico, os senhores controlavam a terra, os meios de produção e as condições de acesso aos recursos necessários à sobrevivência. Os vassalos, por sua vez, estabeleciam relações de dependência com esses proprietários, oferecendo serviços, fidelidade e obrigações em troca de proteção e acesso àquilo que não possuíam.
Na configuração tecnofeudal, as Big Techs ocupam uma posição análoga à dos senhores feudais. Seus territórios são os ecossistemas digitais, na extração de dados, na captura da atenção, nas taxas cobradas de intermediários e na dependência criada em torno de seus serviços.
Essas empresas não precisam possuir fisicamente os corpos para exercer domínio sobre eles. Basta controlar os ambientes nos quais esses organismos realizam suas atividades.
E quem são os vassalos dessa nova configuração? Somos nós, os usuários.
Somos os camponeses digitais que, em troca de acesso aparentemente gratuito aos territórios tecnológicos, oferecemos aquilo que temos de mais valioso: nossa atenção, nossos hábitos, nossos desejos, nossas relações e nosso tempo. Em resumo, nosso cotidiano. Entregamos informações sobre onde estamos, com quem conversamos, o que compramos, quais assuntos despertam nossa curiosidade, quais imagens nos provocam prazer e quais conteúdos nos causam indignação. Essa é a passagem do corpo feudal para o corpo digital. Quando não estamos comprando nada dos senhores feudais é porque nosso próprio corpo, ao produzir dados, informações e geoprocessamento é o produto.
Se na fábrica industrial o trabalhador precisava vender determinadas horas de sua existência, nas plataformas digitais o tempo pode ser capturado em fragmentos quase imperceptíveis. A jornada de extração não possui necessariamente começo ou fim. O tempo deixa de ser apenas uma mercadoria vendida pelo trabalhador e passa a ser um recurso continuamente disputado pelas plataformas.
O usuário acredita estar se divertindo, informando-se ou simplesmente passando o tempo. Entretanto, enquanto experimenta essas atividades, também alimenta sistemas de recomendação, fornece dados comportamentais e produz valor econômico.
O tecnofeudalismo não representa apenas uma nova forma de apropriação econômica. Ele constitui também uma sofisticada modalidade de domínio territorial dos corpos. A propriedade privada já não se limita à terra, à fábrica ou aos meios tradicionais de produção. Ela alcança as infraestruturas que organizam a percepção, a comunicação, a memória e o comportamento humano.
O corpo, que durante séculos precisou ser deslocado até os territórios de exploração, agora carrega consigo esse território. O feudo, agora, está bolso.