O advogado-geral da União, Jorge Messias, é hoje considerado o favorito para ocupar a cadeira do ministro Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF), que anunciou, na última semana, sua aposentadoria antecipada. Caso seja indicado para o cargo, Messias será colega de Gilmar Mendes, com quem esteve envolvido, há nove anos, em um dos episódios mais emblemáticos da operação Lava Jato.
Em março de 2016, o decano do Supremo suspendeu, por meio de decisão liminar, a nomeação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o cargo de ministro da Casa Civil no governo de Dilma Rousseff (PT). A medida foi tomada após a divulgação de interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal (PF), autorizadas pelo então juiz e hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR).
Nas gravações, Dilma menciona o envio de um assessor chamado “Bessias” com um documento de nomeação para Lula. A interpretação foi de que o ato garantiria ao ex-presidente foro privilegiado, transferindo para o Supremo os processos que tramitavam contra ele na primeira instância. O assessor citado era Jorge Messias, então subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil e servidor de carreira da AGU.
O episódio foi interpretado por Gilmar Mendes como tentativa de interferência nas investigações conduzidas pela Lava Jato. A decisão de barrar a posse de Lula como ministro ocorreu poucos meses antes do impeachment de Dilma e, sem foro, o petista foi julgado na primeira instância e preso em abril de 2018. Após 580 dias de prisão, foi solto por decisão do próprio STF.
Anos depois, o cenário se inverteu. Em 2023, Lula voltou ao Palácio do Planalto e Jorge Messias foi nomeado advogado-geral da União. Desde então, o “Bessias” se tornou o representante do governo perante o Supremo. Sua posse no cargo, inclusive, contou com discurso de Gilmar Mendes e com a presença de Dilma no palco.
Cabo eleitoral
Também na corrida pela indicação de Lula ao STF, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) é quem conta com o apoio de Gilmar Mendes. O ministro já disse, em rodas em Brasília, que a Corte precisava de “pessoas corajosas”, em referência ao parlamentar. O ministro Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), também são cabos eleitorais de Pacheco.
Como mostrou O Fator, Messias guarda algumas cartas na manga caso precise convencer o presidente de que é o nome mais preparado para a vaga aberta no Supremo. O principal ativo seria o histórico dele com Lula e nomes da cúpula do PT. Além disso, ele conta com um fator eleitoral a seu favor.
Lula já declarou, em diversas ocasiões, o desejo de ter Pacheco como seu palanque em Minas Gerais na disputa pelo governo do estado em 2026. No momento, o PT não dispõe de outra alternativa viável no estado e também faltam nomes competitivos da esquerda que despertem a confiança do presidente.
Além de Messias e Pacheco, aparece no páreo o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas. Nomes de mulheres para ocupar a vaga também são ventilados, por mais que interlocutores avaliem que a chance é pequena.
Relembre
O áudio divulgado pela operação Lava Jato é de uma ligação de 1 minuto e 35 segundos, realizada em março de 2016, entre Dilma e Lula. A petista disse que enviaria um “termo de posse” para Lula por meio de Jorge Messias, então subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil.
Dilma: Alô.
Lula: Alô.
Dilma: Lula, deixa eu te falar uma coisa.
Lula: Fala querida. “Ahn”
Dilma: Seguinte, eu tô mandando o “BESSIAS” junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso
de necessidade, que é o termo de posse, tá?!
Lula: “Uhum”. Tá bom, tá bom.
Dilma: Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.
Lula: Tá bom, eu tô aqui, eu fico aguardando.
Dilma: Tá?!
Lula: Tá bom.
Dilma: Tchau
Lula: Tchau, querida.